17 de janeiro de 2016 | Ano 2, Edição #22 | Texto: | Ilustração: Beatriz H. M. Leite
Lidando com crianças transgênero

[Ilustração em homenagem a Kayla Lucas França, transfeminista falecida no dia 3 de fevereiro de 2016.]

Às vezes conhecemos crianças que, seja por insistir em se referir a si mesma por pronomes do gênero oposto, seja por gostar de usar roupas do gênero oposto, suspeitamos que seja transgênero. Como identificar se um irmão, uma prima, um filho, ou então a filha de uma amiga dos nossos pais é transgênero? E então, como lidar com essa criança? É muito comum ouvir de pessoas transexuais como nossa infância foi difícil e abusiva, e como muitos de nós teríamos sido crianças e adolescentes muito mais felizes se a possibilidade de uma transição tivesse nos sido apresentada cedo na vida.

Sinais de transgeneridade na infância

Primeiro, é importante lembrar que performar estereótipos do gênero oposto não significa que alguém seja transgênero. Não é difícil encontrar no nosso dia a dia homens vistos como afeminados ou mulheres vistas como masculinas, e isso nem sempre tem a ver com identidade de gênero ou sexualidade. Acho que o mais importante é dar liberdade para as nossas crianças: deixar que nossos meninos brinquem com bonecas e nossas meninas cortem o cabelo curto, caso desejem. Isso é essencial para a saúde mental da criança, seja se tratando de crianças transgênero ou não. A seguir consta uma lista de possíveis indicativos de transgeneridade em crianças, fazendo eventualmente um comparativo à minha vivência pessoa. Tenha em mente que nem todas as crianças trans apresentam esses comportamentos e que nem todas as crianças que apresentam esses comportamentos são trans.

– Note perguntas frequentes sobre gênero. Comentários como “será que sou mesmo um/a menino/a?” ou “Quando Deus me fez, ele me fez um/a menino/a por engano” podem ser indicativos de transgeneridade;

– Um indicativo que beira o óbvio é a vontade recorrente de usar roupas e outros adereços tipicamente atribuídos ao gênero oposto. Quando eu era criança, gostava muito de me fantasiar, e apesar de frequentemente me fantasiar de Batman ou de Tarzan, minhas fantasias favoritas eram a Princesa Anastácia e Xena, a Princesa Guerreira;

– A vontade de um “menino” de se parecer com mulheres próximas e não com homens próximos, e vice-versa para “meninas”, pode indicar transgeneridade. Eu chorava pra caramba toda vez que cortavam meu cabelo, porque queria “ter um cabelo longo e bonito como o da mamãe”, eu ouvia as músicas que minha irmã ouvia e queria ser acadêmica como minha mãe, em vez de jogar futebol ou cozinhar bem como meu pai;

– Crianças transgênero costumam ter mais afinidade com as crianças do gênero que elas se identificam. Lembro de ter apenas amigas meninas quando criança e de ter medo ou nojo dos meninos da minha idade;

– Nojo ou insatisfação com o próprio genital ou com o próprio corpo de maneira geral, como por exemplo ter vergonha de mostrar o corpo em público (eu, por exemplo, jamais tirava a camisa com alguém olhando) e não gostar de se olhar no espelho pelado, pode indicar disforia de gênero. Esses sintomas costumam ficar mais fortes com a puberdade, época em que muitas pessoas trans preferem roupas unissex e que cobrem o corpo, como casaco, capuz, camiseta de manga comprida e calça;

– Crianças transgênero podem ser crianças tristes ou antissociais. Quadros de depressão ou ansiedade na infância não são comuns, mas pra crianças trans são. Devido à represália social constante ao seu comportamento “diferente”, muitas têm receio de brincar com outras crianças, ou podem ter a sensação que elas são uma vergonha para seus pais. Ao ganharem a liberdade de usar as roupas e o cabelo adequado a seu gênero verdadeiro, esses sintomas desaparecem.

Em caso de dúvida

– Mostre à criança vídeos sobre crianças transgênero que passaram pela transição (é fácil de achar na internet). Observe se a criança se identifica, mostra vontade de passar pelo mesmo, etc;

– Experimente presenteá-la com roupas, brinquedos ou acessórios associados ao gênero oposto e observe sua reação;

– Caso ache necessário, leve a criança a um psicólogo ou servidor social especializado;

– E o mais importante (e INDISPENSÁVEL antes de qualquer processo de transição): sempre pergunte à criança se ela gostaria de usar roupas do gênero oposto para ir à escola, mudar de nome, tomar bloqueadores hormonais que adiam a puberdade, etc. Forçar um processo de transição numa criança que não é transgênero pode ser uma atitude tão cruel quanto impedir que uma criança transgênero passe pela transição. Esse processo é sempre muito delicado e exige muita sensibilidade e cuidado por parte da família, e deve ser guiado sempre pela autonomia da criança em questão sobre o próprio corpo e a própria identidade.

O que fazer e quem procurar quando uma criança é transgênero?

– Dê a liberdade para a criança escolher novas roupas, um novo corte de cabelo, novos brinquedos, novos materiais escolares, ou uma nova decoração para seu quarto. Uma transição de gênero pode ser muito cara! Então, no caso de a família não ter dinheiro para tudo isso, não tem problema ir aos pouquinhos, da forma que conseguirem. O mais importante é mostrar para a criança que esse processo está sendo feito, e que a família se preocupa com seu bem-estar;

– É indispensável o acompanhamento com um psicólogo especializado, ou no mínimo de mente aberta. Fuja de patologismos ou discursos de “cura” e “reforço”;

– Entre em contato com um advogado ou com a defensoria pública para se informar quanto ao processo de retificação de nome e gênero;

– Talvez seja necessário mudar de escola. Não deixe que neguem à criança seus direitos ao tratamento pelo nome social e uso do banheiro adequado!

Aria Rita
  • Colaboradora de Música

Travesti e feminista. Tem 19 anos, é gaúcha, mas de coração é brasiliense. Cursa Licenciatura em Música pela UnB. Aquarianíssima. Gosta muito mais de gatos e de comida do que de homem. Apaixonada pela cor vermelha e por flores. Costumava ser uma mocinha mansa e simpática, mas os hormônios e o feminismo a transformaram num animal selvagem (sim, ela morde).

  • dorihn22

    Aria, existe uma idade mínima aqui no Brasil para que a criança possa iniciar todo o processo de transição com uso de hormônios? Há amparo de alguma lei ou nós ainda estamos distantes disso?
    Mais uma dúvida. Existem casos de transição onde não houve uso de hormônios? E se existem, podemos considerar essa pessoa como trans?

    Obrigado!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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