21 de maio de 2016 | Artes, Colunas, Literatura | Texto: | Ilustração:
Lendo “O papel de parede amarelo”, um clássico da literatura feminista

 

É difícil falar de um livro tão simbólico, que evoca tantos sentimentos e experiências (pessoais ou de toda uma história de luta). Me surpreendi ao terminar de ler e descobrir que alguns consideram um livro de terror, porque em hora nenhuma o encarei dessa forma. Acho que, no fim das contas, a leitura deste clássico feminista será, para nós, mulheres, muito mais pessoal e influenciada pela bagagem emocional de cada uma do que pelo seu inestimável valor literário e histórico.

O papel de parede amarelo conta a história de uma mulher que sofre de uma doença indefinida e se muda – contra sua vontade – com o marido (que é também seu médico) para uma casa de campo com o objetivo de iniciar seu  tratamento. Ao chegar lá, ela é acomodada num quarto que também não lhe agrada e que já havia sido de uma criança, então ele tem um papel de parede amarelo que chama a atenção. O tratamento para a doença consiste em deixar a mulher fechada em casa, sem fazer absolutamente nenhum esforço, sobretudo nenhuma atividade criativa. O marido não a deixa sair e sempre tenta convencê-la de que todos aqueles esforços são para o bem dela, que está muito debilitada, mesmo que ela diga que se sente melhor. Em segredo, a mulher desenvolve o hábito de escrever um diário, pois é a única forma que encontra de reagir ao confinamento, e cada vez mais fica obcecada com o papel de parede. Ele a incomoda, mas também lhe desperta certo fascínio até que começa a tomar conta de sua cabeça, o cheiro domina o ambiente e até a tinta fica impregnada em suas roupas. E a mulher, por sua vez, se mantém atenta a cada detalhe, aos padrões da estampa, determinada a decifrar tudo o que se esconde por trás do papel.

Como falei, mal compreendi quando li algumas comparações à narrativa de Edgar Allan Poe. Pensando bem, é verdade que há semelhanças. A forma como a mulher observa o papel de parede e descobre outra mulher presa nele, a forma como ela sempre o examina à noite (para que ninguém perceba) e a perseguição do marido e da cunhada de fato criam uma atmosfera quase gótica. O confinamento na casa velha e afastada, a solidão e as alucinações criam uma melancolia sombria e assustadora. Mas por, além de tudo, ser um relato em primeira pessoa, reconheci o drama da personagem e me envolvi tanto com a história que entendi as alucinações e os pensamentos obsessivos como a expressão real do sofrimento e do estado psicológico da mulher, e não só como alegorias. Ainda que ela passe muito tempo descrevendo todos os aspectos do papel de parede (a textura, o cheiro e a aparência), este permanece indefinido para os leitores. E conforme a confusão mental se agrava, mais ela foca numa tentativa angustiante de decifrar e compreender o papel. Para mim, ficou bem claro que essa foi a maneira que encontrou de estar no controle da situação desesperadora e dos pensamentos que a sufocavam. O marido e a cunhada se recusavam a dialogar com ela e sempre a colocavam no lugar de uma criança, indefesa e inútil.

Por um lado, é bem claro que a autora retrata a condição precária das mulheres que sofriam – e sofrem – de transtornos psicológicos: são desvalorizadas, incompreendidas e tratadas como incapazes. O marido se utilizar do estado mental da esposa para dominá-la física e mentalmente diz muito sobre como no geral se lida com problemas psicológicos nas mulheres. Não é a toa que o fator emocional é uma das armas mais potentes utilizada contra nós até hoje.

Essa interpretação está diretamente associada à história de Charlotte Perkins Gilman, autora do livro. Como conta o posfácio da edição recém-lançada da Editora José Olympio, com tradução de Diogo Henriques e apresentação inédita de Márcia Tiburi, Gilman tem uma vasta obra sobre mulheres; produzia tanto literatura quanto ensaios de não ficção que se tornaram referências acadêmicas. Era uma das feministas de maior destaque na sua época, no final do século XIX, mas não conseguiu se adaptar à vida de esposa. O casamento a deixou deprimida, e seu tratamento, assim como o de sua personagem, foi se isolar de suas atividades criativas e se dedicar à casa. Por fim, ela se separou e aceitou que o marido se casasse com a melhor amiga dela (ambos os fatos foram usados contra ela). O papel de parede amarelo, sua obra mais notável, foi escrito nessa época.

A história de Gilman, e a de sua personagem, trazem muitas discussões que continuam pertinentes. Existem muitos confinamentos impostos a nós, mulheres. O casamento talvez seja um dos mais fortes. É preciso se encaixar no lugar de esposa, ser bonita e ter conduta para conquistar a aprovação masculina – estes continuam sendo alguns dos maiores motivos de angústia, frustração e cobrança. Caso você não se encaixe nesse perfil, surgem os problemas: seu comportamento é julgado e daí é um passo para que sua sanidade seja questionada. E depois, claro, não há volta. As mulheres estão sempre no lugar do desequilíbrio e da histeria, que obviamente não têm a mesma conotação para os homens. Seja na arte, na cultura pop ou na vida, os homens que apresentam uma dose de desequilíbrio são venerados.

Mas é pouco classificar essa obra como um conto de terror, um conto autobiográfico sobre a depressão ou um clássico da literatura feminista. Além de tudo isso, O papel de parede amarelo fala sobre a violência do confinamento a que todas somos submetidas em algum momento da vida. Li que este livro ficou esquecido por muitos anos, até ser redescoberto com o ressurgimento do movimento feminista na década de 1970. Agora, em 2016, ele está sendo lançado no Brasil e não consigo deixar de sentir um quentinho no peito, pois também é um momento em que começamos todas as ler e a falar sobre isso, a trocar experiências. É um momento em que pego a mim mesma e a tantas amigas se libertando ou lutando para se libertar de nossos confinamentos: relações abusivas, empregos ruins, padrão estético, preconceito ou pela dificuldade imposta pelos outros para lidarmos com nossa própria condição psicológica. Ainda que o livro seja uma história triste, de muito sofrimento e com um inevitável fim trágico, é também uma história de luta, resistência, e me peguei arrepiada comemorando o final – o preço pode ser alto, mas a liberdade é uma vitória.

Marcela de Oliveira
  • Revisora
  • Colaboradora de Literatura

Tenho 25 anos, sou carioca e formada em Produção Editorial. Trabalho com livros e essa é minha grande paixão na vida. Amo literatura, séries de TV, filmes, quadrinhos... Na verdade, amo todos os tipos de histórias. Também adoro cachorros, cabelos, cantoras pops e dar risadas.

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