25 de novembro de 2015 | Cinema & TV, Colunas, Se Liga | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Lei e Ordem SVU e a Justiça

Estamos vivendo em tempos difíceis para ser mulher. Testemunhamos agora mesmo mais uma tentativa dos setores conservadores de limitar nossos direitos sobre nossos próprios corpos através de um projeto de lei. Não passamos um dia sem escutar alguma história horrível sobre violência baseada em gênero. A campanha #primeiroassedio deixou evidente para quem quiser ver o fato que não existe uma mulher que não tenha sido assediada, ou que não vá ser – mostrou também que é muito importante que não nos calemos sobre as violências que sofremos, que tenhamos comunhão, mas que isso não vai ser fácil de enfrentar. E nada disso é exclusividade nossa: escutamos histórias parecidas em todo lugar. Nos Estados Unidos, estão acontecendo até mesmo massacres motivados por ódio a mulheres.

Lei e Ordem SVU é uma série que está no ar há incríveis 17 anos falando, na maior parte de seus episódios, justamente sobre violência contra mulheres (já levantamos nesse texto algumas problemáticas relacionadas à representação excessiva de violência sexual na televisão, que se aplicam a essa série, mas não vamos falar disso agora). Eu nem lembro quando comecei a assistir a Lei e Ordem SVU, já que parece que ela sempre esteve na TV, mas desde que troquei televisão por computador tinha parado de acompanhar – até agora, na temporada 17, que estreou nos últimos meses. Nessa última temporada, Olivia Benson, que por muitos anos na série foi detetive da unidade de vítimas especiais, agora se torna tenente e está lidando com as dificuldades de criar uma criança pequena e ter um trabalho que demanda muito dela.

Uma das coisas mais difíceis de lidar, tanto para Olivia quanto para quem assiste, são os sentimentos conflitantes que vêm a partir do funcionamento do sistema de justiça. Essa série nos mostra que o mundo é cruel com mulheres e também que a “justiça” é racista, classista e preconceituosa e simplesmente não atinge seus objetivos – sabemos disso porque Olivia vive em um mundo de violência que não mudou em nada ao longo de 17 anos. Nós vemos crimes horríveis e cruéis cometidos por personagens que claramente não se arrependem e nos pegamos torcendo fervorosamente para que sejam presos com sentenças vitalícias. Ao mesmo tempo, vemos crimes cometidos por personagens que foram levados a isso por circunstâncias muito mais amplas, de um mundo com uma herança de opressão socioeconômica que atinge não apenas mulheres, mas pessoas negras, gays, pobres, imigrantes entre tantos outros grupos, e aí ficamos torcendo para que eles não sejam presos porque isso seria simplesmente cruel e só pioraria tudo.

Nesse sentido, a lição tão difícil que a série ensina a nós e aos detetives cujas trajetórias acompanhamos, é que nossas opiniões pouco importam, já que através do sistema de justiça normalmente quem é condenado são as pessoas com menos capacidade de se proteger. Uma temática recorrente de episódios é de meninas que sofrem violência sexual em suas universidades, vítimas de meninos ricos e brancos de famílias com prestígio. Eles nunca são condenados – misteriosamente, sempre faltam evidências, sempre falta alguma coisa, a vítima sempre fez algo errado. Em oposição a isso, vemos personagens de contextos não tão favoráveis submetidos a punições muito maiores, que vão arruinar o resto de suas vidas e de suas famílias, por ofensas muito menores.

É muito fácil concluir, a partir de Lei e Ordem SVU, que o mundo é um lugar muito difícil de se viver. Mas talvez possamos também tirar disso tudo que precisamos repensar o sistema de justiça para alcançarmos um mundo menos agressivo. Precisamos repensar a ideia de um sistema que serve para punir, e não reabilitar; em primeiro lugar, porque pessoas de contextos diferentes são afetadas de maneiras diferentes e isso é o oposto de justiça, e em segundo lugar, porque isso simplesmente não vem funcionando, nem para a Olivia e nem para nós.

Thais Bakker
  • Colaboradora de Cinema & TV

Thais tem 20 anos e estuda Relações Internacionais e Filosofia. Se sente bem estranha se apresentando, por isso pagou uma coxinha a quem escrevesse isto por ela. Essa pessoa também achou relevante mencionar que ela reclama mais do que o socialmente aceitável.

  • Dara Souza

    eu sou apaixonada pela série e sofro com a Olivia em todas as vezes q ela é menosprezada. amei o seu texto, belo trabalho!

  • Dara Souza

    eu sou apaixonada pela série e sofro com a Olivia em todas as vezes q ela é menosprezada. amei o seu texto, belo trabalho!

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