17 de fevereiro de 2019 | Ano 5, Edição #46 | Texto: | Ilustração: Raphaela Corsi
LEMBRAR PARA NÃO ESQUECER: PRESERVAÇÃO DO PASSADO, CUIDADO COM O PRESENTE

Em setembro de 2018, o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro comoveu grande parte da população brasileira, devido ao arcabouço de cultura e conhecimento que se perdia com a tragédia. Infelizmente, o episódio se integra a uma série de eventos já quase cotidianos no cenário nacional: também o Museu da Língua Portuguesa, a Cinemateca Brasileira, o Memorial da América Latina, o Instituto Butantan e o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro tiveram seus prédios e acervos comprometidos pelo fogo. Isoladamente, a destruição de um único desses espaços já representaria um grande prejuízo para o país, mas, em conjunto, os múltiplos casos denunciam uma situação de descaso com os espaços de preservação do passado.

Os itens que compõem um museu, sejam eles esculturas, pinturas, livros, catálogos ou a própria obra arquitetônica que abriga tudo isso, não são meros objetos, restritos a uma função utilitarista ou decorativa. Eles nos permitem compreender que temos uma história e que o presente não se desvincula do passado. Assim, por meio dos museus e institutos culturais, é possível olhar para trás e para frente: para que vejamos os erros que não podem ser repetidos; para que conheçamos as condições históricas que criaram o presente, de modo a entendê-lo e a modificá-lo; para que enxerguemos as possibilidades de construção de um futuro que apresente condições de existência melhores para a humanidade.

“A estudante”, Anita Malfatti, 1915-1919. Disponível em: https://masp.org.br/acervo/obra/a-estudante. Acesso: 20 jan. 2019.

Quando, por exemplo, uma pessoa vai ao MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateubriand) e contempla uma pintura modernista, como “A estudante”, de Anita Malfatti, logo após admirar uma obra renascentista, como “Ressurreição de Cristo”, de Rafael, ela é convidada a refletir sobre os múltiplos pontos de vista que compõem a realidade, sobre como uma estudante pode ser tão digna de atenção e registro quanto a mais clássica das cenas cristãs, sobre o fato de que o clássico e o moderno, o simétrico e o distorcido podem ocupar o mesmo espaço, em graus equivalentes de valor e importância. Essa abertura para a pluralidade, quando potencializada, evitaria, quem sabe, a continuidade dos gestos de violência decorrentes do pensamento maniqueísta segundo o qual algumas coisas – ideias, práticas, obras, pessoas – são boas e outras, sendo más, mereceriam ser destruídas ou punidas. Foi essa espécie de pensamento que levou a alguns dos piores episódios da humanidade, como a Inquisição, na Idade Média; o nazismo, na Europa do século XX; a ditadura militar, no Brasil dos anos 1960.

“Ressurreição de Cristo”, Rafael, 1499-1502. Disponível em: https://masp.org.br/acervo/obra/ressurreicao-de-cristo. Acesso: 20 jan. 2019.

Cuidar do passado é cuidar da nossa própria história. Parte da responsabilidade, claro, é dos governantes e das instituições oficiais, que devem contribuir materialmente – com dinheiro, manutenção, aquisição, contratação de profissionais – para que os incêndios não voltem a acontecer, para que os que já ocorreram sejam tanto quanto possível reparados, para que os espaços de conhecimento e cultura sejam divulgados e multiplicados. Mas é também nossa responsabilidade nos entendermos como protagonistas da história do Brasil e do mundo e, como tais, nos interessarmos por essa história, buscarmos conhecê-la e exigir que ela esteja disponível para nós e para as próximas gerações. Os museus devem seguir de pé, como monumentos de uma história viva, constantemente em construção, não como algo distante, mas como história de cada um de nós.

Leandra Postay
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Sociedade

Leandra Postay é capixaba nascida e criada no mar. Mora em SP e estuda literatura brasileira, pesquisando sobretudo patriarcalismo e violência. A única coisa que sempre quis e continua querendo é escrever. Aprende muito com os livros, mas aprende mais com a yoga e a cozinha. Acredita que um mundo melhor começa dentro de nós.

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