27 de abril de 2014 | Ano 1, Edição #1 | Texto: | Ilustração:
Lembre-se: a sua família é um acidente
Ilustração: Bia Quadros.

Ilustração: Bia Quadros.

Quando eu tinha uns 14 anos, estavam na moda aqueles e-mails em que você respondia a uma infinidade de perguntas sobre si mesmo e suas preferências com relação a praticamente tudo. Aí passava pra mais sei lá quantos amigos e eles respondiam também. É possível que isso exista até hoje, mas enfim, vamos ao que interessa: eu sempre fui muito amiga dos meus pais, e eles sempre foram maravilhosos e liberais na medida certa comigo. Nunca me disseram um não injustificado – na real diziam sempre muito mais sim do que não – e a vida toda eu me senti muito privilegiada por ter pais tão compreensivos. Ok, então qual é o meu ponto? Por que eu estou escrevendo este texto se não passei por esse tipo de problema? Vamos chegar lá. Mas pra isso, voltemos ao e-mail: recebi a tal corrente e a respondi da maneira que julgava mais descolada possível; afinal, esses e-mails serviam como uma espécie de portfólio nos estágios primordiais da internet, bem antes das redes sociais, e se você quisesse ser bem visto pela turminha, precisava caprichar nas respostas. Eis que uma das perguntas era: “Como é a sua relação com seus pais?”. A resposta verdadeira seria: “Praticamente perfeita!”. A resposta que eu dei foi: “Péssima, né? Mas a de quem não é?”, e procedi a copiar meus pais no email. Porque nós éramos amigos, oras. Eu simplesmente esqueci que tinha inventado essa mentirinha para parecer cool, e 40 minutos depois, na hora do lanche, fui devidamente colocada contra a parede e questionada sobre a possibilidade de visitar um psicólogo. Chorei muito. Choramos. Pedi muitas desculpas. Passou.

Moral da história: por mais incríveis e parecidos com você que sejam os seus pais, a vida vai continuar sendo uma perpétua e incansável busca pela sua “identidade”, assim com aspas porque identidade pode significar um milhão de coisas e, na minha opinião, não é um conceito fixo. É claro que a nossa família imediata, e principalmente os nossos pais, são fatores importantes na formação dos nossos gostos, preferências e caráter, mas, ao fim e ao cabo, somos todos responsáveis pelas pessoas que nos tornamos, sem desculpas. E é normal e absolutamente aceitável que na adolescência a nossa vontade seja a de sermos tão diferentes dos nossos pais quanto possível. Até eu, que não tinha motivo nenhum pra pensar assim, pensava assim. É uma fase da vida meio maluca, em que nos lançamos numa jornada em busca de nos firmarmos como indivíduos providos de desejos e vontades, ao mesmo tempo em que nos preocupamos exageradamente em pertencer a algum grupo e compartilhar com ele gostos e preferências (como eu fiz quando disse que não me dava com meus pais, só porque os meus amigos não se davam).

É bem louco, mas passa, e dá pra tomar algumas precauções para que passe com menos solavancos. A palavra de ordem aqui é diálogo. Seja você uma cópia fiel e orgulhosa dos seus pais, seja você a ovelha negra da famííííliaaaa – sem conversa, relação nenhuma vai pra frente. E eu sei que é mais fácil falar do que fazer, e que nem todos os pais estão abertos ao diálogo, mas é preciso tentar, e tentar de todas as maneiras disponíveis. Por exemplo: sempre que estou com dificuldades em contar alguma coisa pra minha mãe, ou pra quem quer que seja, tento escrever primeiro no papel (ou digitar). Às vezes só isso basta, e eu aí eu consigo verbalizar com mais calma. Mas se o problema for verbalizar, aproveite que já está escrito e envie a carta ou o email (acho bacana escrever de próprio punho se o assunto for sério, assim os seus pais vão perceber o quanto a questão é importante pra você). Não é falta de coragem se comunicar por escrito. Pior do que se comunicar por escrito é não se comunicar de forma alguma.

Outra dica importante é recorrer a outros membros da família, quem sabe primos mais velhos ou tios mais jovens. Essas pessoas provavelmente já passaram pelos mesmos problemas que você, e podem te ajudar a ler melhor a situação. Além disso, elas conhecem bem os seus pais, então podem até atuar como mediadores em uma conversa. E se você não se identifica com ninguém da sua família, também não é o fim do mundo. Os laços de sangue que você divide com eles não significam que vocês precisam compartilhar opiniões ou estar juntos o tempo todo. No fim das contas, somos amigos dos nossos familiares por acidente. Calhou de nascermos na família em que nascemos. Os amigos que você escolhe ao longo da vida geralmente têm muito mais a ver com você do que os seus primos, por exemplo. Eu amo os meus primos de paixão, e nós somos muito amigos até hoje, mas, se formos parar pra analisar friamente, somos de “turmas” completamente diferentes, e se nos conhecêssemos hoje provavelmente não nos tornaríamos amigos. Ou seja: não adianta sofrer de culpa porque suas visões de mundo são diferentes das da sua família. É perfeitamente normal. O que precisa haver, principalmente enquanto você ainda divide o mesmo teto com ela, é compreensão. É um exercício de tolerância muito bem vindo, inclusive, e muito necessário. Tentar entender alguém que tem crenças e ideais muito diferentes dos seus é algo que você vai precisar fazer a vida inteira, e a família é um excelente lugar pra começar, porque como existe amor e afeto, fica mais fácil debater sem brigar. Ou brigar e depois pedir desculpas.

Aqui entra outra palavra importante para esse tópico: aceitação. Aceitação, inclusive, do fato de que às vezes é mais difícil pros seus pais aceitarem alguma coisa sobre você do que vice-versa. Por um sem número de questões, mas principalmente porque eles foram criados numa época diferente, e por pessoas criadas numa época mais diferente ainda. Por exemplo: eu amo tatuagens. Amo desde pequenininha e sempre soube que teria várias. Passei a juventude esperando o sinal verde da minha mãe pra fazer a primeira, o que aconteceu no meu aniversário de 16 anos. Ela não curtia muito tatuagens, achava o clima no estúdio horrível, mas deixou porque sabia que eu gostava mesmo, e que ia fazer de um jeito ou de outro. Só que aí eu completei 18 anos e não parei mais. As tatuagens foram crescendo e assim também a preocupação da minha mãe, que ficava de birra comigo toda vez que eu aparecia com uma nova. Até o dia em que ela estourou e disse o que pensava: achava feio, e precisava admitir que tinha preconceito com pessoas “todas tatuadas”. Foi pesado de ouvir. Ela que é o meu ideal de pessoa incrível no mundo, ela que eu amo tanto, ela que me admira pra caramba – ela acha horrível uma coisa que eu acho linda. Paciência, tivemos que nos aceitar assim.

Imagino que essa questão se complique muito no caso de filhos homossexuais cujos pais são homofóbicos, ou que sustentam aquele discurso do “tudo bem, tenho até amigos que são, mas na minha família nem pensar”. Eu não consigo nem imaginar a dor que deve ser passar por isso, e nesse caso confesso que fica bem mais difícil “aceitar” a opinião do outro, já que, pelo menos pra mim, ser homofóbico não é uma opção, e sim preconceito puro e simples. Nesses casos, se diálogo e compreensão não solucionarem o problema, acho que vale focar no que eu estava dizendo há pouco: os amigos são a família que a gente escolhe, e é perfeitamente possível formar uma família fora da sua original. O meu Natal com os meus amigos, ritual que começou quase que acidentalmente há alguns anos, é hoje mais importante pra mim do que o que eu passo com a família no dia 25. Tem a ver com o fato de você ter escolhido aquelas pessoas e se esforçado pra cultivar aqueles laços. Não há sensação de independência maior do que a de perceber que cheguei no Rio sem conhecer ninguém e hoje tenho uma família de amigos.

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Um adendo: estou lendo A culpa é das estrelas finalmente, e, por coincidência, ontem cheguei num trecho em que os personagens centrais estão no Museu da Anne Frank, em Amsterdã, e há um vídeo do Otto Frank, único sobrevivente da família, falando sobre a experiência de ter lido os diários da filha depois de sair do campo de concentração. (Um parêntese: O diário de Anne Frank é um livro maravilhoso pra pensar essa relação entre a formação da identidade na juventude e a família – imagine passar meses compartilhando um sótão com todos os seus entes mais próximos). Ok? Ok. Mas voltando: Otto Frank diz que lendo os diários da filha ele percebeu que não fazia ideia da profundidade dos pensamentos de Anne, mesmo que eles tivessem uma relação ótima. E que se nem assim, estando em excelentes termos com a filha, ele sabia do turbilhão de emoções que circulava na cabeça dela, então provavelmente nenhum pai conhece realmente os seus filhos. É uma afirmação muito forte, ainda mais pra mim, que sou grande amiga e confidente da minha mãe. Mas talvez seja verdade. A versão de mim com a qual a minha mãe convive é real e autêntica, mas não é exatamente a mesma que convive com os meus amigos. E há coisas sobre mim que nem os meus amigos sabem. Existe um limite do quanto estamos dispostos a mostrar das nossas loucuras de dos nossos sonhos, e não há problema nenhum nisso.

Luiza S. Vilela
  • Coordenadora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Esportes
  • Revisora

Luiza S. Vilela tem 28 anos e mora no Rio, mas antes disso nasceu em São Paulo, foi criada em Vitória e viveu uma história de amor com Leeds, na Inglaterra, e outra com Providence, no Estados Unidos. Fez graduação em Letras na PUC-Rio e mestrado em Literatura e Contemporaneidade na mesma instituição. É escritora, tradutora, produtora editorial e acredita no poder da literatura acima de todas as coisas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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