20 de outubro de 2015 | Ano 2, Edição #19 | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Ih, cresceu!

Há dois meses eu decidi adotar um cachorro. Isso quer dizer que há dois meses eu entrei em mais de dez grupos de adoção de animais em São Paulo, curti mais de vinte ONGs no Facebook e conversei com um monte de pessoas que resgatam animais todos os dias. Afinal, se fosse adotar um cachorro, queria fazer direito. Aprendi muitas coisas enquanto conversava com todas essas pessoas. E me toquei que adotar um cachorro realmente não é diversão e está longe de ser igual a ir na loja de brinquedos e escolher o bichinho de pelúcia que mais te agrada, embora muitas pessoas lidem com esse processo dessa maneira.

Filhotes vão ser sempre bonitinhos. Aquele pelo macio, aqueles olhos miudinhos, aquelas boquinhas quase sem dentes que fazem cosquinhas quando mordem. Filhotes brincam, mas não chegam a estragar nada. Fazem xixi e cocô, mas sem bagunçar muito a casa.

Mas cachorro cresce. Ficam muito peludos, a ponto de encher a casa inteira de pelo. Os dentes de leite caem e dentes afiados crescem no lugar, virando uma arma letal para qualquer objeto deixado ao seu alcance. E às vezes até machucam quando mordem, mesmo que sem querer. Eles fazem muito xixi e muito cocô, algumas vezes no lugar errado. Às vezes até o abanar do seu rabo pode acidentalmente deixar algo cair no chão ou machucar. A verdade é que, como todos os outros animais, eles crescem. E, do filhotinho fofinho que um dia foram, multiplicam de tamanho e crescem mais de dez vezes o que uma vez eram.

Outro dia passei em frente a um petshop e vi filhotes de Golden Retriever na vitrine. O filhotinho não devia ter o tamanho de um gato adulto. Passam alguns meses e ele teria no mínimo uns 60 cm. Como adivinhar qual tamanho um cachorro vai ficar? Um cachorro de raça é razoavelmente fácil de adivinhar. Como sua linhagem é monitorada, dá pra ter uma ideia de que tamanho o cachorro vai ficar. Nada foge muito do controle do criador.

Muitos filhotinhos de vira-latas, porém, são resgatados da rua sem saber quem é a mãe, nem o pai. Quantos relatos eu li de pessoas que adotaram um filhote e estavam doando porque “ficou grande demais”. A gente até pode tentar entender: a pessoa está fazendo uma boa ação, afinal, realmente não há espaço para o cachorro dentro da casa ou do apartamento. Mas esquecemos que isso deve ser pensado antes de adotar o animal. No instante em que ele está sob os seus cuidados, ele vira a sua responsabilidade. Um filhotinho pode parecer fofo, mas é preciso lembrar que ele vai ficar filhotinho por pelo menos alguns meses e de repente – puff! – já tá gigante. Se você quiser muito adotar um vira-lata (e lembre-se, adotar vira-lata é sempre mais legal!!) e quer ter um cachorro de certo tamanho, espere uns meses: com cinco meses, por exemplo, já dá pra ter uma ideia bem melhor do tamanho que o cachorro vai ficar. Ou adote um cão adulto! Tem tantos cachorros, mas tantos, que vivem anos sendo cuidados por lares temporários que estariam mais que felizes de virarem seu pet.

O que nós não sabemos é que muitas vezes esses vira-latas acabam passando suas vidas em espaços até menores do que o seu apartamento. O ideal para um cachorro seria um lugar grande o bastante para ele correr e explorar, mas saiba que embora esse seja o ideal, não é necessidade. Pode soar clichê, mas havendo amor no coração, não há espaço que não seja acolhedor. E, claro, os passeios na rua diários estão aí para isso!

Adotar ou comprar um cachorro deve ser algo feito com bastante responsabilidade. Sempre pense duas vezes e não se deixe enganar pelos olhares meigos dos filhotes.

Dora Leroy
  • Coordenadora de Quadrinhos
  • Ilustradora

Dora Leroy tem 21 anos e acredita que o universo é grande demais para não existir outras formas de vida inteligente por aí. E, enquanto espera uma invasão alienígena acontecer, gosta de ler livros que se passam em universos mágicos e zerar séries do Netflix.

  • Mari

    “FAZ dois meses que eu decidi adotar um cachorro…”
    😉

    • denise tatagiba ribeiro santos

      Tempo passado-presente: há e faz
      Quando se quer indicar tempo transcorrido (do passado até o presente), emprega-se impessoalmente o verbo haver, tanto quanto o verbo fazer:
      Há dois anos (que) não o vejo.
      Faz dois anos que não o vejo.
      Inventada em 1851, a máquina de costura de Isaac Singer domina o mercado há 150 anos.
      […faz 150 anos]

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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