21 de abril de 2014 | Ano 1, Edição #1 | Texto: e | Ilustração: Verônica Vilela
Identidade de gênero: uma introdução
Ilustração: Verônica Vilela

Este texto é só uma pequeníssima introdução ao assunto da Identidade de Gênero. Pretendemos abordar diversas facetas do assunto em outros momentos, dentro da revista. O assunto quase não aparece na grande mídia e, então, este primeiro artigo não poderia deixar de ser muito básico. Se você se interessar, acesse os links disponibilizados no fim da matéria!

Eu me chamo Natália e consta na minha certidão de nascimento que pertenço ao sexo feminino porque tenho uma vagina. Portanto, meu sexo foi definido biologicamente, ou seja, tomando como base o órgão genital com que eu nasci.

Mas o que significa pertencer ao sexo dito feminino? O que significa ser “mulher”?

Assim como quase tudo que nos caracteriza, nosso gênero é construído pelas experiências que temos na vida, com quem mantemos contato, em que condições vivemos, em que cultura estamos, experiências que passamos, entre diversas outras coisas. Por isso dizemos que o gênero (ser “mulher”/”homem”) é uma construção social e não uma genitália. Uma parte dessa construção social de gênero é a construção dos papéis de gênero.

Nós começamos a entender qual é o papel do homem e da mulher (e o que significa ser cada um deles na nossa sociedade) desde pequenos: crescemos com tudo que nos cerca nos dizendo que porque somos meninas devemos gostar de bonecas ou, porque não somos meninos, não deveríamos brincar de carrinho. Aliás, antes de nascermos já começamos a ser definidos: desde o ultrassom quando o pai e a mãe, ao verem se o bebê tem um pênis ou uma vagina, decidem se o quarto vai ser azul ou rosa (se vai ter dinossauros ou florzinhas na parede e assim por diante).

Por essa lógica, nosso gênero estaria diretamente ligado a nosso sexo biológico (ter vagina ou pênis). A gente também aprende que, ao ter uma vagina, deveríamos gostar de quem tem pênis e vice-versa (em geral, nos ensinam que devemos ser heterossexuais). Ou seja, como se nosso sexo biológico também estivesse diretamente ligado a nossa orientação sexual (ser homossexual, bissexual, heterossexual, entre outros). Mas assim como meu sexo biológico (vagina) não define minha orientação sexual, o gênero com o qual eu me identifico também não – inclusive se eu me identifico com um gênero diferente daquele que me deram quando nasci.

Por isso, apesar de muita gente supor que toda travesti, transgênero, transexual (que são representados no termo trans*, junto com outros termos) é homossexual, isso não é verdade.

Uma pessoa trans* é aquela que se identifica com o gênero diferente do registrado no seu nascimento de acordo com sua genitália. Assim, um homem trans* é aquele que nasceu com uma vagina e se identifica com o gênero masculino; enquanto uma mulher trans* é aquela que nasceu com um pinto mas se identifica com o gênero feminino e, tanto um como outro, podem ter qualquer orientação sexual.

Então, desde que nascemos, vamos recebendo sinais de qual é o papel da mulher e do homem na sociedade, como se fossem duas caixinhas às quais temos que nos adequar. Por exemplo: nós mulheres somos designadas a casar, ter filhos e cuidar da casa e, então, desde pequenas somos estimuladas a brincar de boneca (imitando o que é ser mãe) ou de “cozinha” /”casinha” (imitando o trabalho doméstico). Para as pessoas que não se enquadram nessas caixinhas, sair delas é bem complicado . Quando a pessoa quer seguir o que não é esperado, está mais perto de ser marginalizado e de encontrar dificuldades para viver como quer. As pessoas trans* sofrem diariamente com a transfobia, que é a discriminação contra qualquer pessoa trans*.

Essa discriminação pode vir de diversas formas: desde o assassinato (simplesmente por ser trans*), dificuldade de conseguir emprego e até mesmo documentos que possam estar de acordo com como a pessoa gostaria de ser reconhecida. As pessoas (e são muitas) que cometem a discriminação contra trans* são chamadas de transfóbicas.

A seguir, a gente reproduz uma entrevista com a Daniela Andrade, que é mulher trans*, Diretora da LiHS – Liga Humanista Secular e Membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB-Osasco, (além de ter outras ocupações). O link pra entrevista completa tá aqui.

“As pessoas transexuais e travestis possuem prejudicada a inserção dentro da sociedade por meio de diversos mecanismos. As pessoas travestis e transexuais são aquelas que foram designadas como homens ou mulheres quando nasceram, de acordo com seus genitais, porém não se reconhecem com esse gênero registrado, tampouco se sentem respeitadas sendo tratadas pelo nome do registro civil, de forma que elas vão requerer o tratamento por outro nome e gênero. O nome que as pessoas travestis e transexuais é reconhecida e chamada em seu círculo social se chama ‘nome social’, que difere daquele o qual elas foram registradas. […] Não ter documentos adequados à sua identidade significa passar constrangimento, vexame e humilhação em diversos locais onde os mesmos são exigidos: escola, universidade, equipamentos de saúde, aeroportos, rodoviárias, delegacias, blitzes, hotel, motel, casas noturnas, ao alugar, vender ou comprar casas, apartamentos, carros, etc.”

A sociedade brasileira, no geral, é muito transfóbica. Mas é muito difícil para as pessoas cisgêneras (aquelas que se identificam com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer) perceberem isso. Essa tendência de “afastar” quem não está dentro das tais “caixinhas” é enorme, o que faz com que muitas vezes pessoas trans* deixem os estudos ou só consigam sobreviver através da prostituição:

“O mercado de trabalho geralmente relega à essa população os subempregos, o desemprego ou a prostituição, dado que, sendo reflexo da sociedade, não enxerga solução nessas pessoas, mas problemas.”

São diversas as dificuldades e humilhações pelas quais se passa por conta da transfobia, muitas delas mais bem explicadas na entrevista com a Daniela, que linkamos lá em cima!

Hoje em dia, algumas pessoas trans* ainda são diagnosticadas com transtorno de identidade de gênero, como se ser trans* fosse uma doença. Nós aqui não acreditamos que pessoas transgêneras são portadoras de doença ou distúrbio. Nós acreditamos que identificar a transgeneridade como doença é mais um jeito de excluir esse pessoal. Os homossexuais passaram pela mesma dificuldade de aceitação e inclusão, já que, até a década de 1980, ser homossexual era oficialmente ser considerado doente. E desde quando amar e ter uma identidade diferente do “normal” é doença?!

Resumindo: não é ter um pênis ou uma vagina que vai definir o gênero com o qual você se identifica. Esse é o caso da Daniela Andrade e de muitas outras pessoas por aí. Também é legal lembrar que o gênero não define ou interfere na sua orientação sexual. Uma pessoa cisgênera pode ter qualquer orientação sexual assim como uma pessoa trans*. Quer um exemplo? Guilherme, 31, é trans* homem e homossexual – o que quer dizer que ele nasceu com uma vagina, se identificou com o gênero masculino e se atrai por pessoas do gênero masculino. Amanda, 23, de São Paulo, é trans* mulher e heterossexual – o que quer dizer que ela nasceu com um pênis, se identificou com o gênero feminino e tem atração por pessoas do gênero masculino. Natália, 18, autora deste texto, é cisgênera e não gosta de enquadramentos – o que quer dizer que ela nasceu com uma vagina, se identificou com o gênero feminino e não quer enquadrar sua orientação sexual. Beatriz, 19, também autora deste texto, é cisgênera e se entende como bissexual – o que quer dizer que ela nasceu com uma vagina, se identifica com o gênero feminino e se atrai por pessoas pertencentes a dois gêneros.

A inclusão de pessoas trans* na sociedade está relacionada à desconstrução da ideia de gênero como algo diretamente ligado ao sexo biológico. A gente acredita na importância dessa desconstrução: o combate à transfobia é um jeito de olhar e garantir uma vida melhor pra muitas pessoas que não couberam em algumas caixinhas em que foram colocadas.

Infográfico: Isadora Campos

Infográfico: Isadora Carangi

GlOSSÁRIO
Cisgênero: Pessoa que tem sua identidade de gênero compatível com o gênero que lhe foi atribuido ao nascer.
Transgênero: Pessoa que tem sua identidade de gênero diferente da que seria compatível com o gênero que lhe foi atribuido ao nascer.
Papéis de gênero: Conjunto de ações e comportamentos que são relacionados ao feminino ou ao masculino. A idéia de que, por ter nascido com uma vagina ou um pênis, as pessoas devem ter determinada conduta.
Identidade de gênero: Referente ao gênero com o qual uma pessoa se identifica, independente de seu sexo.

PARA SABER MAIS

+ Por que usamos o termo trans* com este asterisco?
Trans* – Termo guarda-chuva

+ Blogs de pessoas trans*
Trans.parência
Alegria falhada

+ Sobre transfobia:
Vídeo: (trans)fobia
Vídeo: Direitos transexuais
Vídeo: (Trans)parência

+ Sobre a experiência pessoal:
João de Nery, trans* homem, autor de “Viagem solitária”

+ Sobre não-binarismo:
Batatinhas | Perspectivas trans* fora da binária

Beatriz H. M. Leite
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Beatriz H. M. Leite, 21, é paulistana e mora em Buenos Aires. Além de cartas não enviadas, coleciona cartões-postais e histórias dignas de novela mexicana.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

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