3 de agosto de 2017 | Ano 4, Se Liga | Texto: | Ilustração: Foto: Reprodução/BBC
Jodie Whittaker, a Senhora do Tempo de ‘Doctor Who’
Jodie Whittaker no anúncio oficial de sua personagem em "Doctor Who"

Sabe o que Sigourney Weaver, Lucy Liu e Mayim Bialik têm em comum? Além de atrizes, todas elas interpretaram papéis pensados para homens. Ellen Ripley (personagem de Weaver em “Alien, o oitavo passageiro”), Joan Watson (interpretada por Liu na série “Elementary”) e Blossom (personagem-título do seriado de TV vivida por Bialik) eram papéis masculinos. E você acha que esses personagens são menos icônicos por serem interpretados por mulheres? Claro que não! Jodie Whittaker, de 35 anos, se junta ao time agora como a primeira Senhora do Tempo na linhatemporal da série “Doctor Who” (logo mais, explicamos esse detalhe).

De um lado, houve muita comemoração por uma mulher finalmente assumir o papel principal no tradicional seriado britânico. Afinal, representatividade importa e o que queremos ver mesmo é mais diversidade. Do outro lado, o choro rolou (livre, leve e solto, bem na sua cara). Um dos argumentos foi que o personagem sempre foi homem e não fazia sentido mudar agora. Teve quem o comparasse ao James Bond, alegando que não dá para mexer num cânone desse. A verdade é que sempre dá, tanto que já houve notícias aí de que o próprio espião poderia ganhar uma mulher como intérprete em algum momento (quem sabe, né!?). 

A verdade é que a decisão é para aplaudir de pé. O primeiro de tudo é o que colocamos ali em cima: REPRESENTATIVIDADE. Isso importa demais. Quando escrevemos sobre o filme “Mulher-Maravilha”, batemos nessa tecla. É importante as meninas verem que podem ser o que quiserem: super-heroínas, senhoras do tempo, engenheiras, médicas, advogadas… E é claro que nossa animação por uma doutora em “Doctor Who” não para por aí.

https://twitter.com/jenny_trout/status/886615696062459908

Uma mulher como protagonista da série de ficção científica mais antiga do mundo

Isso é tão legal! Já escrevemos aqui que ficção científica é, sim, lugar de mulher. Mas dá uma desanimada quando vemos que, em filmes deste gênero, mulheres, muitas vezes, são escada para os outros personagens, geralmente homens. É bom saber que veremos uma mulher com muita importância na história!

giphy (1)

Paridade salarial entre Jodie Whittaker e Peter Capaldi

A BBC já afirmou que Jodie Whittaker vai receber o mesmo salário de Peter Capaldi, atual intérprete do viajante do tempo, que se despede do personagem em dezembro. Nada mais justo! E olha que o canal de TV britânico vinha recebendo muitas críticas de sexismo, já que a mulher mais bem paga da emissora, a apresentadora Claudia Winkleman, recebia cinco vezes menos que o apresentador e DJ Chris Evans.

 

BBC já anunciou que Jodie Whittaker terá o mesmo salário de Peter Capaldi para protagonizar “Doctor Who” (Foto: Montagem Capitolina/BBC)

BBC já anunciou que Jodie Whittaker terá o mesmo salário de Peter Capaldi para protagonizar “Doctor Who” (Foto: Montagem Capitolina/BBC)

A primeira produtora de “Doctor Who” foi UMA MULHER

Para quem acha que uma mulher envolvida na história da tradicional série vai ser ruim, já passou da hora de rever seus conceitos. Primeiro porque essa ideia é tão ultrapassada. Mulheres não só podem como devem ser convidadas para os papéis que forem. Segundo: Verity Lambert foi a primeira produtora de “Doctor Who”, ou seja, as mulheres estiveram presentes desde o início do projeto. Foi ela que lançou a série em 1963. Lambert tinha 26 anos, era a produtora mais nova da equipe e a única mulher. Foi dela, por exemplo, a decisão de escalar William Hartnell como o primeiro alienígena Senhor do Tempo a chegar na Terra a bordo da Tardis.

Verity Lambert foi a primeira produtora de “Doctor Who”; ela tinha 26 anos e era a única mulher na equipe (Foto: Reprodução/IMDB)

Verity Lambert foi a primeira produtora de “Doctor Who”; ela tinha 26 anos e era a única mulher na equipe (Foto: Reprodução/IMDB)

A chance de fazer uma história interessante para uma doutora

Lembra que, lá no começo do texto, fizemos a ressalva de que Jodie Whittaker é a primeira mulher a dar vida a uma viajante do tempo dentro da linha temporal da série? Fizemos essa ressalva porque já houve uma outra regeneração em que uma mulher assumiu o papel. Há 18 anos, a escolhida para interpretar a alienígena do planeta Gallifrey foi Joanna Lumley, no especial “A maldição da morte fatal”. O episódio foi produzido para a Comic Relief, uma organização britânica de caridade, e não é oficial, ou seja, não pertence à cronologia da série. Assim como Jodie Whittaker será a 13ª doutora da série, Lumley foi a 13ª regeneração no episódio. O roteiro, assinado por Steven Moffat (atual roteirista do programa), não trazia nada de interessante para a personagem. Em pouco mais de um minuto, a doutora faz piadas com seus peitos e, depois de ficar solteira, termina com seu arqui-inimigo, o Master (Jonathan Pryce, o Pardal de “Game of thrones”). Torcemos para que Chris Chibnall (que já trabalhou com a nova doutora na série “Broadchurch”) crie algo mais interessante que isso!

Joanna Lumley como a Senhora do Tempo em “Doctor Who”; especial não faz parte da cronologia da série (Foto: Reprodução/Youtube)

Joanna Lumley como a Senhora do Tempo em “Doctor Who”; especial não faz parte da cronologia da série (Foto: Reprodução/Youtube)

Outros personagens já regeneraram como mulher

Pode ser a primeira vez, na série, que temos uma doutora. Mas a regeneração de homem em uma mulher não é novidade em “Doctor Who”. Já aconteceu com o arquirrival do Doutor, que deixou a alcunha de Master de lado e assumiu o nome Missy na forma feminina, interpretada por Michelle Gomez. Com o General também rolou o mesmo, e a regeneração foi mostrada no episódio (como dá para ver no vídeo abaixo): no lugar de Ken Bones, ficou T’Nia Miller. Nada disso descaracterizou a série. Muito pelo contrário, é bom acrescentar pluralismo a uma história contada há tantos anos. Agora, chegou a vez de uma doutora.

Ao que parece, a ideia nunca foi absurda. Num dos diálogos da 10ª temporada, o Master (John Simm) pergunta ao doutor (Capaldi) “se o futuro será apenas com garotas”, ao que ele responde: “espero que sim”. Bem antes disso, o quarto intérprete do Senhor do Tempo já tinha levantado essa hipótese. Questionado sobre qual ator poderia substituí-lo na série, Tom Baker respondeu: “Quem que te disse que vai ser um homem?”. Isso foi em 1981. Foi preciso que 36 anos se passassem, “Doctor Who” parasse de ser produzida em 1989, fosse retomada em 2005 para, em 2017, haver o anúncio de que uma mulher estará a bordo Tardis. Com os dedos cruzados para que toda essa espera valha a pena!

giphy

Aline Bonatto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Oie! Eu nasci há alguns anos atrás (num dia de abril, em 1988), morei até os 19 anos em Colatina, um lugar quente no Norte do Espírito Santo, e vim para Niterói estudar Jornalismo. Saí da faculdade, mas não de Niterói e trabalho no Rio como repórter de TV. Gosto de escrever, ler, cozinhar, especialmente se eu não for comer sozinha, adoro ficar largada no sofá assistindo a séries/filmes/novelas acompanhada do namorado ou de amigos ou com todo mundo junto. Ah, e com um brigadeiro na colher!

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos