8 de março de 2015 | Estilo | Texto: | Ilustração:
A indústria da moda e a mulher

No 8 de março, dia muito importante na história da política da luta das Mulheres, por seus direitos civis e de combate a opressão e exploração, a Capitolina fala do mundo da moda e sua relação com a mulher, um mundo tão atribuído a nós, mas por vezes somente como consumidoras.

Não poderíamos deixar de questionar nessa data, que possui tantas histórias — muita história a ser feita ainda — , o espaço das mulheres na moda, quando uma das inspirações desse dia mundial de luta é exatamente sobre isso: é um dia que relembra, entre outras datas, a greve de 1909 iniciada por mulheres trabalhadoras têxteis em Nova York, que se espalhou e deflagrou um dos processos mais importantes na história da luta contra a exploração. Foi também parte importantíssima do processo revolucionário na Rússia, quando, em 8 de março (23 de fevereiro no calendário Juliano, usado pelos russos até então) de 1917, a luta alavancada por mulheres contra o Czar levou os homens se unirem ao processo grevista que deflagrou as mobilizações.

Por vezes, a Indústria procura tanto pelo público-alvo feminino, que fica a impressão de que peças de roupas são feitas exatamente (e só) para nós. As grandes semanas de Moda, os sites especializados e até os livros, em sua maioria, contam a história da Moda (Europeia), por uma linha linear do tempo das tendências usadas apenas por Mulheres. Em contrapartida, essa mesma viagem ao passado, que cresce em história até o presente, nos mostra um outro detalhe importante: seus criadores.

Destaco a palavra Europeia — inclusive faço com ironia —, porque a história da Moda, assim como tantos outros objetos de estudos e pesquisa sobre o passado, é contado através desse continente, que foi a hegemonia do mundo por séculos. Acabamos por ficar sem saber direito, ou bem pouco, sobre a Indumentária do resto do mundo, porém ela existigiu, mas isso ficará para outro texto.

Mas, voltando…

Boa parte de quem criou, cria e faz “história”, no mundo da moda, são homens. Quando olhamos o pilar hegemônico da “alta costura”, temos uma lista infinita de estilistas e marcas, apresentadas por homens, mas que tem como consumidores as mulheres.

De Charles Worth, que inclusive ganhou o apelido de “pai” da “alta costura” à Karl Lagerfeld, das semanas de Paris, muito nos conta sobre quem ocupa os espaços de reconhecimento, até mesmo em um mercado que tem referência consolidada criando/vendendo para nós.

Basta um olhar mais atento ao mercado têxtil para que possamos descobrir a “pirâmide” e seus funcionamentos: ao adentrar as fábricas, encontramos mulheres modelando, costurando, criando as peças de roupa, fazendo parte desses processos. Mas por que é ainda tão difícil alcançar os espaços de reconhecimento público e de referencial?

Em torno da idolatria do molde do que seria a mulher como alvo para consumo, se consolidaram diversos tabus e com o passar dos anos, a indústria se uniu cada vez mais aos padrões de beleza, a etiqueta e às estruturas da sociedade.

Uma viagem ao passado e um olhar ao hoje: por mais Elsas Schiaparelli e Marys Quant. Falarei de Coco Chanel, mas também de Zeldas Wynn Valdes (pesquisem por ela), porque se é difícil encontrarmos referenciais femininos no mundo da moda, eles são quase inexistentes entre as mulheres negras.

Anos se passaram desde a grande mobilização e essa luta por uma sociedade mais igualitária ainda continua. Não podemos nós, lutadoras, ficarmos de fora da História!

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Simone Nascimento
  • Colaboradora de Estilo

Simone Nascimento, 22 anos, Negra, Mulher, Feminista e Umbandista! Ama suas raízes, dos fios da cabeça ao toque do atabaque. Leonina da Terra da Garoa (SP), apesar de amar o sol! Estudante de Jornalismo, formada em Figurino, Estilismo e Coordenação de Moda, — vê a comunicação como um direito e a Indumentária como arte. Militante anticapitalista, quer viver num mundo livre de opressões.

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