22 de janeiro de 2015 | Ano 1, Edição #10 | Texto: | Ilustração:
A Liga dos SuperToscos

Em um episódio de Uma Família da Pesada (Family Guy) – peço perdão pela referência tão repleta de babaquice – a família Griffin sofre um acidente envolvendo lixo radioativo e todos os seus membros ganham superpoderes superlegais. Menos a pobre Meg, que acaba conseguindo apenas o dom de fazer crescer as unhas de forma muito rápida.

Já em Padrinhos Mágicos, há um dia em que o garoto Timmy Turner, achando os próprios pais muito sem graça, faz um pedido que os transforma em super-heróis, a Muito Mãe e o Dino Pai. Eles têm poderes incríveis, mas dois que se destacam são certamente a teia de catarro e a visão de carne (que, sim, é tipo uma visão de raio laser, mas que transforma o alvo em uma peça de carne, tipo um salame ou uma bisteca).

Quando criancinha, ganhei dos meus pais um livro chamado Super-Herói – Você ainda vai ser um. Escrito por Marcelo Duarte e ilustrado por Laerte, trata-se de um guia passo a passo de como, dã, se tornar um super-herói. A cada capítulo, uma nova faceta – a origem, os poderes, os vilões, os meios de transporte – das superidentidades é explicada e exemplificada. Foi, provavelmente, o meu livro preferido ao longo dos 6 anos e, depois de algumas leituras e rodas de discussão com meu irmão, passei a me considerar uma especialista relativamente competente em avaliar superseres.

Sempre achei que os super-heróis mais incríveis – no sentido de divertidos, não que eles sejam bons de verdade – fossem aqueles com os superpoderes mais ridículos. Quando falamos sobre supercoisas, a chance de cair na tosqueira é muito alta, afinal, é um processo de criação que não precisa de nenhum compromisso com a coerência ou o bom senso: até mesmo o Olimpo dos super-heróis tem seus absurdos – como se conformar com um dos maiores alvos da minha implicância, o carro invisível da Mulher Maravilha, ou com todas a inúmeras forçações de barra das histórias do Super-Homem, por exemplo? -, e apreciar a arte do super-heroísmo exige uma certa dose de desapego em relação a noções básicas de realismo

Este post é dedicado a listar aqueles personagens que vão além de pequenos surrealismos aqui e ali, rompendo a barreira do aceitável até mesmo em um mundo onde essa barreira é infinitamente flexível, e fazendo a visão de carne do Dino Pai ou o supercrescimento de unhas de Meg Griffin parecerem perfeitamente aceitáveis. Porém, como especialista apenas relativamente competente no tema, é claro que deixei de lado os milhares outros SuperToscos perdidos por aí, que seguem esperando que alguma outra garimpeira do ridículo os encontre. Portanto, qualquer adição à lista será não só muito bem vinda, como desejada, e nossa caixa de comentários está aí aberta para isso. Lembrem-se: a Liga dos SuperToscos sempre aceita novos membros, e tem como único critério a tosqueira absoluta.

 

Vibe

O período é o inicio da década de 1980, aquela época em que a música disco, as ombreiras e os Menudos estavam por todo lugar. Algum supermarketeiro então pensou: por que não juntamos tudo isso em um super-herói? Vai ser incrível!

Só que não foi. O resultado foi o Vibe, um rapaz latino, ex-líder de gangue (ah, os estereótipos!) , que usa o poder do som para acabar com seus inimigos. O tipo de coisa que surgiu em 1980 e deve ficar presa pra sempre em 1980.

 

Arm Fall-Off Boy (Garoto do Braço Destacável)

O superpoder dele é destacar o próprio braço e usá-lo como arma, tipo um porrete. Acho que não tem mais nada o que ser dito por aqui. Sério. Eu não consigo, pelo menos. ELE RETIRA O PRÓPRIO BRAÇO COMO SUPERPODER. RETIRA. O. PRÓPRIO. BRAÇO.

Cria da DC, fez sua estreia em 1989.

 

Matter-Eater Lad (Rapaz Comedor de Matéria)

Tenzil Kem é a identidade por trás deste herói da DC que tem o superpoder de comer matéria. Qualquer tipo. Qualquer coisa. A gente é até meio parecido, se for parar pra pensar, a única diferença é que eu sou vegetariana. Não à toa, foi meu resultado neste incrível teste do Buzzfeed.

 

Color Kid (Cara da Cor)

Também da DC – ETA GENTE CRIATIVA! -,  Color Kid é a personalidade heroica de Ulu Vakk, um jovem cientista assistente que, ao ser atingido por um raio multicolorido de outra dimensão, ganha o superpoder de mudar as cores dos objetos. Seria um poder útil para consertar meus trabalhos de faculdade ou pintar as paredes, e só. Foi inclusive rejeitado pela nada seletiva Legião dos Super-heróis, que acolheu maravilhas como o Matter Eater Lad.

 

Garota Esquilo

Alguns animais são boas incorporações à personalidade heroica – temos o Homem-Aranha, a Mulher Gato e os Thundercats aí pra comprovar. Mas um esquilo certamente não tá entre eles. A garota esquilo faz tudo o que um esquilo faz: rói madeira, se comunica com outros esquilos, é fofa e protege a natureza. Nas últimas notícias que se têm a seu respeito, sabe-se que virou babá da filha de Luke Cage e guardiã do Central Park, em Nova York (SÉRIO).

 

Supergêmeos – mais especificamente o Zan

Tá, se transformar em qualquer coisa é até interessante. Mas ao pobre Zan sempre resta a responsabilidade de virar o objeto inanimado que não serve para muita coisa (“Forma de um balde d’água!”), enquanto sua irmã Jayna fica com a parte de se transformar em coisas maneiras tipo um tubarão.

Mas pelo menos me renderam boas piadas com meu irmão ao longo de uma vida inteira, então estão de parabéns ainda assim.

 

Cypher

Eu sempre disse que, se pudesse escolher um superpoder, seria a fluência em todas as línguas do mundo. Mas esse é um superpoder para supernerds que, como eu, querem ler Guerra e Paz no idioma original em vez de salvar o mundo, não para um membro do time X-Men, sabe? Ele é tipo um Google Tradutor, só que mortal.

 

Batman e Iron Man

 

Opinião impopular do post, sem dúvida, mas, sim, eles mesmos, minhas duas implicâncias de estimação. Eu acho que, com licença, Luciana, mas é muito fácil se dizer super-herói quando você tem dinheiro o suficiente para abastecer a lareira com notas de cem, difícil é ter superpoderes de verdade. Em outras palavras: grande coisas comprar superpoderes, bando de playboyzinho. Claro que é minha opinião de meio-intelectual-meio-de-esquerda, mas acho que, novamente, Luciana, é muito fácil querer lutar contra o crime, difícil é reconhecer que a desigualdade social que causa a criminalidade é gerada por gente como você, né?

 

Skateman

Quando comprei meu par de patins, fiquei me achando meio tosca, porque patins é um negócio naturalmente meio tosco. Não dá pra ser badass andando de patins, sabe? O Skateman é um patineiro, tipo aquele pessoal que fica andando embaixo da marquise do Ibirapuera, só que versão veterano da guerra do Vietnã com conhecimentos sobre artes marciais. Não a toa, sua única edição é frequentemente citada como o pior quadrinho de todos os tempos.

 

Mancha Solar

É do Brasil-sil-sil! Na verdade, não exatamente. Trata-se de um super-herói brasileiro criado pela Marvel nos meados dos anos oitenta, então aguenta aí a chuva de estereótipos e falta de conhecimento: Roberto da Costa é um jogador de futebol profissional que descobre seus superpoderes de absorção da energia solar em uma briga entre times durante uma partida. Consegue cegar pessoas com sua luz, controlar o fogo e não precisa respirar (?) quando assume sua superforma. Também tem a incrível habilidade de transformar o idioma oficial do Brasil em espanhol, como pode ser visto em algumas das edições de seus quadrinhos.

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

  • Miss Sofia

    eu também tinha esse livro incrível e li obsessivamente quando criança!!!!!
    (p.s.: eu te amo, você é incrível)

  • Muniky

    Adoro o Batman e Iron Man, mas concordo com você! <3

  • Mariana

    Hey, a garota esquilo tem um quadrinho agora.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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