20 de agosto de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Jogo do mês – Papo & Yo

papoeyoIlustração por Jordana Andrade

Você já deve ter tido uma experiência assim quando criança: equilibrar-se no meio-fio como se sua vida dependesse disso porque (cuidado!) há um tanque de tubarões lá embaixo. Ou então pendurar-se numa árvore e fingir que dá para ver a cidade inteira lá de cima (tadinha da árvore, mal tem o tamanho de um adulto). Ou jogar a cabeça para trás enquanto faz impulso num balanço, com apenas o céu azulão lá em cima e, em você, a sensação de voar. Eu fazia essas coisas e muito mais; e imagino que você também!

Algumas pessoas nunca perdem a capacidade de se aventurar por universos imaginários, mas todo mundo sabe que essa é uma habilidade muito mais natural para as crianças. E, embora na maior parte das vezes façamos isso para nos divertir, de vez em quando a fantasia é uma forma de fuga de uma realidade dolorida. Papo & Yo é um game exatamente sobre isso: a tentativa de um menino pobre de fugir da sensação de impotência provocada pelo relacionamento abusivo que leva com seu pai alcoólatra. E o resultado é um jogo bonito, inteligente e melancólico – mas cheio de notas de esperança.

O Monstro e Eu

Quico é um menino que mora numa versão fantasia de uma favela brasileira. (Eu sei, eu sei: nem “Quico”, nem o título do jogo soam muito brasileiros, mas, para ser justa, o cenário é mais inspirado do que realmente O Brasil.) Um dia, trancado no armário para fugir dos ataques de fúria de seu pai, ele encontra um portal que o leva para uma cidade mágica onde caixas de papelão são casas, bonecos de ação podem ser jetpacks e desenhos feitos com giz produzem janelas para outros mundos. Mais importante, essa cidade é lar de Monstro, uma criatura poderosa e gentil que é apaixonada por cocos e dorme na maior parte do tempo. Quico ama o Monstro e uma boa fatia do jogo consiste em explorar essa relação para conseguir solucionar certos quebra-cabeças e passar das fases.

Mas há um problema: cada vez que Monstro come um sapo, ele fica furioso, agressivo e completamente destrutivo: ele ataca Quico violentamente e nada lembra da velha amizade cultivada entre eles. Quico então é chamado para encontrar um “xamã” que poderá curar o vício de monstro por sapos, e parte numa aventura pela cidade fantástica.

Não precisa ser gênia para entender que o “Monstro” é uma representação do pai de Quico no mundo da fantasia – e que os sapos são uma forma infantilizada de entender o álcool. A viagem de Quico, que parece ser para ajudar o seu amigo, no fim das contas é uma aventura de aprendizado pela própria salvação. É, mais do que isso, a jornada extremamente dolorosa para sair de um ciclo vicioso de abuso.

Janela para fora

Papo & Yo foi baseado nas experiências de infância de seu diretor criativo, o colombiano Vander Caballero, com o pai. Por causa disso, embora o jogo seja quase que o tempo inteiro filtrado pela gentileza mágica dos olhos infantis de Quico, há uma tristeza e um horror claro para aqueles que são “bons entendedores”.

Como Caballero disse ao portal Arena IG em entrevista, este é um jogo um tanto quanto autobiográfico sobre seu próprio processo de enfrentar um problema grave, seguir em frente e até mesmo perdoar. Alguns críticos parecem ter ficado chocados com o quão aberto Caballero é a respeito do relacionamento com seu pai. Mas sua resposta, como um bom sobrevivente, é sempre que a primeira coisa para enfrentar um problema é olhá-lo de frente. Depois de muitos anos de terapia, ele finalmente teria tido a coragem de transformar sua experiência pessoal em arte, em forma de um jogo.

E agora pode, com isso, talvez ajudar no processo de cura de pessoas com problemas parecidos com os dele – além de construir um game extremamente pessoal, quase como entrar nas memórias íntimas de outra pessoa.

Movendo as pecinhas

Mecanicamente, esse é um game de solucionar quebra-cabeças simples para avançar. Os puzzles em si não são superdesafiadores, mas tudo bem porque essa nem é a intenção. Mais do que “jogar bem” ou “ser a mais esperta”, o game recompensa a exploração e a sensibilidade. E acho que, a esta altura do campeonato, você já percebeu que aqui na Capitolina a gente adora esse tipo de possibilidade.

A ideia do jogo é que os problemas encontrados por Quico, e suas soluções, tenham alguma ressonância com o restante da história. Assim, o poder de controlar a dinâmica de uma cidade inteira com a força da imaginação, “dar corda” em casinhas voadoras ou usar a ira do Monstro para levá-lo para armadilhas não são apenas respostas para os problemas, mas possuem um peso emocional tão gigante quanto o Monstro da historinha.

É verdade que algumas pessoas reportaram uma série de bugs e glitches, embora eu não tenha encontrado nenhum. O fato é que Papo & Yo está looonge de ser um game polido como um Journey da vida, mas é provavelmente o game que mais partiu meu coração, e talvez o mais emotivo. A construção da história, os laços que são formados e as emoções que culminam num final destruidor são suficientes para que eu diga, com todas as palavras, que Papo & Yo é um game único, e que merece ser julgado conforme sua mensagem de esperança e coragem.

Então, por favor, jogue, jogue, jogue, jogue!

O pior: Alguns jogadores relataram alguns glitches que podem atrapalhar o progresso e que são bastante irritantes.

O melhor:  Lindo e inconsolável, Papo & Yo transforma uma situação dolorosa em experiência de crescimento. Nos videogames, é único.

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Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

  • renata

    tem para android? não achei na playstore 🙁

    • http://criandomundos.wordpress.com/ Vanessa Raposo

      Infelizmente não tem, Renata =(
      Só para computador e Playstation 3. Se te interessar, a versão para computador é bastante acessível, e volta e meia está em promoção.
      http://store.steampowered.com/app/227080/?l=portuguese

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