15 de janeiro de 2015 | Artes, Literatura | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
#LerMulheres: Chimamanda Adichie e o lado único de uma história

 A escritora Chimamanda Ngozi Adichie não é desconhecida aqui na Capitolina. Já indicamos o trabalho dela algumas vezes. Mas a inspiração causada pelo trabalho da autora ainda rende mais um artigo.

 Li o livro Americanah depois do sucesso de outra TED Talk da autora nigeriana sobre feminismo (indicado aqui na Capitolina), que foi sampleado em uma música da Beyoncé. Americanah é maravilhoso. Como a Taís escreve no texto Lendo Mulheres em 2014, uma das coisas mais legais sobre ler histórias contadas por outras mulheres é a identificação que ocorre mesmo quando a história se passa a quilômetros de distância, em outro continente ou com mulheres que vivem histórias diferentes das suas, mesmo enquanto vizinhas.

 Americanah é a trajetória da nigeriana Ifemelu, que depois de 13 anos nos Estados Unidos, resolve voltar para sua cidade natal, Lagos, para recomeçar a vida. Nesse recomeço, ela reencontra pessoas do passado, como Obinze, seu grande amor na adolescência. Mas isso é o romance da história, que é, claro, envolvente e nos deixa torcendo pelos personagens. Mas o que fascina na escrita de Adichie é a sutileza e naturalidade com a qual ela faz comentários verdadeiros e às vezes bem-humorados sobre as diferenças culturais entre a Nigéria e os Estados Unidos, que fazem parte da construção da identidade de Ifemelu.

 Foi depois de ler Americanah que assisti a esse vídeo da Chimamanda Adichie sobre os perigos de uma história única. Na palestra (que tem legenda em português), Adichie fala sobre sua experiência com literatura enquanto criança, quando tinha acesso apenas a livros americanos ou britânicos. Quando ela começou a escrever, suas histórias tinham elementos bizarros influenciados por essa leitura: personagens que tomavam cerveja de gengibre (que nem existe na Nigéria) e brincavam na neve, mesmo que na Nigéria, como na maioria dos lugares no Brasil, faça calor o tempo inteiro. Quando ela se mudou para os Estados Unidos e lidou com a opinião limitada de alguns americanos sobre a Nigéria, observou que um dos motivos da ignorância deles sobre seu país de origem muitas vezes resultava da falta de informação. Assim, Adichie entendeu a importância de contar as várias histórias de um lugar:

 “Todas as histórias fazem-me quem eu sou. Mas insistir somente nessas histórias negativas é superficializar minha experiência e negligenciar as muitas outras histórias que me formaram. A única história cria estereótipos. E o problema com esteriótipos não é que eles são falsos, mas é que são incompletos.”

 Depois de ler Americanah, aprendi sobre perspectivas de um mundo que conheço com alguém de um lugar completamente desconhecido. Aprendi sobre o outro lado de uma história que, até então, era única. Este ano, o desafio foi além de ler livros escritos por mulheres: para 2015, quero ler livros que contem diferentes versões de histórias já contadas. Livros escritos por mulheres de nações distantes e pouco exploradas até mesmo nos livros que leio. Por enquanto, tenho algumas autoras em vista: Noviolet Bulwayo, do Zimbábue,  Edwidge Danticat, do Haiti (infelizmente, os livros dela ainda não foram traduzidos para o português) e Kiran Desai, da Índia.

 Adoraria saber de sugestões de vocês – inclusive de livros por autoras brasileiras. Caso alguém queira explorar diferentes lados de uma história, pode me adicionar no Goodreads, aqui.

 

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Rebecca Raia
  • Coordenadora de Artes
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora Editorial

Rebecca Raia é uma das co-fundadoras da Revista Capitolina. Seu emprego dos sonhos seria viajar o mundo visitando todos museus possíveis e escrevendo a respeito. Ela gosta de séries de TV feita para adolescentes e de aconselhar desconhecidos sobre questões afetivas.

  • http://ovelhanegradahistoria.blogspot.com.br/ ceciliaschubsky

    Rebecca, tb sou fã da autora e recomendo o Hibisco Roxo de pegar e não largar.

    • http://metrophones.tumblr.com/ Rebecca Raia

      Oi Cecilia! Obrigada pela dica, já tô com o livro no meu kindle… quando eu terminar, te dou um toque 😉

  • Pingback: Conheça seu próximo livro: Americanah — Capitolina()

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