21 de setembro de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Keeping Up With the Kardashians

Eu juro que não quero parecer aquelas pessoas arrogantes que gostam de se mostrar superiores por gostarem / conhecerem certas coisas antes delas se tornarem superpopulares. Mas o fato daquele reality show com pessoas que eu não tinha a mínima ideia de quem eram ou porque estavam lá que eu costumava assistir entre intervalos de séries da Sony em 2008 se tornar um fenômeno cultural é estranhamente fascinante pra mim. Os Kardashian/Jenner se tornaram nomes conhecidos mundialmente, ganharam não só uma fama absurda mas também dinheiro e passaram (pelo menos alguns) a fazer parte da lista de celebridades top de linha.

 

Então, da televisão para a boca de todo mundo: como tudo isso aconteceu?

 

 

Reality shows têm aos montes e praticamente todo canal de televisão tem um. São variações de um mesmo formato: mostrar a vida como ela é. As câmeras registram a vida das pessoas ou registram as pessoas reagindo a certas situações. Eu poderia entrar numa discussão entre reality shows e documentários, mas o ponto importante dessa discussão pra este texto é aquela velha briga entre a superioridade do cinema e a ralé da televisão (coisa que já mudou bastante, mas isso é conversa pra outra pauta). Existe toda uma ideia sobre tudo que é feito para a televisão é de qualidade menor, é alienante e supérfluo. E Keeping up with the Kardashians também acaba sendo influenciado por essa visão cultural pobre da televisão.

 

Não foi a E! (canal que transmite KUWTK e todos seus desdobramentos, inclusive seu mais novo*, I am Cait) que inventou reality shows, mas é a casa do que a gente poderia considerar o reality show de maior sucesso dos últimos tempos. Não foram os seus programas de televisão, mas seus participantes (em menor e maior graus) que se tornaram sua marca registrada.

 

O registro das desventuras na vida dos Kardashian / Jenner faz parte de um tipo de reality show que apenas registra o cotidiano de seus participantes. Durante alguns meses, uma equipe de filmagem segue a família e edita as melhores partes, que são as partes que vemos no programa. Claro que as melhores partes são as que podem dar polêmicas, os comportamentos bizarros, as brigas, questões financeiras, relacionamentos e qualquer coisa que fuja do banal que vivemos todos os dias – ou, pelo menos, o jeito banal como fazemos as coisas. Como não há competição, não há prêmios ou vilões e mocinhos para torcermos e precisamos que as famílias ou pessoas que são registradas tenham alguma coisa que cause interesse nos espectadores.

 

Keeping up with the Kardashians não foi criado porque as pessoas se interessavam pelas irmãs Kourtney, Kim ou Khloé previamente, mas está no ar até hoje, com suas diversas ramificações, porque por alguma razão nos tornamos fascinados por elas e pelo resto de suas famílias. Seja por curiosidade, seja por ódio. O mundo é um grande tapete vermelho onde eles desfilam. É muito fácil dizer que o público médio consome tudo sem questionar, que as revistas e programas de celebridades existem porque há interesse, mas é preciso lembrar que as pessoas consomem certo tipo de cultura porque ela existe. Existe uma demanda e existe um consumo e eles andam lado a lado.

 

Então, entre 2007 e o dia de hoje, alguma coisa aconteceu para que eles tenham se tornado a supermarca que são. Há quem diga que vivemos numa época narcisista, que gostamos de nos mostrar, ser vistos e ver. Que todos podem ter seus reality shows e se tornar celebridades. Que vivemos numa época que para se tornar famoso não precisa de muita coisa, menos ainda de talento. Podemos acusar todos de serem fúteis, de darem audiência para pessoas que não têm e não fazem nada da vida.

 

Kris Jenner (antes Kardashian) é a primeira pessoa por trás da ideia do reality show e foi com a ajuda do produtor Ryan Seacrest que conseguiu vender o programa para a E! e, desde sua estreia, é um dos programas mais assistidos do canal. Dez temporadas com 143 episódios ao total, sem contar os diversos outros programas, que focavam em apenas algumas pessoas da família. Algumas pessoas criticam ferozmente Kris, por tentar querer fama e dinheiro às custas de suas filhas (primeiro por Kim, Kourtney e Khloé, agora com Kendall e Kylie).

 

Mas Kris e Kim merecem pelo menos nosso reconhecimento quando se fala de empreendedorismo. Mesmo que seja questionável querer lucrar com a exposição de sua família, Kris conseguiu muita coisa e muito rápido. Se hoje eles são tão famosos e têm ganhado rios de dinheiro com seus nomes é porque ela acreditou que sua família era interessante e forte o suficiente para fazer com que as pessoas se interessassem por eles.

 

Kim Kardashian em 2007 teve um vídeo de sexo vazado com seu namorado da época. Já vimos essa história diversas vezes. Moça tem fotos ou vídeos comprometedores roubados e vazados, ela é condenada pela opinião pública, todos os piores xingamentos (sempre direcionados à mulher, nunca ao homem que aparece ou à pessoa que expôs a outra). Nem sempre as mulheres e meninas que passam por esse tipo de situação conseguem lidar bem ou contornar a situação. Se em uma época Kim era lembrada pela fita com o namorado, hoje isso é apenas uma coisa do passado. Kim Kardashian é definida por diversas coisas, sim, uma delas é a fita, mas isso não é toda sua figura pública. Para os machistas de plantão esse fato vai sempre estar aí, mas para você e eu que queremos apenas saber o nome da irmã de North West, a fita não é nada.

 

Apesar disso, a imprensa sabe ser bastante cruel com Kim e sua família, por que elas são mulheres e mulheres nunca são suficientemente boas em nada. O programa tem que ser criticado, o formato e nossa cultura, porque precisamos e devemos criticar as coisas ao nosso redor, mas nunca por meio de xingamentos e misoginia.

 

Ainda assim, como eu disse no começo do texto, fico espantada com toda essa fama e nesse texto tenho menos respostas e mais questões a levantar. Mesmo que seja visível o interesse do público, os críticos nunca viram o programa com bons olhos, as acusando de só quererem atenção e fama. Eu não consigo culpá-las. A mídia vende um estilo de vida ‘x’ e quer que as pessoas anseiem por ele. Elas são pessoas que estão conseguindo mais que isso. Uma hora dizem às mulheres que elas precisam ser magras, se prepararem para o verão, depois dizem que na verdade, o que importa é a beleza interna. Quem se importa com a aparência é superficial. Talvez tenhamos criado um monstro, agora só nos resta aprender a lidar com ele.

 

No começo dos anos 1990, Kris e o então ex-marido Robert Kardashian estiveram a margem de um dos crimes americanos mais famosos da década: o assassinato de Nicole Brown Simpson. Acusado de matar a ex-mulher, o jogador de futebol americano O.J. Simpson foi defendido no julgamento por Robert. O grande problema é que Nicole era uma das melhores amigas de Kris e O.J. o padrinho de Kim. A mídia na época fez uma enorme cobertura do caso. Previsto para estrear no início do ano que vem, American Crime Story (dos produtores de American Horror Story) vai contar o julgamento de O.J. Simpson. A atriz Selma Blair irá interpretar Kris. Essa talvez tenha sido a primeira de diversas polêmicas que a família se envolveu, mas a diferença é que hoje temos as câmeras e mídias voltadas para eles. As possíveis plásticas, os casamentos relâmpagos, paternidade questionada, maternidades e relacionamentos abusivos são alguns dos temas que acabaram chamando mais atenção durante as temporadas.

 

Segundo o Google, no passado, Kim Kardashian foi a segunda pessoa mais procurada no site, perdendo apenas para Jennifer Lawrence. Suas irmãs mais novas Kendall e Kylie são uma enorme sensação e quase tudo que fazem é digno de manchetes e compartilhamentos.

 

Em abril de 2015, Caitlyn Jenner em uma entrevista com a apresentadora Diane Sawyer se declarou uma mulher trans e que suas questões de identidade de gênero foram uma das razões do divórcio com Kris. Nessa mesma entrevista, Jenner falou que nos anos 1980 chegou a começar a fazer a transição, mas parou quando o relacionamento ficou mais sério. Foi um momento importante e toda a atenção da mídia se virou para uma das personagens menos populares de KUWTK. Antes da transição, Caitlyn estava sempre em segundo plano, normalmente, à sombra de Kris, suas filhas ou enteadas. Sua transição está sendo mostrada no reality show I am Cait e também exibido pela E!.

 

Querendo ou não, não dá pra negar o poder que essa família tem. Nem que seja o poder de transformar qualquer coisa em lucro ou de chamar a atenção. Não há muito que a gente possa fazer sobre isso.

 

*Este já não é o mais novo, porque ontem, assistindo ao Red Carpet dos Emmy’s, descobrimos que vai ter um novo reality sobre as atendentes da loja delas, a Dash. O nome do programa é Dash Dolls. Também será exibido pelo E!.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

  • http://www.facebook.com/kessy.santos Kessy Santos

    OBRIGADA POR ESSE POST! amen

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