22 de julho de 2015 | Ano 2, Edição #16 | Texto: | Ilustração: Bárbara Fernandes
Ih, vazou! – Por que é tão feio falarmos de menstruação?

Aposto que vocês têm alguma história sobre quando a menstruação vazou de alguma forma, e aí ficaram envergonhadas, enquanto as pessoas em volta sentiam nojo, riam ou no máximo falavam bem baixinho tentando te ajudar. Mas por que tudo isso? Por que esse alarde todo diante de uma coisa que acontece uma vez por mês com metade da população?

Esse corpo que a sociedade entende como feminino passa por um processo que dói: somos forçadas a escondê-lo, em suas formas, seus cheiros, suas singularidades, seus líquidos. E esconder nossos corpos não está longe de escondermos o que somos. Então vamos falar a real? Muitas de nós menstruamos! Sim, menstruamos! Faz parte dos ciclos dos nossos corpos, mesmo que certas campanhas bizarras promovam o slogan “viva sem menstruar”, afirmando que lidar com menstruação não é nada necessário para a “mulher moderna” (claro, a mulher moderna toma pílula de uso contínuo durante toda a vida, olha que ótimo).

Mas acontece que essa mulher moderna que tentam nos enfiar goela abaixo não tem a ver com a nossa realidade. Tudo bem, lidar com cólicas infernais todo mês não é nem um pouco legal, e para isso é necessário cuidado e acompanhamento, mas encorajar mulheres a não menstruar para assim não lidar com sangue é ter nojo dos nossos corpos – e nos levar a ter nojo de nós mesmas, também. Engraçado… todo mundo diz que ama as mulheres, até os homens mais machistas. Mas se menstruamos, ugh, é nojento. Se suamos é nojento, com pelos debaixo do braço mais ainda. Se damos um arrotozinho, ai que nojo!!!!, mesmo que nossos irmãos arrotem o tempo todo e ninguém dê a mínima.

O nojo que jogam sobre nossos corpos, somado à falta de conhecimento sobre eles, resulta em campanhas como aquela já mencionada, bem como a todo o alarde quando uma mulher acaba vazando um sanguezinho publicamente. Mas a falta de conhecimento não é nossa culpa. Se os estudos biológicos e médicos foram, em sua maioria, realizados por homens da elite, e as sabedorias não acadêmicas foram deixadas de lado pela história, sendo substituídas mais e mais pelos produtos da indústria farmacêutica, a culpa não é nossa. Mas, se nos interessarmos em nos entender melhor para transformarmos esse olhar enviesado que temos sobre a menstruação e sobre os nossos corpos, ainda dá tempo de aprendermos com as mulheres. Outra medicina, livre das relações capitalistas, é possível e existe!

Vamos ouvir um pouquinho essas mulheres? Vamos ouvir mais a nós mesmas? Ao que o nosso corpo diz? O mundo quer que nos guardemos, que fechemos as pernas, que sintamos vergonha e que não deixemos ninguém lembrar que menstruamos. A resposta? Autonomia aos nossos corpos. Autocuidado. E, se a grana der, dá-lhe copinho menstrual!

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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