5 de outubro de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Sarah Roque
KBELA, Shonda e a voz da mulher negra

Hoje vamos falar de protagonismo, mais especificamente do protagonismo de mulheres negras e da dimensão da importância de vermos essas mulheres sendo narradoras de suas próprias histórias, retomando para si suas vozes.

Eu não poderia, em hipótese alguma, não falar de KBELA, um projeto dirigido por Yasmin Thayná e que foi lançado em setembro, no Cine Odeon, no Rio de Janeiro. KBELA nasceu a partir da urgência e necessidade de se falar sobre a aceitação, essência e estética da mulher negra, mais precisamente seu cabelo, sua importância simbólica, política e identitária.

O filme tem como estrutura o conto Mc K-bela, escrito também por Yasmin, num espaço onde ela pôde expor seu caminho rumo à percepção e aceitação de sua negritude. Neste conto, acompanhamos a vida de uma menina negra e seu processo de rompimento com o embraquecimento racista e seu empoderamento. Como se isso ainda não bastasse para fazer dessa uma experiência única, descobrimos também que a obra foi realizada com a ajuda de um financiamento coletivo e que tem em todo o seu processo de realização pessoas negras assumindo o controle do projeto.

Dandara Raimundo, atriz que está envolvida com o KBELA há três anos, conta um pouco do que ele significa em sua vida:

”O KBELA para mim foi como um flash, um sinal para acordar! Eu soube da seleção para o filme pelo Facebook, por um amigo. Estava disposta a voltar atuar e achei que seria um bom começo. Tinha acabado de fazer a transição capilar e queria ver como seria o processo de criação de um curta. Adicionei a maioria das meninas do primeiro elenco, da produção e adicionei também a Yasmin Thayná, diretora do filme. Com a fala de empoderamento delas na seleção me empolguei para saber em quais rolês elas andavam, queria saber mais sobre todas, sobre a luta de todas, queria estar ciente de tudo. Eu me peguei iniciante no feminismo negro interseccional, a cada post de cada mana eram 3 abas no Google para procurar entender, foi de Marx e lutas de classe à Maria Carolina de Jesus. Eu me vi empoderando meninas negras, me amando e me aceitando, entendendo melhor que devo diariamente lutar contra esse sistema racista, que representatividade importa, que ser gorda não é um defeito, que posso amar meu corpo e não dependo da “opinião” dos outros para ser feliz, que racismo não passará e que terão mais mulheres negras atuando, escrevendo e dirigindo filmes, peças e afins.”

Eu já havia comentado sobre a importância dessas conquistas para nós, mulheres negras, mas continuo achando importante frisar o quão empoderador é conseguirmos conquistar a chance de sairmos apenas do campo de espectadoras e nos tornarmos protagonistas de nossas próprias histórias. De vermos outras mulheres negras também por trás das câmeras e dos livros, de podermos colocar, através de nossa arte, nossas histórias, conquistas e dores. De ressignificarmos nossos corpos e nossa identidade.

Nada mais justo também do que falar de outra mulher negra igualmente maravilhosa, cujas histórias acompanhamos e amamos porque, além de ser incrível em seus roteiros e produções, ela nos faz sentir representadas. Shonda Rhimes mostra que nós existimos e que não estamos sozinhas. Que podemos ser o que quisermos, que podemos ter uma carreira de sucesso, ajudar a governar um país e sermos brilhantes advogadas. Sim, estou falando de Scandal e How to Get Away With Murder. Dois enormes sucessos de Shonda protagonizados por mulheres negras. Essa última inclusive foi responsável por encher nossos olhos de lágrimas muito recentemente, durante o 67º Emmy Awards, porque Viola Davis se tornou a primeira atriz negra a vencer o prêmio de Melhor Atriz em uma série Drama.

Em seu discurso de agradecimento ela tocou na ferida e não teve medo de expor o racismo na indústria cinematográfica.

”Na minha mente, eu vejo uma linha, e além dessa linha eu vejo campos verdes, flores lindas e belas mulheres brancas, com seus braços esticados tentando me alcançar além dessa linha. Mas eu não me vejo e não sei como chegar lá. Eu não consigo passar daquela linha. Isso foi Harriet Tubman em 1800. E deixe-me dizer: a única coisa que separa as mulheres de cor de qualquer outra pessoa é a oportunidade.

Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem. Então aqui vai para todos os escritores, todas as pessoas impressionantes que são Ben Shenwood, Paul Lee, Peter Nowalk, Shonda Rimes, pessoas que redefiniram o que significa ser bonita, ser sexy, ser uma mulher de liderança e ser negra. E para as Taraji P. Hensons, as Kerry Washingtons, as Halle Berrys, as Nicoles Beharies, as Meagan Goods e Gabriele Unions: obrigada por nos levar além dessa linha. Obrigada à Academia de Televisão. Obrigada.”

Shonda, nós também te agradecemos, e muito. E caso você ainda não esteja totalmente convencida da relevância e do poder da Shondaland, trago aqui trechos de um discurso dado por ela ao receber uma homenagem durante o 11º Baile da Campanha de Direitos Humanos.

”Eu odeio a palavra diversidade. Sugere algo… Outra coisa. Como se fosse algo especial, ou raro. Como se houvesse algo de incomum em contar histórias envolvendo mulheres, negros e personagens LGBT na tv. Eu tenho uma palavra diferente: normalizar. Estou normalizando a televisão. (…) Deixem-me contar como eu era quando criança: muito inteligente, muito gorda, incrivelmente sensível, nerd e dolorosamente tímida. Duas tranças ficavam nos lados da minha cabeça de um jeito que não ficavam bem em mim. E o pontapé inicial: eu era, frequentemente, a única negra na minha classe. Eu não tinha amigos. Ninguém é mais cruel do que humanos encarando alguém diferente. Eu era muito sozinha. Então… Eu escrevia. Eu criava amigos. Dei nomes a eles e escrevi cada detalhe deles. Dava histórias a eles, casas e famílias. Escrevi sobre suas festas, encontros, amizades, vidas e eles eram muito reais para mim. Shondaland, a terra de imaginação de Shonda, existe desde meus 11 anos. Eu construí na minha cabeça um local onde eu pudesse guardar minhas histórias. Um local seguro. Um espaço para meus personagens existirem. Um espaço onde eu existisse. Até que eu pudesse deixar a adolescência e pudesse correr para o mundo e ser eu mesma. Menos solitária, menos marginalizada, menos invisível aos olhos dos outros. Até que eu pudesse encontrar pessoas como eu no mundo real. Não sei se notaram, mas costumo escrever sobre uma coisa: estar sozinho. O medo de estar sozinho, o desejo de não estar sozinho, as tentativas que fazemos para encontrar nossa pessoa, a alegria de estar com nossas pessoas e, portanto, não estarmos mais sozinhos, a devastação de sermos abandonados. A necessidade de ouvir: você não está sozinha. (…) Estou fazendo a televisão parecer como o mundo é. Mulheres, negros e pessoas LGBT são mais de 50% da população. Isso significa que não há nada fora do comum. Estou fazendo o mundo da televisão parecer NORMAL. Estou NORMALIZANDO a televisão. (…) Eu ainda sou a única negra na minha classe (Olhe em sua volta). Mas aqui vai: eu não estou mais sozinha. Os personagens que viviam na minha cabeça estão na televisão. Não são só meus amigos agora – são também de todos. Shondaland está aberta, e se eu estou fazendo meu trabalho direito, há uma pessoa para cada um.”

Link para discurso.

Eu queria, mais uma vez, agradecer à Shonda, à Yasmin e a todas as mulheres negras e suas vozes. A conquista de vocês é para todas nós.

Amanda Lima
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Se Liga

Amanda, 22 anos, mas com carinha de 15. Ama o significado de seu nome, mas prefere que a chamem de Nina. Psicóloga e militante feminista, sabe que conhece ainda tão pouco e por isso tem uma sede muito grande em conhecer mais. Mais da vida, mais do mundo, mais de tudo. Nutre um amor incondicional por Beyoncé e, nas horas vagas, sonha em poder mudar o mundo.

  • Jacqueline Sousa

    Ser uma advogada de sucesso? Ela pode ser muito competente, mas não é exemplo. Ela defende pessoas culpadas. Isso me incomoda, porque acho que ninguém que tivesse uma pessoa próxima assassinada iria querer ver o culpado sendo inocentado. Scandal eu não assisti nenhum episódio… acho que HTGAWM é boa por colocar uma mulher negra como protagonista, mas dizer que é exemplo… não acho que seja, pra mulher alguma.

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