23 de outubro de 2014 | Artes, Literatura | Texto: | Ilustração:
Lendo mulheres em 2014
Ilustração por Jordana Andrade
Ilustração por Jordana Andrade

Ilustração por Jordana Andrade

Você já parou para pensar em quantos livros leu na sua vida? E quantos desses livros foram escritos por mulheres? E por que, em geral, a maioria dos clássicos da literatura foram escritos por homens? Até o início desse ano, essas questões não eram muito importantes para mim. É claro que aprendi com o feminismo sobre a desigualdade histórica que impediu por muito tempo que as mulheres pudessem se exprimir do mesmo modo que os homens. Mas ainda não pensava sobre o que eu posso fazer para ressignificar essa história. Foi quando descobri um projeto chamado “Leia mulheres em 2014″ e me vi diante dessas perguntas. A proposta do projeto é simples: um ano inteiro dedicado à literatura produzida por mulheres. É uma ideia no mínimo justa. Se nosso gênero foi silenciado por séculos, nada mais digno do que ler exclusivamente mulheres por pelo menos um ano.

Quando comecei a pensar nessas questões, me dei conta de que, mesmo sendo feminista, eu li um número muito pequeno de livros escritos por autoras e, o pior, dá pra contar nos dedos os que foram escritos por mulheres negras. Um livro que me ajudou a entender melhor a gravidade dessas questões foi “Um Teto todo seu”, ensaio escrito por Virginia Woolf sobre a literatura feminina. O que esse ensaio diz é que, para escrever, uma mulher precisa sobretudo de uma renda e de um teto próprio, isto é, precisa de condições materiais que lhe deem autonomia. Quanto mais pensava sobre o assunto, mais eu compreendia que a arte não é só uma questão de genialidade, é algo feito por pessoas que estão nesse mundo e, portanto, assim como eu e você, contam com necessidades básicas para viver e criar. Um trecho que destaquei no livro foi esse:

 

“Quais eram as condições em que as mulheres viviam?, perguntei a mim mesma; a ficção, quer dizer, o trabalho imaginativo, não cai como uma pedra no chão, como na ciência; ficção é como uma teia de aranha, presa por muito pouco, mas ainda assim presa à vida pelos quatro cantos. Muitas vezes estar preso é quase imperceptível . As peças de Shakespeare, por exemplo, aparecem completamente suspensas quase que por si sós. Mas quando a teia é puxada meio de lado, engachada pela borda, rasgada na metade, é que se lembra que elas não são tecidas em pleno ar por criaturas incorpóreas; essas teias são o resultado do sofrimento de seres humanos e estão inteiramente presas a coisas materiais, como saúde, dinheiro e a casa onde se mora”.

 

Embora eu não possa sozinha exterminar a desigualdade do mundo, posso, sim, fazer com que pelo menos a minha estante de livros seja mais diversificada. Porque, quando lemos um livro escrito por alguém que pertence a um grupo que está em desvantagem historicamente, estamos de algum modo contribuindo para que essa minoria ganhe voz e ocupe os mesmos espaços que os grupos predominantes que reproduzem até hoje lógicas opressoras.

O que eu não sabia, quando comecei esse projeto, era que ler mulheres é um processo duplo de empoderamento. Porque, quando leio mulheres, contribuo para que mais autoras ganhem visibilidade, ao mesmo tempo em que essas obras também me fortalecem. Ler livros escritos por mulheres também  me ajuda. Todos os bons livros (e alguns ruins) nos permitem viver outras realidades, expandem nossas experiências e mostram que o mundo tem diversas possibilidades. Os ótimos livros escritos por mulheres que li durante ao longo desse ano apontam para tudo que eu posso ser, me incentivam a ir além do que esperam de mim, mas muitas vezes também falam sobre uma realidade bem próxima, porque compartilhamos a mesma condição de um gênero que até hoje é oprimido. Assim, conhecer mais mulheres, me aventurar em suas narrativas e variadas vivências é como construir uma pista de voo. Cada livro é a construção de uma comunidade, o reconhecimento de novas amigas que me dizem que não estou sozinha, faço parte de algo e esse chão firme me impulsiona para voar.

 

Mais sobre o assunto:

 

Tumblr onde eu conto sobre as autoras que estou lendo – http://lendomulheres.tumblr.com/

Editora Alpaca – http://alpacaeditora.tumblr.com/

 

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

  • tanira

    adorei o post! tenho me dedicado a ler muito mais autoras mulheres também, pra compensar a vida toda lendo homens. gosto de quase todas da ilustração <3

  • Emanuelle Najjar

    Bastante interessante essa ideia. E tenho uma história pra contar sobre algo parecido:

    Há algum tempo alguém me disse que eu era a pessoa que mais conhecia livros escritos por mulheres com quem ele tinha contato. Fiquei encafifada: meu engajamento é relativamente recente. E eu dei uma atenção a minha estante e vi que era verdade: que a maioria dos livros que tenho são de autoria feminina ou pelo menos tem uma personagem feminina forte que justificasse minha atenção. E olhando com mais atenção, vejo como o meu gosto literário me deixou mais próxima de um engajamento: Jane Austen e as irmãs Bronte exalavam feminismo em suas obras. Não o feminismo que conhecemos hoje, mas talvez uma das épocas onde era mais complicado de fazê-lo dado o contexto em que viviam e ainda me surpreendo a cada releitura com coisas que vão além da excelência das obras, que são mais que conhecidas.

    Gostaria que mais pessoas pudessem ter experiências semelhantes. O livro da Virgínia Woolf está na minha lista de desejados e devo investir nele em breve.

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