9 de abril de 2016 | Ano 3, Edição #25 | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
Jesus negão!
jesuseranegro-SarahRoque

“Aquele que estava sentado parecia uma pedra de jaspe e cornalina; um arco-íris envolvia o trono com reflexos de esmeralda.” – Apocalipse. 4:3

Gostaria de começar esse artigo, exatamente na edição da revista que trata de coisas das quais não falamos, não devem ou não podem ser faladas com uma passagem da Bíblia com a descrição de Jesus Cristo. Falarei novamente dessa passagem mas considero importante destacar agora as características de cor que sempre estiveram ali para quem desejasse ver, embora, ao longo dos anos, a gente tenha sido ensinado a negar. Não apenas com Jesus, mas em tantos exemplos, ainda que sua leitura não seja a Bíblia, quando você lê dizeres como “um homem”, “aquele que estava lá” sem quaisquer detalhes físicos… Qual a cor da pele que você imagina? É sobre isso que precisamos falar e pensar, como um exercício diário em nossas leituras, nossa linguagem e nossa criação estruturalmente racista, afinal não é à toa que a imagem que nos foi apresentada de Jesus Cristo é branca, pois é isso que aceitamos sem contestar, a cor branca é a que não tememos e veneramos com facilidade e sem questionar até hoje, e é a respeito disso que quero falar.

“Os meios de comunicação em massa, há vários anos, têm difundido as provas científicas, históricas, bíblicas e arqueológicas que Jesus Cristo foi um homem negro. O cristianismo católico e protestante tem agido como seres mudos, cegos e surdos. Não seria necessário discutirmos esse assunto porque quando estudamos a história dos verdadeiros hebreus, sabemos que foi uma civilização preta, e quando Jesus nasceu o seu povo preto estava dominado pelos brancos do Império Romano. A história nos relata que essa ideia de brancura na iconografia cristã é muito recente e foram os pintores renascentistas que criaram essa imagem europeia. A imagem renascentista de Jesus Cristo ocidental foi financiada com a venda de indulgências pelo papa descendentes dos Médici, o qual aumentou a corrupção na Igreja Católica Apostólica Romana, resultando na Reforma Protestante do século XVI, liderada por Lutero, Calvino, Wesley e outros reformadores caucasianos, os quais não se importaram com a comunidade preta e suas igrejas participaram ativamente do comércio escravagista. No catolicismo e no protestantismo foi criada a imagem da vergonha”, diz o Rev. James Cone em seu livro O Deus dos Oprimidos.

Por mais que a história contada no ocidente tenha sido escrita por e com pessoas brancas, algumas coisas são difíceis de engolir em pleno 2016, talvez a maior mentira da humanidade e que se perpetua até os dias de hoje é de que Jesus Cristo era um homem branco. Pois é, aquele homem de olhos claros, traços finos e cabelos lisos e compridos que sempre encaramos ao entrar em uma igreja católica ou ao assistir aos filmes que passam na televisão durante toda a semana santa não é nada parecido com o cara que descrevem lá na Bíblia. O camarada que “morreu por todos nós” era mesmo um parceiro, um verdadeiro “irmão” de cor, cor negra e nós não podemos e nem devemos nos esquecer disso. Mas não quero que vocês acreditem nisso apenas porque lhes digo, só preciso que encaremos as evidências e comecemos a questionar essa imagem embranquecida que nos é imposta há tantos anos, seja em formato de novelas com um Egito de pele clara ou na forma de filmes com Deuses do Egito também brancos.

Mas, voltando a falar do considerado em 2015 pelo jornal britânico New Nation o “maior homem negro de todos os tempos”, quero apresentar evidências de que Jesus foi de fato esse grande e importante homem negro. Em sua reportagem, o jornal New Nation destaca pontos importantes como por exemplo: “O cristianismo etíope, que precede o europeu, sempre descreve Jesus como sendo um africano. Apesar das representações comuns nas culturas ocidentais serem de um Jesus loiro, de olhos azuis e estilo hippie, todas as evidências apontam para o fato de que Jesus não poderia ter sido de extração escandinava, e certamente era um irmão de cor.”

Além disso, a Bíblia nos oferece inúmeras vezes pistas quanto a cor de pele e aos traços reais do mesmo, que se mostram bem diferentes do que nos é mostrado no ocidente. Em Apocalipse 1:15 Jesus era chamado de “cordeiro de Deus” por ter um cabelo lanoso, que se comparava a lã de cordeiro e os pés com cor de bronze queimado. Já em Apocalipse 4:3 é dito que Jesus tinha aparência semelhante a pedra de sardônico e jaspe; como mencionado acima pedras essas que geralmente têm uma cor amarronzada. Existem ainda evidências geográficas que podem comprovar a cor negra de Jesus. Talvez você nem imagine, mas… Jesus nasceu na África! O local de seu nascimento que na Bíblia consta como “Belém de Judá” pertencia à África até 1859, quando foi construído o Canal de Suez e então Israel passou a pertencer não só geograficamente, como também cultural e historicamente ao território do Oriente Médio. Em Mateus 2:13 quando Jesus se esconde do rei Herodes no norte da África, fica mais uma vez evidente sua cor já que ele não poderia ter se escondido ali se fosse uma criança branca pois a população do norte da África era composta por negros, ou seja José, Maria e Jesus eram naquele momento apenas mais uma família de negros, entre outros tantos fugindo para o Egito.

Mas ainda assim, após tantas evidências e anos de estudo e pesquisa que comprovam o contrário, ainda permanecemos com a seguinte questão: Por que a indústria cinematográfica e a igreja católica insistem em perpetuar uma imagem que não é real? Imagino que seria no mínimo incômodo para a população branca e católica passar a adorar uma imagem negra, após séculos massacrando um povo, com regimes de escravidão sanguinários, imaginem como seria difícil essa mudança tão radical? Talvez por isso Jesus e os povos do Egito que tantas pessoas adoram ao redor do mundo continuam sendo tratados como homens brancos, com a face angelical, os olhos azuis e os cabelos lisos, muito embora a verdade seja bem diferente e bem negra.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

  • Erik Luiz

    Obrigado pelo ótimo artigo e pela reflexão

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