23 de junho de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
A importância das políticas de permanência estudantil para as pessoas trans

Com a emergente visibilidade que o movimento trans e o movimento transfeminista vêm ganhando, para nossa satisfação, nossas pautas, finalmente, estão chegando na grande população e trazendo questionamentos importantes que ontem não eram devidamente feitos. Um dos tópicos mais importantes na nossa luta é sobre nossa inserção no âmbito escolar e universitário, levando em consideração que a população T é violentada, negligenciada e expulsa desses ambientes.

Sendo assim, pessoas que não estão nem nas escolas concluindo o fundamental e o médio, logo também não estarão nas universidades. Com essa visibilidade, estamos tanto acumulando ganhos em relação ao nome social quanto fazendo as pessoas se perguntarem por que nunca estudaram com pessoas trans, por que aquelas pessoas não estão no seu dia a dia. Porém, acredito que para além de falarmos sobre a inserção, também precisamos falar sobre a permanência. Afinal, como falo no vídeo onde sou entrevistada pelo Canal das Bee, se é difícil entrarmos lá (na universidade), vai ser mais difícil ainda permanecer naquele local.

Quando falamos sobre políticas de permanência estudantil, primeiro precisamos ter noção da meta que essa política vem a ter. Qual seu objetivo, o que ela quer assegurar. Quando se é implantada uma política de permanência estudantil, o que se visa é uma igualdade. É assegurar que um aluno, de renda x, possa ter “tranquilidade” no decorrer de seu curso, no sentido de não ter problemas financeiros que o façam ter que largar, por não conseguir se manter. Uma política que muitas vezes tem suas defasagens nas universidades onde é dada, mas que, ainda assim, consegue ajudar muitas pessoas que precisam dela. E, sem dúvidas, pessoas trans PRECISAM dessa política.

Precisamos ter noção da total escassez que, muitas vezes, é tangível na vida da população trans, principalmente a brasileira. Levando em consideração que muitas vezes essas pessoas não estão no mercado de trabalho e que, infelizmente, não possuem o apoio familiar, a partir daí já começamos a delimitar perfeitamente por que, caso entrassem, uma política de permanência seria imprescindível. Já, perfeitamente, podemos colocar essa pessoa que foi aprovada como alguém vencedor, mas só as palmas não são o bastante. Precisamos pensar em mecanismos capazes de possibilitar que aquela pessoa trans aprovada tenha condições financeiras de permanecer no curso.

90% das mulheres trans e travestis brasileiras estão na prostituição. Elas não veem na universidade e nem no mercado de trabalho a possibilidade de uma sociabilidade tranquila e respeitosa. Esses espaços, infelizmente, parecem não ter sido feitos para nós. Por isso, também acho importante não só pensarmos na questão financeira, mas numa completa conscientização no âmbito universitário. Assim, é possível transformar a universidade em um espaço para todos, incentivando o respeito mútuo e assegurando a pluralidade dentro da universidade.

Na UFPE, depois da minha aprovação, percebo que o debate sobre população LGBT se intensificou de uma forma muito linda. Nesse momento, temos uma Política LGBT assinada como algo que será implantado em nossa universidade. Uma política que vem a reconhecer, finalmente, a situação de vulnerabilidade social que nossa comunidade, muitas vezes, está exposta, e vindo a assegurar a permanência de pessoas trans na universidade, criando uma bolsa permanência para nós. Isso foi uma grande vitória! – vermos um debate aprofundado e um desejo de poder ajudar, de poder reconhecer pontos importantes de nossa sociabilidade e de, finalmente, começarmos a discutir e conquistar ganhos tangíveis para a nossa população.

Inclusive, pontuo estar muito feliz em ver o quanto pessoas trans, esse ano, estão animadas pro ENEM. Essa semana percebi a criação de vários cursinhos populares ao redor do país para nos ajudar com a prova. Estou emocionada com essa iniciativa e incentivo para que, no próximo SISU, mais pessoas trans sejam aprovadas. E que existam não só matérias com o meu nome sobre uma travesti que foi aprovada, mas que esse número de matérias dobre, triplique, quadruple. Só emoção!

Maria Clara Araújo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Futura pedagoga e feminista que transversaliza as questões de gênero e raça. Meu nome se tornou uma alusão à minha transparência em relação aos meus sentimentos. Pisciana, sinto como se eu fosse um mar misterioso e difícil de se velejar.

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