19 de abril de 2017 | Se Liga | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
Joaquim, o filme: cinema e a descoisificação de negros
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Amanhã (20/04/2017) estreia nos cinemas nacionais Joaquim, o filme. Uma coprodução Brasil e Portugal, com roteiro e direção de Marcelo Gomes – conhecido pela direção de filmes como Cinema, aspirinas e urubus (2005) e Era uma vez eu, Verônica (2012).

O filme me chamou atenção por diversas razões, mas o primeiro ponto que eu gostaria de esclarecer é que não se trata de um filme sobre a história do país. Entendendo aqui história no sentido do que entra nos livros escolares. Não se trata também de pensar minuciosamente a revolta que ficou conhecida como Inconfidência Mineira.

É, ao invés disso, um filme que pensa a figura por trás daquele que entrou para o calendário nacional como o herói Tiradentes. Colocando Joaquim (Júlio Machado) como uma espécie de plano de fundo, de forma sensível, pensa-se quais seriam as relações estabelecidas entre os que habitavam a colônia: negras/os, brancos, indígenas, superintendentes e portugueses.

Nos primeiros minutos de filme, o romance de Joaquim com uma das escravas (Isabél Zuaa), a qual ele chama de Preta, me fez pensar que seria mais um filme para pensar um mito do início do Brasil. O homem branco e a escrava, se amando, mas, adivinhem só? Não é.

O que surpreende no filme é exatamente a fuga de alguns estereótipos. Até mesmo a primeira cena de sexo que acontece no filme, ocorre de modo diferente. Não é, pois, a escrava que de algum modo serve sexualmente a um homem branco. É o homem que está caído de encantos por ela. Confesso, foi nessa cena que o longa me ganhou. É verdade que depois disso ela enfrentará problemas e sofrerá com a objetificação de seu corpo, mas nada disso acontecerá de forma a parecer natural que ocorra.

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Logo, é importante dizer, que por mais que pareça ser sobre Joaquim, será a personagem da mulher escravizada que roubará a cena. Deixando de ser Preta, ganhando nome próprio, Zuaa passa de uma figura que poderia ser pensada como mais uma em uma massa das muitas mulheres negras escravizadas que viveram no país – o que comumente acontece em filmes – e traz à tona a imagem de uma heroína, com história própria.

É interessante pensar, portanto, que se Joaquim é desmistificado como herói, sendo colocado muitas vezes inclusive com uma certa áurea ingênua, Zuaa, por outro lado, demonstra que a luta das mulheres negras não era feita para seguir relacionando-se sexualmente ou amorosamente com homens brancos, mas sim para poder certificar-se de que naquele contexto eles nunca mais as tocariam.

A falta de percepção de um homem branco sobre o papel que exerce na sociedade é então colocada como contraponto à percepção realista de Zuaa e de outros personagens negros de que lugar social ocupavam.

Repleto de conflitos, hierarquias, ambiguidades e sutilezas, eu arriscaria dizer que Joaquim – filme conseguiu ser pensado não só para um público branco de classe média assistir, mas também para que negras/os assistissem e pudessem sair satisfeitos com o filme. Ainda que a questão indígena não ganhe destaque e seja apenas pincelada na trama, eu diria que o filme aborda as relações raciais de forma a complexificá-las.

Trata, nesse sentido, não só de negritude, mas de branquitude também. Mostrando como a questão racial, no nosso país, não é só uma questão de negras/os, mas uma questão que coloca brancas/os e negras/os em relação. Ou seja, não se coloca negras/os de modo a retratá-las/os como coisas ou coisificá-los, indo na contramão disso.

Se eu fosse vocês correria para os cinemas e assistiria, juro que vale a pena!

Fernanda Kalianny
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Se liga
  • Coordenadora de Poéticas

Fernanda Kalianny Martins Sousa , 26 anos, fez Ciências Sociais na USP e cursa doutoraddo em Ciências Sociais na Unicamp. Adora ler sobre aquilo que informa e complementa sua formação enquanto ser humano, então sua área de estudo tem tudo a ver com aquilo que sente ou é (estuda raça, gênero e sexualidade). Escreve poemas e acredita que sempre será "amor da cabeça aos pés". O coração, intensidade e impulsividade controlam quase todas as ações. Ama apaixonadamente e vive as paixões da forma mais cheia de amor possível. Antes que sufoque com o que fica para dentro, coloca tudo no papel.

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