30 de maio de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Natália Schiavon
Já deu dessa história de “você não é como as outras”, né?

Desde que eu me lembro, eu objetivava ter como minha característica mais marcante o tal do “não ser como as outras garotas”. Uma das minhas memórias mais antigas sou eu, brincando no trepa-trepa (falar trepa-trepa é coisa de paulistano?) com umas amigas, lá para os meus 4 anos de idade, enquanto conversávamos sobre cores favoritas. Ao ouvi-las todas dizerem que sua cor preferida era rosa, eu soltei um “a minha é azul”. Né? Rosa é cor de menina, azul de menino e eu quis mostrar estar distante do esperado para uma garota. E acreditei, por pelo menos mais 12 anos, amar azul e odiar cor-de-rosa. Até perceber que, de fato, eu amo azul. Mas gosto ainda mais de rosa.

Essa minha pequena e fofa anedota, apesar de parecer simples, porque são só cores, tem dois lados. De um, é legal eu, inconscientemente (né, 4 anos), ter tentado “combater” um estereótipo de gênero. Não sei quem inventou essa bobagem de rosa-cor-de-menina x azul-cor-de-menino; se você para pra pensar, não faz sentido nenhum. O outro lado, esse não tão legal, é o fato de desde muito pequenininha eu já ter começado a entender outras mulheres como minhas competidoras e ser comparada a elas como uma coisa indesejável.

Nossa sociedade é extremamente binarista, isto é, divide o mundo em masculino e feminino, e, consequentemente, em coisas deste e daquele gênero, como se essa divisão fosse super simples e clara, e como se não houvesse nenhum outro gênero. Assim, alguém dizer “você não é como as outras meninas”, quer dizer que se aproxima do outro polo inventado, o masculino, ou do entendido como tal.

Porém, a definição do pertencimento a um ou outro polo (não tratando aqui da identificação com um ou outro gênero, pois essa é uma questão muito mais complexa, mas, somente, da questão de meninas não poderem sair dos limites impostos para este sexo, e garotos idem) é uma construção 100% humana, e, inclusive, varia muito de cultura para cultura, só mais uma prova de que não é uma questão de natureza. Então, com aquela frase, estão querendo tirar uma pessoa de um padrão feminino totalmente construído para encaixar em outro, também completamente criado. A diferença entre eles é, basicamente, a seguinte: o padrão masculino é o considerado ideal pela sociedade. Quantas vezes você já ouviu que homens são mais simples, não falam mal pelas costas, não têm drama… e, por outro lado, quantas ouviu que mulheres são loucas, querem passar uma por cima da outra, criam caso por tudo? Obviamente, quando dizem aquela tão famosa frase, querem dizer: “Você não é como as outras garotas (negativo), você tem características que eu entendo como masculinas (positivo).” Positivo, é claro, se acaso se mantiver dentro dos limites que eu quiser, né?

Não me entenda mal — é ótimo e extremamente saudável tentarmos quebrar com esse tipo de estereótipo! Aliás, aproveito o gancho para dizer: é interessante também questionarmos nosso próprio gênero em si. Mas não precisamos nos prender aos padrões sociais, os quais só dão a opção de nos encaixarmos de um lado do estereótipo ou do seu lado oposto. O (tipicamente entendido como) padrão feminino não é negativo, e não segui-lo a ferro e a fogo, misturar coisas “masculinas” e “femininas” ou se encaixar completamente no (tipicamente entendido como) padrão masculino também não. Simplesmente porque gênero não tem nada a ver com esses padrões bizarros, e sim com identidade.

O importante é a gente não se sentir inferior ou superior por causa disso. Se uma mina é extremamente feminina (mais uma vez, com base no entendimento social) talvez ela já tenha feito essa desconstrução e descoberto se sentir mais confortável assim, até porque, depois de anos tentando não se encaixar no estereótipo feminino por ele ser demonizado, por experiência própria digo que é muito libertador perceber não haver nada de errado com isso. Talvez ela nunca tenha se questionado sobre isso e seja legal encorajá-la a fazê-lo. Talvez ela não queira nunca se questionar. O negócio é que não há problema em ser assim e, em vez de nos separarmos porque “ela é menininha demais” ou “ela é muito masculina”, devemos tentar nos unir e romper com essas imposições juntas. Porque quem criou essa história toda de “você deve ser assim, você deve ser assado” foi o patriarcado e o universo machista, os quais, em primeiro lugar, decidiram que mulheres são inimigas. Não somos e não precisamos ser. Não tem mal nenhum em refutar um estereótipo, mas não precisamos diminuir as minas que não refutam, porque isso nos desune.

Eu entendo perfeitamente por que algumas garotas se sentem bem ao ouvir essa frase e dizem isso também.  Além disso, nosso mundo preza muito pelo diferente, queremos chamar a atenção, nos destacar. Mas, amiga, você pode e vai se sobressair e brilhar do seu jeitinho, sem que isso signifique diminuir e rejeitar outras meninas. Se você pensa assim, sem estresse. É perfeitamente compreensível, mas é importante se perguntar por que para você ser “igual às outras” é algo tão ruim, mas “igual aos caras” não, já que estamos pensando no objetivo de se diferenciar. Ser igual às outras minas realmente não é negativo! Eu pensei que sim um dia, mas, hoje, eu não vejo como poderia ser. Afinal, se ser comparada a Laverne Cox, Lorde, Karol Conká, Juçara Marçal, Willow Smith e tantas outras, principalmente minhas amigas (<3), não é elogio, não sei o que é. Apesar disso, na real, nós obviamente não somos iguais às outras porque ninguém é igual a ninguém. E ainda bem! Essa é a melhor parte de ser um ser humano. Então não vamos deixar essa história de querer ser diferente das ~outras~ nos separar mais. Vamos nos unir e esquecer que inventaram esses polos. Somos todas incríveis, cada uma do seu jeitinho.

Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia, 23 anos (mas todo mundo acha que ela tem 13), feminista interseccional e estudante do último ano de direito. Talvez queira seguir na área, mas seu sonho de verdade é ser cantora e escritora. Se bem que, se fosse possível, largava tudo isso e se tornava Mestre Pokémon pra ontem.

  • Jéssica

    Mas tb tem aquele outro sentido d vc n igual às outras q o carinha pegou no sentido d vc é especial e blá blá blá é tipo vc é uma mulher pra csa e etc….
    O q n dx d ser machista e tds esses pontos q vc relatou no texto! Realmente gostei bastante do texto já tinha ouvido isso q as minas eram smp inimigas e os caras eram smp colegas afinal quando um namorado trai a mina a sociedade patriarcal espera q a mina vá tirar satisfação com a garota q pegou seu namorado n com ele, afinal ele é mais forte e td aquele papinho machista d dizer q vc n tem a mínima chance d discutir com ele é pra ser d igual pra igual vc deve ir procurar briga com a menina q ele pegou! O q é um pensamento mt errado pois quem tinha compromisso com a mina era o namorado n a outra menina q mts vezes nem sabia q ele tinha namorado.
    Enfim, já me alonguei demais eu só queria dizer q no feminismo eu ver a união do gênero feminino msm q ainda precise d mts recortes….

  • Sophia A.

    linda, linda, linda, bia! Sou sua fã

  • Lola Pellegrinetti

    Seu texto me chamou a atenção pelo começo… muito bem elaborado! Mas na realidade pensei que fosse seguir o caminho da necessidade das pessoas de se sentirem diferentes [especiais], pena que seguiu o caminho do tema machismo e feminismo. Pensa que assim como você disse que gostava mais de azul, se as outras meninas também disessem isso, algumas gostassem de rosa e apenas uma disesse que gostava de amarelo, essa não seria ‘como as outras meninas’, e não necessariamente teria escolhido uma cor atribuída a um gênero. Na realidade, o ser igual ou diferente das ‘outras meninas’ ou ‘outras pessoas’ depende mais de quem são as outras do que de você mesma.

    abraço e parabéns pelo blog.

  • Fernanda Abarca

    Muito bom o seu texto! Mas sobre essa história do “azul para meninos e rosa para as meninas” começou na Europa medieval. As pessoas daquela época achavam de vestir meninos de azul os protegia de espíritos malignos. Já o rosa, veio da época vitoriana, onde as pessoas acreditavam que as fadas nasciam das rosas – e aí entra a licença poética – minha filha é uma fada.

  • Fernanda Carolina

    Muito bom o seu texto! Mas sobre essa história do “azul para meninos e rosa para as meninas” começou na Europa medieval. As pessoas daquela época achavam de vestir meninos de azul os protegia de espíritos malignos. Já o rosa, veio da época vitoriana, onde as pessoas acreditavam que as fadas nasciam das rosas – e aí entra a licença poética – minha filha é uma fada.

  • Elena David

    me senti em casa <3

  • ma

    Gostei demais do teu texto!!! Achei que fosse seguir uma outra linha, falando mais da vontade de “ser diferente” (que sempre senti, e me arrependo hoje de não ter percebido antes o quanto estava errada), mas adorei que você tenha falado sobre essas coisas também… Já ha algum tempo tenho tentado abordar esse tema com algumas amigas ~radfem~ (acho que é esse o termo) que vivem tentando me convencer de que não, não posso ser parte do movimento feminista porque sou “mulherzinha” demais, de que tenho que abandonar toda a minha vaidade e assim como elas ter uma imagem “mais masculina”. Todas as minhas tentativas foram em vão, perdi as amigas e a motivação, mas recuperei um pouco do ânimo ao saber que não sou a única que pensa assim.

  • Ana Clara

    Adorei o texto! Toda a minha adolescência fingi ser a cool girl, ser a diferente. E hoje percebo como fucked up isso era. Como eu me obrigava a gostar de certas coisas somente para ser “a alternativa”.

  • Fernanda Berr

    Linda <3

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