14 de fevereiro de 2015 | Ano 1, Edição #11 | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
Inconsciente Coletivo: entrevista com Marli Belline

Nessa edição sobre comunidade, pensamos que seria interessante falar sobre o conceito de Inconsciente Coletivo, formulado pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Mas primeiro: o que é inconsciente? Como ele afeta nossa visão de mundo? E que coisa complicada é essa de Inconsciente Coletivo? Bem, essas perguntas nós resolvemos fazer para Marli Belline, formada em Psicologia pela PUC-SP e terapeuta há 33 anos, que gentilmente se dispôs a conversar um pouco sobre esses conceitos com a gente da Capitolina.

Capitolina: O que é o inconsciente e como ele influencia nossas vidas?

Marli: Bom, essa é uma pergunta muito ampla, muito genérica. É difícil dar uma resposta simples para a questão, mas vamos tentar.

Na minha visão, esse tema está relacionado com o modo com que entendemos o ser humano. Nós temos muita vida interna, além da realidade externa cotidiana com que estamos acostumados. O inconsciente é todo um mundo interno que existe em nós e que, quando você começa a acessá-lo, percebe que ele não tem fim, mas é constituído de camadas a que conseguimos ter contato na medida em que apuramos nossa observação das vivências interiores e assim descobrimos, de pouco em pouco, o que é ser um ser humano. E essas camadas são infinitas.

Capitolina: Então, em resumo, o inconsciente é uma vivência interna a que não conseguimos ter acesso num primeiro momento?

Marli: É assim: o ser humano é composto por um universo de informações infinitas e a nossa consciência é só uma pontinha, só a cabecinha de um alfinete no meio desse mundo enorme.

Capitolina: Como a ponta de um iceberg.

Marli: Exato. Aquilo que a gente chama de “eu” é, na linguagem psicológica, na verdade, um complexo. É um aglomeradozinho de energia que acessa uma parte ínfima de uma psique maior, que o Jung chama de “Self” ou “Si mesmo”, que é o “Eu” verdadeiro e recebe diversos nomes de acordo com cada filosofia espiritual e religiosa: Deus, Tao, o Todo e por aí vai. É a infinitude de possibilidades.

Em oposição a esse “grande Eu”, temos o “pequeno eu”, ou “ego”, que é uma minúscula parte do que realmente somos e que enxerga o mundo através dos cinco sentidos. O inconsciente vai além da percepção estritamente sensorial da vida.

Então esse “euzinho”, na medida que vai se ampliando nas experiências e observações internas, vai acessando camadas cada vez mais profundas desse mundo onde somos inseridos.

Capitolina: Então, por conta dessa correspondência do inconsciente com “o Todo”, é possível afirmar que, em última análise, o resultado desse processo de exploração das vivências internas é a identificação com Deus?

Marli: Sim, essa é uma das formas de entender nossa natureza. Cada ser humano tem Deus dentro de si, ou é Deus e, ao mesmo tempo, é parte desse Todo. A percepção da totalidade é o resultado final do que Jung chamou de processo de individuação, que é a ampliação da consciência para se acessar conteúdos cada vez mais profundos do nosso inconsciente, que são as camadas a que eu me referi. Dessa forma, passamos a nos tornar, de pouco em pouco, quem somos de verdade, deixando de lado o “euzinho” e nos identificando com o “grande Eu”.

Capitolina: E como ocorre esse processo? Digo, como podemos ter acesso a essas camadas?

Marli: Esse processo é feito por meio da observação interna. Você tem sentimentos, sensações e pensamentos que se relacionam com uma determinada vivência interior. O que devemos fazer é observar essa experiência, se relacionar com ela, ver o que ela conta de novo. Cada informação nova sobre si que você tem é um pedacinho a mais que você amplia sua consciência e deixa o inconsciente participar da sua vida. E esse processo não tem fim, é um esforço constante de compreensão da nossa própria natureza.

É importante dizer, também, que essas vivências internas estão conectadas com o mundo exterior, na medida que as experiências externas provocam reações na nossa psique e, do mesmo modo, o que experimentamos internamente causa mudanças na nossa realidade. Por essa razão, podemos dizer que ao tomarmos conhecimento de quem somos estamos também conhecendo o mundo.

Capitolina: Então, qual a diferença entre o inconsciente individual e o coletivo?

Marli: Sempre que converso com meus pacientes prefiro usar uma linguagem mais simples para explicar como as coisas funcionam na minha visão, do que me ater a uma visão mais teórica. Nesse caso especificamente, gosto de usar a analogia do micro e do macro presente em algumas religiões, como o Budismo. O micro seria a realidade das nossas vidas, o modo como nos relacionamos com nossa família, amigos, profissão, ou seja, é composto por nossas experiências e corresponde ao inconsciente individual. Já o macro é o “Todo”, é o vasto oceano no inconsciente coletivo de que fazemos parte. Sua existência independe das experiências individuais de cada um de nós, ele está aqui antes de nascermos e continuará a existir depois que morrermos, ou seja, ele é basicamente uma “herança” da Humanidade. Mas, apesar da aparente insignificância das nossas vidas em relação ao eterno, o micro reflete o macro, ou seja, nossa psique individual e o modo como nos relacionamos com nossa realidade é um reflexo das vivências internas do inconsciente coletivo.

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

  • Paulo

    Muito legal!

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