22 de março de 2016 | Ano 2, Edição #24 | Texto: | Ilustração: Isabela Zakimi (Kiki)
A importância de sermos donas de nossas narrativas
EDIÇÃO #24.PROTAGONISMO.KIKI

Estou no processo final para minha mudança de nome e sexo no registro civil. Entre laudos entregues, conversas com defensora pública e reflexões sobre como me sentia impotente diante de ver pessoas decidindo se devo ter ou não uma vida como Maria Clara, os questionamentos sobre o que é não ter autonomia me atingiram de uma forma grosseira. O sentimento de querer poder ditar as direções da minha vida e de ser dona do meu próprio destino nunca foram sentidos de uma maneira tão intensa. Afinal, naquele momento, eu me vi sem autonomia.

Dia desses me peguei pensando em como viciei em dizer que “precisamos ser donas de nossas narrativas”, e, em outras palavras, isso significa torcer para que não só eu, mas nós, enquanto mulheres, possamos escrever, apagar e reescrever nossos passos e trajetórias. Enfim de uma forma que não nos coloque numa posição de subalternidade como se fosse um destino dado, conseguindo-a transformar em resistência frente a inúmeras vezes que parecemos sem mãos frente a situações que nos vemos impossibilitadas de fazer algo.

Quando pensamos na importância de uma construção autônoma, de alguma forma, o que está em jogo é a nossa liberdade enquanto conjunto. Aqui pensando conjunto, ao entendermos que por mais que as correntes que carregamos sejam diferentes, ainda assim, enquanto mulheres, querer ser livre, é querer todas livres.

Quando comecei a falar sobre minhas experiências e percebi que cada vez mais me afastava do arquétipo patologizante e exotificador que, historicamente, é visibilizado a respeito da população de mulheres trans, foi fácil notar o quanto podemos abalar uma estrutura que violenta nossos corpos, a partir de quando começamos a recontar uma história que foi posta a partir de termos e condições erradas.

Nos perceber enquanto um grupo que, constantemente, tem seus passos, anseios, pensamentos e reivindicações, sendo não só negligenciados, mas silenciados, como se nossas vozes não importassem, é reconhecer que existe quem esteja preparado para se dar de frente com mulheres que falam.

Quando Audre Lorde, bem incisiva, diz que precisamos transformar nosso silêncio em ações, ela abre um caminho de possibilidades para todas nós. Deixa explícito que não só podemos, como devemos falar sobre nossas experiências de forma com que consigamos construir uma rede de apoio e empoderamento. E que o silêncio não vai, em momento algum, nos salvar. Pelo contrário, continuaremos sufocadas. Por isso, que falemos:

“Que palavras ainda lhes faltam? O que necessitam dizer? Que tiranias vocês engolem cada dia e tentam torná-las suas, até asfixiar-se e morrer por elas, sempre em silêncio? Talvez para algumas de vocês hoje, aqui, eu represento um de seus medos. Porque sou mulher, porque sou negra, porque sou lésbica, porque sou eu mesma – uma poeta guerreira negra fazendo seu trabalho. Pergunto: vocês, estão fazendo o seu?”

Maria Clara Araújo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Futura pedagoga e feminista que transversaliza as questões de gênero e raça. Meu nome se tornou uma alusão à minha transparência em relação aos meus sentimentos. Pisciana, sinto como se eu fosse um mar misterioso e difícil de se velejar.

  • Gisele Campos

    As vezes não narramos nossa história por medo de não aceitação, um grande erro.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos