30 de abril de 2016 | Ano 3, Edição #25 | Texto: | Ilustração: Heleni Andrade
Indiretas: palavras do mal
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Uma das maiores reflexões que eu tive recentemente, pensando em como ia escrever este texto, foi a respeito da comunicação humana em tempos de hiperconexão nas redes sociais. Eu acredito que o Facebook e outras redes sociais desempenham um papel fundamental na sociedade hoje em dia, mas existe um limite entre os benefícios que esses sites trazem e os prejuízos na hora de desenvolver nossas relações humanas. Quer um exemplo? As indiretas de Facebook. Ah, quem nunca…?

Acho que o mais sedutor de postar uma indireta para aquela pessoa na nossa linha do tempo é a facilidade de fazê-lo. Não precisamos olhar na cara daquela amiga que nos magoou para escrever um recadinho cheio de mensagens subliminares durante o intervalo de aula. Nem precisamos ter uma conversa olho no olho com a/o ex-namorada/o para lavar um pouco de roupa suja na frente de centenas (ou milhares!) de espectadores que estão lendo aquele post feito numa madrugada insone de tristeza pós-término.

Esses atalhos que a modernidade nos permite tomar acabam criando um caminho alternativo e equivocado para as palavras que deveriam ser faladas em voz alta, olhando nos olhos de alguém que nos decepcionou ou ofendeu. E eu acredito que esse atalho, sendo mais fácil, nos faz perder muito em matéria de amadurecimento. Porque falar verdades dói mesmo – mas não é uma dor da qual podemos fugir indefinidamente, né? Quando conseguimos nos posicionar frente a uma situação complicada, e manter esta posição com firmeza, a gente manda para o nosso cérebro uma mensagem de “eu consigo falar isso e me afirmar”. Isso cria uma memória que vai sempre estar ali, lembrando-nos que temos o poder de tomar um lado, de sustentar uma opinião. Porém, escrever um post e jogá-lo ao mar de palavras que flutuam na tela dos computadores e celulares por meio do Facebook ou Twitter não tem o mesmo efeito – ensinamos nossa mente que, quando tivermos medo de dizer uma coisa importante, não precisamos encarar esse medo de frente: basta desabafar para nossos seguidores e o problema está resolvido. Mas não está. E é muito importante que a gente entenda que indiretas são muito mais tóxicas para nós mesmas do que para aquele menino que nos enganou.

As palavras são na verdade uma forma de empoderamento. Poder dizer o que você pensa é algo conquistado com um pouco de suor e talvez algumas lágrimas, principalmente quando temos medo de sermos rejeitadas por causa de nossas opiniões. Mas o que às vezes esquecem de nos contar é que ter uma opinião custa caro sim – e pode doer um pouco. Eu já percebi que lembrar que a vida não é (e nem deve ser) sempre muito fácil, com tudo dando certo, virou um tipo de tabu. Vendem pra gente a imagem da vida colorida, sem dificuldades – e sem brigas. Ficamos com medo de mostrar que é difícil lidar com as adversidades que surgem, temos receio de mostrar nossa fragilidade ao dizer algo na cara de uma amiga que nos magoou (e temos medo às vezes de falar porque não queremos chorar na frente das pessoas!). Queria saber quem inventou esse mito das pessoas feitas de metal que nunca choram fora das quatro paredes do quarto e que conseguem falar tudo o que pensam assim, como se fosse descascar uma banana. Aviso: isso não existe. Nem a mulher mais incrível que fala tudo na lata nasceu assim – ela escolheu pagar o preço de falar. Mais caro que mandar uma indireta, claro, mas traz um benefício maior também, percebe?

Queridas leitoras, as palavras têm poder. E usar as palavras certas na hora certa exige muito treino. Leva anos para termos aquelas respostas perfeitas na ponta da língua durante uma discussão. E é normal a gente não conseguir expressar o que queríamos dizer assim de primeira, e sair chorando de raiva porque não rolou falar aquelas verdades para as colegas que te trataram mal. Tudo bem: dessa vez não rolou, mas você tentou e vai exercitar isso até que seja possível dizer exatamente o que você tinha na sua cabeça. Então, quando você sentir vontade de digitar aquele textão cheio de indiretas na sua linha do tempo, talvez você queira parar e pensar se não vale a pena dizer isso pessoalmente. As palavras podem ser muito boas para a gente, mas as indiretas são palavras do mal, confortáveis. E o mundo precisa mesmo é daquelas palavras que trazem desconforto – e, portanto, mudança.

Carolina Sapienza
  • Colaboradora de Relacionamentos e Sexo
  • Revisora

Carol nasceu em 1991 e mora em São Paulo. Bióloga que queria ser de humanas, gosta de escrever sobre ciência mas mantém o caderninho de poemas sempre na bolsa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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