23 de novembro de 2014 | Estilo | Texto: | Ilustração:
Indústria da beleza X Mulher negra
ModaBelezaNegra-IsadoraM

Ilustração: Isadora M.

Texto de Simone Nascimento

Representatividade importa sim. Por vezes, nós, negras, folheamos as revistas e não nos encontramos, ligamos a TV e não nos sentimos parte dela. Nos questionamos diariamente onde está nossa existência, nos perguntamos, inclusive, se somos nós que temos que mudar ou nos adaptar a tudo que está a nossa volta.

A indústria da beleza, apesar de atingir todas nós, não representa as negras. Um mercado carregado de padrões e tabus que costumam fragilizar e impor ditos a todas as garotas faz um abalo ainda maior na autoestima das negras.

Basta viajar por algumas lembranças, elas estão vivas, são marcas. Para nós, ir ao cabeleireiro ou sair para comprar alguma maquiagem é um desafio difícil e doloroso, quase nunca uma experiência divertida.

Estou eu, estamos nós, negras, diante de uma prateleira de bases para pele. Vemos uma paleta infinita de tons chamados “cores de pele”, “nude”, que vão dos rosados aos beges, mas não nos encontramos ali, não há nenhuma cor que lembre o que somos.

Os chamados “nudes” são sempre um desafio para nós, e produtos de beleza que não nos deixem pálidas ou cremes que de fato atuem bem na nossa pele são raridade.

Viajo mais um pouco no tempo e me lembro de uma vez em que usei uma base mais clara que o tom da minha pele, ou de todas as dificuldades que enfrentei para encontrar a que uso hoje.

Por muitas vezes fui à cabeleireira e ela me questionou quando faria a “progressiva”.

De toda a gama de xampu de uma marca exposta nas prateleiras, só tem um voltado para cabelos crespos e cacheados, o mesmo para os dois! Aos montes, produtos que prometem reduzir o volume dos nossos cabelos.

Beatriz Lima expôs algumas de suas experiências com os ditos do mercado de cosméticos: “Quando eu era pequena, lembro de passar um aperto quando o assunto era produtos de cabelo, porque minha mãe tem o cabelo liso e não estava acostumada, mas com o tempo eu fui achando mais e mais produtos e hoje em dia acho que tem um nicho de mercado bem focado em produtos pra cabelos crespos e enrolados”.

Beatriz falou sobre as dificuldades que já encontrou: “Maquiagem também foi um drama, já que é meio complicado achar base e pó que combinem certinho com o tom de pele, mas com o tempo eu vi uma evolução enorme, e hoje em dia eu já encontro na minha cor sem muito sofrimento”.

Por fim, listou algumas de suas inspirações: Franceta Johnson, Gabi Fresh, Nadia Aboulhosn, Khloé Kardashian e a Tanesha Awasthi.

A invisibilidade das mulheres negras existe em diversos âmbitos. São poucas as figuras que permeiam nossas lembranças na infância ou que hoje podem servir de espelho. Barbara Maria tem 21 anos e nos contou sobre uma de suas inspirações: “Sempre que alguém me diz que batom preto não combina comigo, eu lembro da Whoopi Goldberg de batom preto, e lembro que ela ficava maravilhosa, aí fica tudo bem”.

Outra lembrança de Barbara: “Quando criança, eu lembro da Aisha e da Tanya, de Power Rangers (Karan Ashley e Nakia Burrise). A Tanya porque eu sempre a achei uma linda, e a Aisha, apesar de ser uma das minhas Rangers menos preferidas, me deixou mais feliz a partir da segunda temporada, porque ela mudou o penteado, e passou a usar o mesmo penteado que eu usava.”

O padrão adotado na indústria cosmética oprime nossa identidade e sempre insiste em nos encaixar em um padrão que não nos visibiliza. Nós, mulher negras, temos direito a ter os nossos próprios corpos, nossa identidade e nos sentir bem em nossas próprias peles.

 

 

 

Simone Nascimento
  • Colaboradora de Estilo

Simone Nascimento, 22 anos, Negra, Mulher, Feminista e Umbandista! Ama suas raízes, dos fios da cabeça ao toque do atabaque. Leonina da Terra da Garoa (SP), apesar de amar o sol! Estudante de Jornalismo, formada em Figurino, Estilismo e Coordenação de Moda, — vê a comunicação como um direito e a Indumentária como arte. Militante anticapitalista, quer viver num mundo livre de opressões.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos