21 de outubro de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
A importância do ingresso e resistência de pessoas trans no mundo acadêmico
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Ilustração Beatriz H. M. Leite

Ter o nome social no ENEM como última medida igualitária sendo adotada pelo MEC para pessoas trans e travestis torna visível que a discussão sobre essas pessoas entrarem para o mundo acadêmico vem ganhando visibilidade e força, não só dentro dos movimentos de protagonismo que atuam, mas também nacionalmente, como pode-se ver pela repercussão em sites de notícias de rotação nacional, como minha entrevista para o G1. A importância da resistência e ocupação desse grupo nesse espaço é apontada como a chave para começarmos a trilhar um novo futuro, a escrever novas linhas em uma página que insistem em querer deixar em branco. Fazer parte desse ambiente sendo uma pessoa trans* – trazendo vivências e demandas, fazendo, assim, que nossas perspectivas sejam enfim escutadas -, é uma vitória. Para uma, para todas.

Somos um coletivo agredido diariamente, que luta pelo seu reconhecimento e a legitimidade de seus direitos básicos negados. É desesperador ter a consciência de nossa dificuldade em pertencer a lugares comuns, de nosso costume em excluir-nos socialmente e vivermos em bolhas – embora isso seja uma forma de proteção, pois levando em conta a discriminação que grande parte de nós sofremos, essa escolha acaba sendo compreensível – e, principalmente, ao nos vermos sendo jogadas para trás da porta. Invisíveis. Negligenciadas.

Quando entrei para meu cursinho, foi uma surpresa unânime. Eu sou a primeira aluna mulher transgênera com quem meus professores já se depararam em uma sala de preparatório para a universidade. Todos os dias, alunos do curso chegam em mim e demonstram a surpresa por eu dividir aquele espaço com eles. Se dizem curiosos, que nunca conviveram com uma mulher trans, que é algo novo e que esperam aprender comigo. Gratificante, mas preocupante, principalmente levando em conta que isso deixa extremamente visível que mulheres trans* e travestis não fazem parte do dia-a-dia da população. ‘Quando fazem, é na rua, na beira da estrada ou embaixo do poste de iluminação: que é onde ditaram como nosso lugar’.

Como já falei na contribuição sobre nome social, existe todo um despreparo para saber lidar com as demandas desse público no âmbito escolar. A rejeição existe, a discriminação é latente e, inevitavelmente, esses fatores afastam o interesse dessas pessoas em fazer parte daquilo tudo. Não é à toa que a maioria das meninas trans e travestis que estão na prostituição, infelizmente, não tiveram seu ensino médio completo, e, se tiveram, descartam a possibilidade de entrar numa universidade porque o sofrimento escolar já foi o bastante e não é preciso ser perpetuado. Esse é o pensamento. Duro, mas real.

A medida do ENEM, embora paliativa, abre portas para nós. É uma sinalização de que finalmente estão nos ouvindo, então é preciso que gritemos ainda mais alto. Que eles criem consciência do quão preocupante é saber que 95 transexuais foram inscritas, quando no total presente na sociedade somam mais de 9 milhões. Somos uma parcela mínima que se atreve a adentrar o âmbito acadêmico, uma parcela quase invisível, mas que existe e é crescente, irá aumentar. Irão conviver conosco, queiram ou não.

Tenho plena consciência de que minha entrada na universidade causará espanto, que haverá pessoas que serão contra a minha permanência ali, que defenderão o direito deles em deslegitimar o meu direito de ESTAR ali, de também ocupar aquele espaço de estudo, de troca, de aprendizagem. Falarão que não sou digna, que é um absurdo uma travesti estudar com as pessoas normais. O que farei? Irei resistir. Por mim, por todas. Por ter o privilégio e a perseverança de estar naquela universidade e, por isso, usar minha voz em prol das meninas que não estão ali. Ou em lugar algum, porque nem lidas socialmente como gente, infelizmente, são.

Maria Clara Araújo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Futura pedagoga e feminista que transversaliza as questões de gênero e raça. Meu nome se tornou uma alusão à minha transparência em relação aos meus sentimentos. Pisciana, sinto como se eu fosse um mar misterioso e difícil de se velejar.

  • Gisele Ducav

    Meus parabéns e continue assim, com esse pensamento! Foi assim que consegui chegar aonde cheguei. Com garra e pioneirismo.

  • Fernanda Maidel

    Amei seu texto! So uma questão: vc diz que somos (sou trans-gênero) 9 milhões … isso mesmo? um numero desses e assustador e ao mesmo tempo impressionante!

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