11 de dezembro de 2015 | Colunas, Esportes | Texto: | Ilustração: Luiza S. Vilela
Leituras pra te dar um gás

Dezembro é aquela coisa: quando você viu, já chegou, e daí de repente já acabou e você mal sabe como sobreviveu. Eu amo essa loucura de fim de ano, mas nem sempre estamos no pique, e às vezes bate aquele desânimo. Às vezes bate aquele desânimo mesmo não sendo dezembro, né? Pois é. Mas não criemos pânico, porque o esporte está aqui para nos salvar do marasmo e do cansaço.

Mas Luiza, eu já estou estafada e desmotivada! Como que o exercício, que em tese só vai me cansar ainda mais, pode me ajudar? É que é preciso acreditar na tal da endorfina. Na dose certa, ela pode, sim, salvar sua vida. Recentemente eu fui obrigada a dar uma desacelerada geral na minha rotina, por conselho médico mesmo, porque estava muito ansiosa e não conseguia mais dar conta de todos os meus compromissos. Não demorou pra que eu começasse a me sentir totalmente desmotivada e sozinha. Quanto menos coisas eu fazia, menos coisas eu queria fazer. Daí eu adotei um cachorro (papo pra outro texto) e descobri, lendo um livro sobre adestramento, que para ensiná-lo a ficar sozinho em casa sem chorar eu teria que fazer um processo mais ou menos complicado: sair por cinco minutos e voltar; depois sair por dez minutos e voltar; depois 15… e assim sucessivamente. Pensei: está aí o meu exercício. Em vez de minutos, conto o tempo em voltas no quarteirão. Duas voltas, quatro voltas, seis voltas. Resultado: Kate (minha cadelinha) não chora mais quando eu saio, e eu já me sinto bem mais disposta.

Tudo isso me lembrou muito de um livro que pra mim é meca da literatura motivacional. Essa que não é autoajuda, mas que ajuda mesmo assim, sabe? Do que eu falo quando eu falo de corrida (Alfaguara, 2010) é um ensaio autobiográfico escrito pelo maravilhoso, premiadíssimo e cotadíssimo para um dia (quem sabe logo) ganhar o Nobel de literatura Haruki Murakami. Murakami começou a escrever tarde, já com vinte e tantos anos, e antes disso foi um belo boêmio, dono de um bar de jazz e tudo mais. Depois que a carreira de escritor começou a deslanchar, ele se viu obrigado a escrever com mais disciplina, e encontrou na corrida a metáfora perfeita para a persistência e calma necessárias para escrever um romance de mais de 600 páginas. O livro é extremamente inspirador, uma mistura de autobiografia com ensaio – o tipo de leitura que faz bem a qualquer um. Já devo ter dado de presente pra umas dez pessoas e todas me agradeceram depois. Mesmo que você ache a corrida o esporte mais chato do mundo (eu mesma não curto tanto), a relação do autor com as longas distâncias pode servir de inspiração pra que você persiga desejos muito diferentes do dele.

murakami

Daí que eu resolvi compilar aqui mais alguns títulos inspiradores relacionados ao esporte. Até porque, né: já é natal e você pode colocá-los na lista de desejos do amigo oculto.

Jackie do Brasil – Autobiografia de uma jogadora não autorizada (Jacqueline Silva, Ediouro, 2004)

jackie

Enquanto eu pesquisava para esta pauta me dei conta de que muitas das nossas leitoras talvez não saibam quem é a Jacqueline Silva. Eu mesma era uma criança quando ela se tornou a primeira mulher brasileira a conquistar uma medalha de ouro em Jogos Olímpicos, lá em 1996. Esperem muitas matérias sobre o assunto no ano que vem, já que o feito estará comemorando vinte anos durante as Olimpíadas no Rio. O que eu não lembrava, e aí acho que bem pouca gente sabe, é que Jacqueline quase não disputou os jogos de Atlanta. Jacqueline quase parou de jogar vôlei de praia. Tudo por causa de uma lesão no pé. Ela conta essa e muitas outras histórias com uma franqueza e bom humor incríveis – é interessante, inclusive, para entender os jogos de poder envolvidos nos bastidores de esportes com alguma visibilidade no país.

Cem dias entre o céu e o mar & Mar sem fim (Amyr Klink, Cia. Das Letras, 1995/2000)

Amyr.100dias

mar.sem.fim

Lembro de estar passeando numa bienal do livro, ainda pré adolescente, quando reparei no meu pai namorando a capa de um livro. Era Mar sem fim, do Amyr Klink, e eu perguntei sobre o que era. Ele disse que o autor tinha cruzado o Oceano Atlântico num barco a remo e escrito sobre a experiência, e que o novo livro, este que ele estava namorando, contava de uma nova viagem, agora de volta ao mundo pela Antártica. Fiquei super interessada e combinamos dele me dar o primeiro livro, Cem dias entre o céu e o mar, e depois me emprestar o novo, Mar sem fim. Passei um verão na cia de Klink, lendo na praia, mexendo nas conchas e pensando no meu pai, pensando que ele se parecia muito com o autor… na serenidade, no jeito de falar sozinho. Nós não passávamos os verões muito juntos, mas naquele ano ele esteve mais próximo, e eu me senti mais adulta e mais madura por estar compartilhando uma leitura com ele. Os livros são de uma poesia surpreendente e inspiradores até não poder mais – verdadeiras aulas de como ficar só sem se sentir só.

Correr: o exercício, a cidade e o desafio da maratona (Drauzio Varella, Cia. Das Letras, 2015)

Drauzio

Quando me deparei com esse livro na livraria a primeira coisa que pensei foi: gente, que espertos, é a versão brasileira do livro do Murakami. E é mesmo. Mas é legal e bem feito, então tudo bem. Ainda não li, só dei uma folheada, mas sou tão apaixonada pelo trabalho do Drauzio Varella que recomendo mesmo assim. A edição é muito bem pensada e traz uns dados históricos bem interessantes, desde a suposta origem da maratona na Grécia antiga até a atualidade. A julgar pelo bom humor do dr. Dráuzio, acho que podemos esperar uma leitura leve e ao mesmo tempo instigante, permeada por dados médicos bacanas. Pra quem está querendo começar a correr deve ser um baita incentivo.

As mulheres e o esporte olímpico (Katia Rubio [org.], Casa do Psicólogo, 2011)

olimpico

Este eu também não li, mas está aqui por um motivo claro: faltam mulheres nesta lista, e não foi por falta de esforço meu em tentar lembrar/procurar. Temos tantas (TANTAS!) mulheres incríveis no esporte, aqui no Brasil mesmo e no mundo, e ainda assim só se encontram biografias de jogadores de futebol. Cadê a biografia da Marta, gente? Na verdade, ela até existe, mas foi escrita por um argentino e está impedida de ser lançada pelo empresário da jogadora, que entrou na justiça. E como assim ninguém traduziu ainda a autobiografia bombada da Serena Williams? Alôu, editoras! Enfim, são poucas as histórias esportivas de mulheres e contadas por mulheres, e daí este volume mais acadêmico me pareceu interessante pra quem curte mesmo o assunto. Saquem só os títulos maravilhosos dos artigos de alguns dos artigos: As possíveis relações entre os feminismos e as práticas esportivas; A cordialidade feminina no esporte brasileiro;  As mulheres e as práticas corporais em clubes da cidade de São Paulo do início do século XX; As mulheres e o esporte olímpico brasileiro entre as décadas de 1930 a 1960 – as políticas públicas do esporte e da educação física; “Crimes, espaçonaves, guerrilhas”: uma história das brasileiras olímpicas entre as décadas de 60 e 80 do século XX; 8. A participação da mulher brasileira no esporte a partir dos anos 1980: o que de fato mudou?

Legal, né? Então assim: escolham um livro inspirador, deitem com ele na rede, ou na canga, por algumas horinhas e depois bóra suar a camisa que a mente e o corpo agradecem muito.

Luiza S. Vilela
  • Coordenadora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Esportes
  • Revisora

Luiza S. Vilela tem 28 anos e mora no Rio, mas antes disso nasceu em São Paulo, foi criada em Vitória e viveu uma história de amor com Leeds, na Inglaterra, e outra com Providence, no Estados Unidos. Fez graduação em Letras na PUC-Rio e mestrado em Literatura e Contemporaneidade na mesma instituição. É escritora, tradutora, produtora editorial e acredita no poder da literatura acima de todas as coisas.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos