5 de dezembro de 2015 | Literatura | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Leitura das minas: Persepolis, de Marjane Satrapi

 

Os livros sugeridos para o Leitura das minas esse mês eram graphic novels autobiográficas. Entre tantas opções interessantes, é difícil não dar destaque para Persépolis, obra de Marjane Satrapi, publicada em 2000, que se tornou um clássico instantâneo.

Se você gosta de histórias em quadrinhos, já deve conhecer essa obra, trazida ao Brasil pela Companhia das letras em uma edição completa. Se não costuma ler HQs, mas gosta de política e de mulheres interessantes, este texto é para você. Porque se Persépolis é um clássico completo, também não tem nada de tradicional e é uma porta de entrada perfeita para quem quer se aventurar na arte sequencial, sem desapegar totalmente da literatura.

Para começar, Persépolis é um romance de formação em quadrinhos. Com um traço autêntico e uma narrativa incrível, Marjane conta a história do seu crescimento e amadurecimento, com um pano de fundo político pouco retratado para os jovens leitores mundo afora e que está cada vez mais em debate hoje em dia.

Persépolis é uma obra de muitas camadas e diversas leituras. Você pode se apaixonar pelo conteúdo político: Marjane relata a sua trajetória e a de sua família, em meio à revolução islâmica no Irã que começou no final da década de 1970. Pelo olhar de uma criança esperta, que cresceu lendo filosofia e imaginando diálogos entre Deus e Karl Marx, acompanhamos o fundamentalismo dominar a escola, os costumes e a vida de Marjane. Ela testemunhou o movimento de resistência (muitas vezes dentro da própria família), sofreu a perda de pessoas queridas para a luta e as consequências da guerra.

Mas há algo ali por baixo que vai além da história política – embora, é claro, seja indissociável. Lendo Persépolis acompanhamos a saga inspiradora de uma menina imperfeita, inteligente e de muitos anseios, crescendo em meio à pressão de um estado controlador e fundamentalista, e uma família de militantes de classe média (quem nunca, não é mesmo?). O fato de ser obrigada a usar o véu na escola, ainda criança, é só o ponto de partida para todas as transformações – e imposições – que Marjane teria pela frente. Essas mudanças ocorrem de forma sutil – algumas nem tanto – até o ponto em que ela é obrigada a largar sua casa e sua família para construir a própria vida em outro país. Na adolescência na Europa, portanto, ela poderá ir para a escola, sair com as amigas, namorar e correr atrás do sonho de estudar arte, encontrando é claro algumas (muitas) decepções e desilusões nesse caminho (quem nunca, novamente).

Essa foi a primeira obra publicada de Marjane, mas desde então ela vem mostrando seu talento para contar histórias. Embora se trate de uma narrativa autobiográfica (marca registrada da autora), Marjane-personagem passeia entre memórias reais, memórias fantasiadas, dramas familiares, brincadeiras infantis, recordações da juventude de um jeito muito envolvente. O leitor ri, o leitor chora, o leitor se desespera. O texto tem uma harmonia com a ilustração bem autêntica e poética; ambos criam uma atmosfera pop, lúdica e fantástica para uma história real, cruel, dolorosa. E isso tudo vem se concretizando como traço do talento da Marjane-autora.

Como podemos reparar em todas as obras (Frango com ameixas, Bordados), a família é algo que ela gosta de esmiuçar, seja para questionar, seja para homenagear, e a cada trabalho, Marjane vai se aperfeiçoando na arte de misturar memórias, ficção e crítica social e política. (Ou seja, só melhora.) Em Bordados, por exemplo, ela tem uma análise mais feminista da sociedade a partir das histórias das mulheres da família.

Aliás, aí está uma das características mais interessantes dela: a habilidade de criticar e questionar a si mesma e a própria família, jamais assumindo um tom moralista em relação a sua própria história. Voltando a Persépolis, na obra, Marjane aponta falhas no discurso e contradições nas atitudes dos pais, e se coloca na berlinda também quando retrata suas próprias atitudes que não são muito dignas de orgulho. Isso sem dúvida deixa o texto mais interessante, abrindo mão do tom heroico, e dos personagens chapados preto no branco, do bom e do mau, que uma narrativa clássica política tende a construir.

Vale lembrar que Marjane dirigiu a adaptação de Persépolis para o cinema, que, é claro, é bem fiel e complementar à graphic novel. Na verdade, é como assistir às imagens se moverem na página. Ambos são imperdíveis. Eu espero que você leia, se emocione, fique triste e se identifique com Marjane.

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Marcela de Oliveira
  • Revisora
  • Colaboradora de Literatura

Tenho 25 anos, sou carioca e formada em Produção Editorial. Trabalho com livros e essa é minha grande paixão na vida. Amo literatura, séries de TV, filmes, quadrinhos... Na verdade, amo todos os tipos de histórias. Também adoro cachorros, cabelos, cantoras pops e dar risadas.

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