7 de novembro de 2015 | Literatura | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
Leitura das Minas: “A arte de ser normal”, de Lisa Williamson

 

Meus livros preferidos na adolescência eram sobre meninas tímidas, inseguras, não muito bonitas, sem muito traquejo social, se descobrindo e amadurecendo. Enquanto eu crescia, com mais dúvidas do que respostas nessa longa e perigosa jornada que é a adolescência, os livros jovens foram grandes amigos. Sendo uma menina branca, cis e de classe média, era fácil me identificar com os personagens. Mas, mesmo que nossos dilemas sejam, na verdade, diferentes dos que as nossas heroínas juvenis enfrentam (a maioria americana), enquanto leitoras, sempre acabamos procurando pontos de identificação. Afinal, a gente precisa e quer se sentir representada, incluída, ou — falando em termos mais sentimentais — abraçada. O único problema é que, quando tentamos nos encaixar nos padrões dos outros, acabamos simplificando tudo e deixando de fora muita coisinha que tá ali, e que acaba sufocada dentro de nós. Algumas vezes, são coisinhas mesmo, em outras, são coisas muito, muito importantes.

Sempre houve pouca representatividade nos livros young adults (jovens adultos), principalmente se falarmos em protagonismo. Mas essa realidade vem mudando. É aí que entra A arte de ser normal, romance de estreia da inglesa Lisa Williamson e um dos primeiros YAs trazidos para o Brasil que retratam transexualidade e o momento de transição na adolescência.

Na primeira página o livro já te puxa pela mão e diz “senta aqui, vamos falar sobre a questão de gênero”, quando David, aos oito anos, escreve numa redação do colégio que, quando crescer, quer ser uma menina.

Acompanhamos então a história de David aos 14 anos, uma menina presa no corpo de um menino, passando por um processo de transformação e de revelar isso para os pais, que acham que ele é gay. Sua relação com a irmã é péssima (o resto da família, aliás, também não lhe dá muita atenção), e ele sofre um bullying pesado no colégio. Os únicos que estão ao seu lado, e sabem seu segredo, são seus dois melhores amigos.

Do outro lado da história, temos Leo, um menino introspectivo, com uma família desestruturada. Ele mora com as irmãs e a mãe em um bairro humilde, e sonha em reencontrar o pai, que o abandonou ainda bebê. Leo acabou de se mudar para uma escola de classe média (a mesma de David), depois de ter sido obrigado a sair da anterior por motivos obscuros. Assim que ele chega no colégio, surgem rumores sobre um suposto passado violento, e as pessoas naturalmente se afastam dele. Menos David, que sente forte empatia logo de cara, e Alicia, uma menina que se encanta por ele. Mas Leo tenta manter distância de todo mundo.

Quando David é completamente exposto em uma situação muito humilhante, Leo surge em sua defesa, batendo em dos meninos mais populares do colégio. Os dois (David e Leo) vão para a detenção, e assim acabam se conhecendo melhor.

Enquanto isso, David se envolve cada vez mais com Alicia. Eles se apaixonam, mas isso deixa Leo vulnerável. No meio do livro, como a Taís contou no vlog Leitura das Minas , o segredo dele vem à tona, e a história ganha um novo ar. Por causa desse segredo, Leo e David se aproximam e vivem experiências que transformam a vida dos dois.

É uma história sensível e melancólica, em vários momentos ficamos com o coração apertado, envolvidas com o drama deles, mas tudo é narrado com um tom bem leve e descontraído, e volta e meia me peguei rindo também. A autora consegue retratar os sonhos, as angústias e as paixões adolescentes de um jeito delicado e muito, muito bonito, seja através da relação de David com o próprio corpo, dos seus sonhos com o dia em que ele poderá se tornar quem realmente é, seja através da insegurança de Leo de lidar consigo mesmo e de encarar o mundo. Este é o grande ponte forte do livro: retratar questões cotidianas e fundamentais que quase nunca estão sendo mostradas.

Mais uma vez fazendo referência ao lindo vídeo da Taís, esse livro é sobre poder ser você mesmo, se sentir confortável e feliz com isso no ambiente ao seu redor. Por isso, todo mundo que gosta de YA deveria ler. É importante quebrar um pouco com esse ciclo convencional que dominou a produção literária para adolescentes por muito tempo. É importante ter diversidade nos livros jovens, nos filmes e em todo o entretenimento que consumimos. É fundamental se sentir representada, compreendida e abraçada, especialmente diante das inseguranças da adolescência. Isso cria o diálogo e abre caminhos para que as pessoas se entendam desde novinhas. E, além disso, é importante ter representatividade nos livros para que todos possam ler sobre o outro, porque assim dialogamos, entendemos e criamos empatia.

Marcela de Oliveira
  • Revisora
  • Colaboradora de Literatura

Tenho 25 anos, sou carioca e formada em Produção Editorial. Trabalho com livros e essa é minha grande paixão na vida. Amo literatura, séries de TV, filmes, quadrinhos... Na verdade, amo todos os tipos de histórias. Também adoro cachorros, cabelos, cantoras pops e dar risadas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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