1 de abril de 2017 | Ano 4, Edição #32 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Humor Negro: O termo Negro e o Politicamente Incorreto.
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Ao fazer uma busca pela definição de “humor negro”, encontrei: humor feito com desastres, preconceito, racismo, entre outras questões. Isso mesmo: existe a definição de “humor negro” associada ao sarcasmo e ao riso em situações trágicas. Contudo, o que vemos nas imagens e em discursos que logo aparecem nessa busca são comentários e fotos racistas, principalmente com negros, seguidas de ofensas dirigidas a deficiente, gordos, mulheres e pobres. Quando o blackface surgiu e se popularizou durante o século XIX, a sua principal premissa era zombar das características de negros, exagerando tanto na representação estética quanto na atuação. Três séculos depois e aparentemente a sociedade ainda insiste na humilhação de negros como premissa para o humor. Para além da certeza que isso expressa um racismo estrutural e sistêmico, é fato que de alguma forma estamos atestando a nossa mediocridade enquanto sociedade já que ainda insistimos em zombar minorias de forma desumanizadora para a “alegria” de uma parcela sem senso crítico e humano, os tais “politicamente incorretos”.

Programas como Escolinha do Professor Raimundo, Zorra Total, Turma do Didi e principalmente o Pânico na TV foram sem dúvida sucessos por muito tempo no campo do humor; o que une todos esses é que as personagens femininas, além de não serem principais, eram geralmente vistas como objetos sexuais não dotados de inteligência. O Pânico na TV e atualmente Pânico na Band marcou a minha geração: víamos na televisão mulheres semi-nuas sendo tratadas como lixo, humilhadas publicamente, definidas como burras e, claro, objetificadas e desumanizadas. Se antes eu tinha sido acostumada a lidar com a turma do fundão chamando nós garotas de feias e jogando bolinhas, conforme fomos crescendo e esse programa se tornando um fenômeno na mídia, algumas pessoas repetiam práticas que viam na televisão. Hoje o Pânico ainda se mantém na TV e na rádio, com suas agressividade, racismo e misoginia; um dos casos mais absurdos da sua tentativa de fazer “humor” politicamente incorreto foi a personagem Africano, de Eduardo Sterblitch, onde ele além de usar blackface satirizava negros africanos, com atitudes animalizadas e selvagens. Pura xenofobia e racismo, que foi aprovado por uma série de supostos profissionais do humor acostumados a pôr mulheres, gordos e negros em situações ridicularizantes. Ou seja, é difícil ter noção de limites quando o parâmetro da sua suposta arte se baseia em naturalizar opressão.

Se de um lado Eduardo Sterblitch foi severamente criticado e com motivos, do outro se levantou a bandeira da defesa que, como sempre, pedia o fim do “mimimi” e dos ‘justiceiros sociais”. As críticas ao “humorista” não garantem impactos na sua vida, até porque ele aparece em programas da maior emissora do país. A conta bancária e a visibilidade se mantém intactas para a maioria dos racistas no Brasil; basta dizer que não sabiam o que estava acontecendo e tudo bem. O que não muda o fato que imigrantes africanos no Brasil são severamente humilhados, como uma notícia do começo do ano aponta sobre a abordagem policial, em que um imigrante africano sem pernas foi severamente maltratado por policiais que em público pediram para ele tirar suas roupas e arrancaram suas próteses. Então, qual é a graça em ser um negro nativo ou imigrante no Brasil, e até onde “piadas” não naturalizam o comportamento violento contra nós, as ditas “minorias”?

Antes que digam que eu estou personalizando a crítica, não posso esquecer dos humoristas no Youtube que têm condutas piores ou semelhantes. Já tivemos: Kéfera fazendo blackface, que os fãs defenderam postando uma foto sua com uma criança negra; Whindersson Nunes já ironizou estupros dizendo que caso não houvesse reação da vítima não era estupro e sim apenas sexo, e pediu desculpas depois, porém não é possível apagar que algumas pessoas viram esse vídeo e entenderam que é possível fazer “piadas” e relativizar esse tipo de situação. O pior é que algumas páginas que se dizem de humor continuam usando o comentário que ele fez onde dizia: “estupro é uma palavra muito forte, prefiro chamar de sexo surpresa”. Pediu desculpas sobre isso também, mas de quantas desculpas é feito o humor brasileiro? É realmente difícil ter um pensamento empático antes de criar um quadro de humo?

A mestre em filosofia, ativista e feminista Djamila Ribeiro disserta, em seu artigo, que o humor só faz sentido quando ele é uma arma para evidenciar opressões e não naturalizar e enfatizar as práticas preconceituosa: o verdadeiro humor é aquele que dá um soco no fígado de quem oprime. Djamila argumenta também que “Alguns humoristas, quando criticados, dizem estar sendo censurados. Há que se explicar para esses humoristas o que é censura. Primeiro, eles dizem e fazem coisas preconceituosas. Quem se sentiu ofendido, reclama. Onde está a censura nisso? Incomodam-se pelo fato de, cada vez mais, muitas pessoas denunciarem e gritarem ao ver suas identidades e subjetividades aviltadas; é como se dissessem ‘nem se pode mais ser racista, machista em paz’. Acreditam ter uma espécie de poder divino de falarem o que querem sem serem responsabilizados.”

O fato é que a censura é sempre usada como justificativa dos que odeiam as críticas sociais embasadas, que não são meros “mimimi”, mas sim a discordância dos que não concordam com uma normativa excludente pautada muitos humoristas, como Danilo Gentili, lembrado por Djamila Ribeiro no já citado artigo. Para que haja censura é preciso ter poder estrutural; as minorias zombadas pelos tais humoristas, em sua maioria homens brancos dotados de privilégios, não detém poder estrutural e exatamente por isso se enquadram no paradigma da “minoria” no que diz respeito a qualidade de vida e acessos. Sendo assim, esse é um apontamento falho e sem sentido. Já a crítica ao politicamente incorreto precisa parar de ser, essa sim, censurada pelos que julgam tudo como banalidade de “justiceiros sociais”. É necessário que a nossa noção e os limites ao dito “humor negro” comecem desde o nome, onde o termo “NEGRO” designa algo “ruim”. Para isso, portanto, é preciso considerar a palavra “negro”, do Latim nigru, que significa “de cor escura; a cor negra; homem de raça negra; aquele que trabalha muito”. Atualmente vista como positiva para se referir a afrodescendentes, foi usada como forma de identificar a inferioridade de africanos de pele escura, como o elucida o artigo “Quem tem medo da palavra negro” do Grupo Caixa Preta, de Porto Alegre:

a palavra “negro” porque ela é a única do léxico que, ao ser empregada para caracterizar organização humana, não isenta o racismo. Desde a antiguidade, através de suas correspondências em outros idiomas, vem acumulando história. Usada em diversos contextos para demarcar significados negativos ela foi também utilizada pelo racismo para caracterizar a suposta inferioridade dos africanos de pele escura.

Link para maiores informações: http://bit.ly/2nOBrL0

O termo “nigger” é também criticado como aponta o texto de Anderson Abreu no site Noticiário Periférico:

No período mais sombrio da discriminação dos povos Africanos/pretos, esta palavra foi usada para descrever os povos deste continente como sendo: Brutos desprovidos de intelecto humano respeitável, animais sexuais, intelectualmente atrasados, homem/mulher perpetuamente-criança, negligente da sua família biológica. Todos estes atributos negativos, foram associados na palavra “Nigger ou nigga”.(…) Esta palavra Nigger (Niga) é por isso pejorativa. No Inglês que antecedeu o actual, as variantes eram: negar, neegar, neger e niggor – que se desenvolveu para um léxico semântico paralelo na mesma língua. (…) Mas não importa a sua origem, o que vale aqui realçar é que este epíteto foi firmemente definido como palavra negativa, pois era/é usada para descrever negativamente os povos Africanos/pretos. Dois séculos depois, esta palavra representa o símbolo do racismo branco.

Link para maiores informações: http://bit.ly/2nXIPAr

A grande maioria dos sites de pessoas negras que se propuseram a falar da origem dessa palavra a colocam como sendo evidentemente um termo racista e ofensivo, porém ressaltam que no Brasil e fora daqui a palavra “negro” e seus derivados foram e são ressignificados por indivíduos afrodescentes e seus respectivos movimentos políticos, como aponta o já mencionado artigo “Quem tem medo da palavra negro”:

Tendo a palavra em foco servido para ofender, no momento em que o ofendido assume-a dizendo “eu sou negro”, o que ocorre é que ele dá a ela um outro significado, ele positiva o que era negativo. Aqui acontece algo estranho para quem ofende. Se a palavra perde o poder de ofender, ele, o ofensor, perde um instrumento importante na prática (discriminação) e na manutenção psíquica (o preconceito) do racismo. Por outro lado, a palavra “negro” não o deixa em paz, por trazer em sua semântica a histórica opressão escravista, colonialista, e desafia a convicção em que se baseia a doença psíquica do racismo. Qualquer circunstância de inferioridade ou igualdade a um negro desequilibra o branco racista, impelindo-o a comportamentos agressivos que podem, de alguma maneira, redundar em punição, inclusive a vingativa.

Esse assunto também foi debatido na revista Revista Ebony 23 em Novembro de 1967, no que diz respeito ao uso da palavra e derivados entre os norte americanos. Em nenhum momento quero proibir pessoas de usarem o termo “NEGRO” aqui no Brasil, tendo em vista que os próprios negros usam esse termo e o ressignificam para algo positivo, mas evidenciar que só apenas a dita “minoria” tem o poder de ressignificar o que nasce para lhe designar com teor pejorativo em algo positivo. E questionar se, em algumas expressões que não sabemos a data de origem, o termo negro não foi empregado com teor negativo, e que é mantido quando estas expressões são usadas para designar atitudes e ações agressivas ou repulsivas.

Já finalizando, no que diz respeito a limitar o que é dito “humor”, não quero censurar ou impedir nada, mas questionar se atualmente as redes sociais não seriam responsáveis por uma certa noção de que tudo é engraçado graças a possibilidade de tudo virar meme. Também não estão agindo na perpetuação do racismo e outras opressões que não foram foco deste texto, mas que vivem sendo ridicularizadas? Quando alguns indivíduos viram “meme”, não por admiração e respeito, mas sim pela visão de que são grotescos e exóticos. Uma mãe tenta banir da internet uma série de memes que compara seu filho deficiente com um cachorro. Pergunto novamente: qual o sentido e a graça nesse tipo de publicação e “piada”?  Assim como qual é o sentido e a graça em ver uma mulher negra, no caso Inês Brasil, ser severamente humilhada e colocada numa jaula numa festa e programa de televisão, pois ela é “diferente” e ela gera memes?

O humor negro, tido como politicamente incorreto, só faz sentido para aqueles que se sentem superiores a negros, mulheres, deficientes, lgbts, judeus, etc. O riso acima de nós, as ditas “minorias”, não é nada contemporâneo: nossos bisavós, tataravós, já fizeram isso. É muito fácil amar o politicamente incorreto quando você não sofre a opressão, contudo é mais fácil ainda amar o politicamente incorreto quando você é o opressor.

Stephanie Ribeiro
  • Colaboradora de Artes

Arquiteta e Urbanista, ativista feminista e escritora. Contribui com textos e artigos para diversos meios, além de participar de palestras e eventos. Trabalha em seu livro a ser lançado pela Cia das Letras em breve.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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