15 de outubro de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
A internet e eu (ou: Um pequeno e pessoal manual antinegatividade)
Ilustração: Jordana Andrade

Ilustração: Jordana Andrade

Tem dias que a internet pode ser um lugar mais tóxico do que uma usina nuclear. A gente pode até se esforçar para não ficar chateada pela quantidade de “curtis” que nossas fotos de perfil recebem, ou abalada por certas postagens preconceituosas, ou furiosa por metidos a comentarista de revista de extrema direita. Nem sempre dá. Tem dias que a vontade é simplesmente de desligar-se de tudo.

A negatividade, a ansiedade e o estresse causados em nossas vidinhas 25 horas por dia conectados não dá para ser ignorada. É como se dez minutos com dificuldades de entrar no Facebook fossem dez minutos sem respirar: excruciantes. Ainda assim, é preciso dar um jeito de não ser consumida por isso.

Provavelmente você tem os seus próprios mecanismos para lidar com os altos e baixos da convivência online de forma mais saudável. Essa pequena lista é o meu manual particular, então talvez você discorde de alguns pontos. Não tenho a menor pretensão de dizer aqui que ele seja absoluto e que você deva seguir ao pé da letra. Mas talvez te ajude a encontrar seu próprio centro.

E lá vamos nós! 

Passo 1. Identificando a fauna local

Poucas coisas são mais desgastantes do que uma discussão. Embora não seja cara a cara, a discussão online tem um agravante em relação àquelas que são presenciais: elas podem se estender indefinidamente pelo tempo. Especialmente nessa época de eleições, existem brigas que podem durar dias, com os “combatentes” de cada lado revezando nos ataques, intercalando seus golpes entre um almoço aqui, um jantar ali, uma viagem de ônibus acolá. E assim o bate-boca nunca acaba, os guerreiros de ambos os grupos se recusando a deixar o ringue primeiro, chamando alianças para fortalecer seus argumentos, olhando ansiosamente para as telinhas de seus celulares a cada 2 minutos para se certificar de que, finalmente, obtiverem a merecida e suada vitória retórica – ou não.

Eu nem preciso dizer que viver desse regime não é saudável.  Além de te manter num estado de ansiedade, alerta e hostilidade constante, é quase certo que vai atrapalhar quaisquer outras coisas que você esteja fazendo no momento. Porque – ah! Isso é certo! – ninguém faz apenas uma coisa hoje em dia, e eu tenho certeza de que pelo menos uma vez você já interrompeu algo importante (estudo, trabalho, Orphan Black) para convencer um estranho de que, uh, Frozen é melhor do que Enrolados. (Não?)

É importante deixarmos claro nossos pontos de vista e sermos assertivos por nossos ideais. Mas até que ponto conseguimos fazer isso sem quebrarmos em uma pilha de nervos? Obviamente, eu não tenho como responder isso, cada um tem que saber seu limite, mas em uma coisa eu acredito. Em algum momento, invariavelmente, a gente precisa se confrontar com uma verdade: a de que somos só humanos e nossa energia não é infinita. E que talvez valha a pena escolher de forma sábia onde e como vamos investi-la.

Antes de decidir como ou se discutir com alguém, eu tento identificar os tipos de “fauna” online. A-hem:

Espécie: O refugiado da Torre de Babel

Característica: Me diga se isto já não te aconteceu. Você começa a bater boca com alguém, argumentando ponto após ponto antes de perceber que… bem, vocês basicamente estavam falando a mesma coisa, mas com palavras diferentes? Droga, eu não precisava ter perdido meu almoço por causa disso.

Remédio: Muita hora nessa calma. Antes de xingar o tataratataratataravô da outra pessoa e chamá-la de insensível e sem coração (dentre as ofensas que podemos mencionar nesse horário) talvez você queira ouvir (ou ler) o que ela está dizendo, quem sabe? Algumas pessoas têm dificuldades de se comunicar ou experiências de vida muito diversas da sua e isso aparece na maneira como elas se expressam. Antes de ir cheia de pedras na mão e começar uma guerra de trincheiras, pode ser interessante se certificar de que não vai ser uma briga inútil e um desgaste bobo numa relação. Amizades se perdem por causa de mal-entendidos. Sejam legais uns com os outros.

Espécie: El Troll

Características: É o indivíduo que claramente só quer ver o circo pegar fogo. Geralmente é desproporcionalmente provocativo, ofensivo e idiótico.

Remédio: “Não alimente o troll”, bem dizia Clarice Lispector. Só que isso não significa necessariamente ficar quieta, pois isso faz o troll pensar que “venceu”. Mas se eu não posso responder e nem silenciar o que fazer? That’s the tricky part. O segredo é nunca responder diretamente ao que o troll diz, mas ironizar sua estupidez. Frases como “Que rebeldia é essa, jovem?”; “3/10, troll, precisa melhorar” ou um meme quase sempre resolvem. Se o troll quer ver as pessoas irritadas, a melhor arma contra ele é a indiferença controlada: um sutil “mano, que pessoa mais sem-graça você é” seguido de um “e, agora, retornamos à nossa programação normal. A temperatura máxima de hoje é…”

Espécie: O comentarista de mural alheio

Características: Ah, a maravilhosa democracia da internet… A possibilidade de se informar sobre qualquer fato do mundo na ponta dos dedos, os mistérios da humanidade revelados a qualquer instante por uma simples pesquisa de navegador, qualquer música, filme e game a fácil disposição, e o direito de deixar claro no Facebook de seu amigo de esquerda (sempre com finesse, por favor) como a era áurea do Brasil foi entre 1964 e 1985, quando comuna bom era comuna morto – peraí, como é?

Remédio: Provavelmente o mais complicado de se lidar, uma das características deste sagaz espécimen é o fato de que defende a liberdade de expressão com a fúria de um carro-de-som determinado a ficar a madrugada inteira tocando música alta dentro da sua casa. Você não precisa convocá-lo para a discussão: ele vai sozinho – e, muitas vezes, leva amigos! Os argumentos são o de menos. Ele quer te convencer de que está certo. Ele tem orações coordenadas e nenhum medo de usá-las.

O remédio? Erm, depende. Se aquela pessoa definitivamente não está interessada em me ouvir, eu simplesmente a tiro dos meus contatos, desfazendo amizades ou bloqueando. Claro que nem sempre dá para fazer isso, se a pessoa for muito muito próxima, por exemplo, isso pode causar mais desconforto no dia a dia. Nesse caso, a solução pode ser deixar de segui-la (no caso do Facebook) e/ou colocá-la na lista de “amigos restritos”, que você pode facilmente gerenciar quais tipos de conteúdo aquela pessoa pode ver. Está ouvindo isso? É o som do silêncio…

Espécie: The Good Sport

Características: É o “conversador” ideal. Talvez você não concorde com o que essa pessoa diz, mas tudo bem, porque vocês respeitam as diferenças um do outro sem mágoas. Você e essa pessoa sabem que discordar não é o mesmo que ser inimigos.

Remédio: Nem precisa, né? É aquela pessoa com quem discutir é uma atividade útil de verdade e formadora de opinião – e não gritos no vazio.

Passo 2. Pensamentos felizes

Algumas vezes, a negatividade online pode chegar a extremos criminosos. Neste caso, a coisa certa a fazer é denunciar a pessoa em questão tanto ao site onde está o comentário (Facebook, Twitter, YouTube…) quanto para a polícia federal, para que medidas cabíveis sejam tomadas o mais rápido possível.

Com tantas coisas ruins que chegam a nós através da internet, é fácil ficar facilmente sobrecarregada de pensamentos negativos e aquela sensação de desamparo, a famosa “falta de fé na humanidade”.  A melhor coisa a fazer contra isso é perceber de antemão como está o seu humor. Segure a curiosidade de ler os comentários daquele portal de notícias se você já sabe que isso vai te deixar chateada pelo resto do dia.

Sério. Apenas. Não. Olhe.

O ideal é tentar encontrar um cantinho de paz e aceitação para onde você possa fugir sempre que for preciso dar uma respirada do “mundo real”. Eu falo tanto de grupos de amigos (presenciais ou da internet) quanto de sites e vídeos que você sabe que infalivelmente levantam o seu humor. Existem páginas, como o UpWorthy e o Humanos de São Paulo, cujos propósitos são justamente mostrar que, sim, apesar de um monte de coisas horríveis que vemos por aí, também existem muitas pessoas maravilhosas, fortes e inspiradoras nesse mundo.

Até os maiores guerreiros precisam de um descanso ocasional para terem suas esperanças renovadas.

Passo 3. Desconectando-se

Em algum momento das últimas décadas nós passamos a acreditar que está totalmente de boas ficarmos o dia inteiro conectados, conversando infinitamente através do tempo e do espaço, sem pausa, sendo estimulados por anúncios e vídeos e jogos e textos e memes e músicas e conversas e luzes e toques e piadas e…….

A maioria de nós acabou desenvolvendo um medo do silêncio, do vazio de intenções e pensamentos. A maioria de nós teme aqueles raros instantes que temos apenas com nós mesmos, porque é nessa hora que somos obrigados a nos confrontar com nossas frustrações, com nossas vergonhas, com memórias ruins, com nossas derrotas. O fiel celular – sempre debaixo do travesseiro – fica ali para garantir um sono sem sonhos, espremido das pálpebras até esgotarmos todos os seus estímulos. Nada de silêncio, nada de circunspecção.

Olha, longe de mim dizer que o celular, as tecnologias digitais e a internet são coisas ruins. Se fosse assim eu nem escreveria para Tech & Games, né? Eu só acredito que chegamos a um ponto em que precisamos deliberadamente travar a nossa interação com a tecnologia ou ficaremos o dia inteiro entretidos por ela. Digo, qual foi a última vez que você sentiu tédio? Eu não lembro da minha…

Não só para fins introspectivos esse tempo desconectado pode ser bom: se você precisa criar algo, muitas vezes o excesso de conversas paralelas online pode atrapalhar. Esse é um texto de quatro página do Word que escrevi em uma hora apenas porque me desconectei de tudo enquanto o fazia. Se eu estivesse me preocupando agora com o WhatsApp, o Messenger e alguns e-mails, eu provavelmente estaria mal-humorada e com zero página de Word.

Se você sente que está sobrecarregada de informações, mas não consegue se livrar disso, tente este exercício. Hoje, quando for dormir, experimente deixar o celular para carregar num cômodo que não seja o seu (tire o despertador da aposentadoria). Provavelmente, isso vai te dar preguiça de sacá-lo madrugada a dentro. Aliás, faça uma programação semanal: pense “nessa semana, vou tentar deixar o celular longe da cama por pelo menos duas noites”. Você escolhe quando for melhor para você e vai aumentando a frequência até onde achar que está bom.

Tem dias que a melhor coisa a fazer é não se estar na internet. E assim, no seguinte, estamos renovadas e prontas para o próximo round.

Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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