15 de abril de 2014 | Edição #1 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Impressionismo: o que Romero Britto tem a ver com Manet?

Todo mundo sabe quem é Romero Britto. Está nos seus sapatos, no seu estojo, na sua mochila, no outdoor, nas lojas de quadros e espelhos. Você provavelmente conhece arte por causa dele. Mas muitos artistas e gente que vive de arte não o consideram… Arte. O acham menor, algo apenas para ser vendido, sem valor histórico ou estético. Não é raro ele ser sacaneado por ser popular por quem é entendido. Andy Warhol também era. Possivelmente já o viram, sua série das latas de sopa Campbell, sua Marilyn Monroe colorida e suas cores fortes usadas por um monte de gente famosa (Beyoncé e Lady Gaga são um ótimo exemplo). Mondrian também é pop. Ok, pelo nome não vai assimilar tão fácil, mas sabe aquele monte de linhas e quadrados que provavelmente já viu em algum vestido perdido por ai? Com as cores azul, vermelho e branco e uma linha grossa preta, sem nuance, sem degradê, tudo muito liso? Isso é Mondrian. Isso é Neoplasticismo, também conhecido por muitos como De Stijl (que na verdade é o nome de uma revista holandesa de artes dos anos 10 do século passado). Mas você conhece Manet? Se não fosse por ele nenhum desses artistas existiria.

Antes de 1850 a arte era toda e exclusivamente feita para satisfazer a elite. Nenhum artista criava livremente. Eles possuíam regras rigorosas e nenhum fugia dos temas religião/mitologia/guerra. A mudança de um estilo para o outro (que, é bom dizer, durava séculos) era como o artista mudava a luz ou deixava em destaque alguma cor. Até que, em 1859, mais ou menos, Édouard Manet (1832-1883) passou a pintar, após uma carreira fracassada militar. Suas pinturas eram diferentes das outras. Primeiramente, não possuía fundo (em todas as pinturas feitas até aquele momento, o fundo era definido, mesmo que a paisagem fosse algo ilusório, já que até então o artista não saia do ateliê); era algo borrado, podia ser uma árvore, mas também podia ser água.

A arte é conectada com a época histórica. A indústria estava começando e alguns meios de transporte eram criados. Agora as pessoas podiam viajar mais rápido de trem. Se antes se levava 3 dias para chegar num lugar, agora se levava no máximo 3 horas. Manet não fazia suas pinturas no ateliê. Para fazer o seu famoso quadro O menino que tocava pífaro, precisou viajar até a Espanha (ele era francês). E, saindo das quatro paredes para o ar livre, passou a usar o pincel de uma forma diferente também. Suas pinceladas eram mais rápidas (por causa da luz solar, já que ela muda ao passar das horas). A pintura de Almoço na Relva, de 1863, é feita ao ar livre, num bosque. Não, não era da imaginação do pintor, nem a mulher sensualmente pelada sentada em frente a dois rapazes (sobre a qual houve grande polêmica, já que era século XIX e era uma mulher nua, real, na frente de 2 rapazes vestidos. A imaginação dos críticos voava longe…). E ai começou a revolução.
Outros artistas passaram a pensar que nem o Manet, que já digo que, apesar de ser rico, não possuiu reconhecimento. Claude Monet, Edgar Degas, Pierre-Auguste Renoir, Camille Pissarro (que era homem) saíram dos seus ateliês e passaram a pintar o dia a dia parisiense. Sejam os bastidores de balé, um simples almoço ou uma garçonete. Cada um tinha uma particularidade (fosse ela exploração da luz ou do cotidiano), mas nenhum pintava algo que não existia ou que, se existiu, foi a muito tempo. E daí, em 1872, numa exposição apelidada carinhosamente de “Salão dos rejeitados” (vou explicar: todo grande artista da segunda metade do século XIX expunha no Salão de Paris – para comparar, era como se fosse uma Rede Globo –, mas como o padrão que era usado era visto como inadequado, os artistas citados foram para um estúdio de um amigo fotografo deles e fizeram sua própria exposição; nem preciso dizer que a crítica caiu em cima), uma crítica maldosa a um quadro de Claude Monet, Impressão, sol nascente (“Impressão… qualquer papel de parede é mais bem acabado do esta marinha”), criou-se um novo movimento: O Impressionismo.

Não foi aceito de primeira – aliás, pouquíssimos artistas conseguiram reconhecimento e dinheiro (Paul Cézanne foi um desses) –, mas fez com que a Arte não fosse algo mais irreal. Algo que alguns conseguissem alcançar, algo pop. Agora todo mundo podia ter alguma coisa, seja modelo para algum quadro ou um sapato com aquela arte. E é por isso que você deve ter algo do Romero Britto. Primeira lição importante sobre a arte: tudo tem a ver.

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

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