24 de junho de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Jogo do Mês: A House in California

Memória não é assim um tema muito incomum nos jogos. Só de cabeça, consigo nomear uns dez que trazem personagens atormentados por um passado que não conseguem deixar para trás ou que, ao contrário, não lembram de onde vieram e lutam para recuperar lembranças perdidas. Mirando com mais precisão no tema, existem ainda aqueles games – como Remember Me e To the Moon – que fazem das memórias o centro de seus roteiros ou jogabilidade. Dito isso, preciso contar que nunca vi um game que se propõe a falar de recordações com o lirismo e a graça honesta de A House in California.

O jogo é uma produção gratuita e completamente independente da Cardboard Computer, desenvolvedora por quem me apaixonei desde seu título mais famoso: o episódico Kentucky Route Zero. Lembro-me de terminar o terceiro episódio do Kentucky, respirar fundo e procurar incessantemente por notícias de quando sairiam os seguintes (serão cinco, no total). Sem sucesso em minha empreitada, voltei à página da produtora e descobri um verdadeiro baú de joguinhos gratuitos e interessantes, dentre eles este de que falo agora. Aliás, vale muito a pena dar uma fuçada no site!

A House in California é um Adventure Point-and-Click focado na narrativa de quatro mulheres que dão vida a uma casa. Num sentido figurativo, claro; afinal de contas, como cantaria Dionne Warwick (e tudo bem fingir que não conheceu essa música por causa do Kurt de Glee): “Uma casa não é um lar” sem as pessoas que a habitam. Como são baseadas em quatro figuras de grande importância na vida do desenvolvedor, Jake Elliot, o jogo tem um tom fortemente biográfico: apesar de um tanto quanto surreal, ele é uma clara homenagem a suas duas avós e duas bisavós – e uma celebração da nostalgia.

Não à toa, a identidade visual remete bastante ao primeiro Graphic Adventure (Aventura gráfica) da história, Mystery House de 1980. Só que, diferente dessa antiguidade detetivesca sobre um assassinato, A House in California é um daqueles jogos relaxantes que dão um calorzinho no peito quando conseguimos reunir todas as peças de um quebra-cabeça e vemos uma casinha ganhar vida própria graças aos esforços imaginativos de suas ocupantes.

Curiosamente, mesmo que você não tenha muita paciência para a vibe “contemplativa” do jogo, ele é relativamente desafiador e bem naquele estilão “ache o item tal para abrir caminho pela passagem X” das Aventuras Gráficas clássicas. Você explora o cenário através de verbos que podem realizar ações ou dar características sobre determinado objeto, e cada uma das mulheres possui algumas atividades específicas: Lois pode “Lembrar” e “Esquecer” de qualquer coisa – inclusive de si mesma –, enquanto Beulah “Lê”, “Esquece”, “Cozinha” e “Faz amizades”. São detalhes tocantes que nos transportam tanto à intimidade de uma família, quanto funcionam bem num cenário interativo. Não importa se o seu interesse é pelo passatempo ou pelas características “artísticas” do game: A House in California não faz feio.

De curta duração (provavelmente você terminará em menos de quarenta minutos), esse é um game que me transportou para algum lugar nostálgico de minha infância. Não tanto pelas ações em si (eu nunca usei vagalumes para iluminar um poste, por exemplo), mas por ressoar tanto como uma daquelas historinhas de vó, acolhedoras e adoráveis.

Você pode baixar A House in California de graça aqui.

O Pior: Algumas relações de causa e efeito podem parecer ilógicas se você não se deixar levar pelo surrealismo saudoso.

O Melhor: Bora fazer bolinhos de chuva? <3

Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

  • Arilus

    Muito interessante.
    Vou ter que dar uma olhada!

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