8 de março de 2015 | Edição #12 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Limites, limites, limites
Ilustração: Isadora M.

Parece que é regra quando se fala de adolescência falar também que esse é o período de experimentar coisas novas, de cometer erros e, bem, passar dos limites de vez em quando. Pelo menos para mim, a impressão que dá é a de que a conversa é sempre essa quando se trata de juventude. Mas, na prática, não é bem assim.

Na prática, me parece, quando perdemos os limites (em qualquer idade, mas, principalmente, na adolescência), já somos taxadas de um milhão de coisas, como se esquecer um pouco do que é socialmente aceito e considerado correto dissesse algo sobre quem somos, sobre nosso caráter e o que quer que seja. Isso acontece em especial com as mulheres, porque sabemos que vivemos num mundo machista que quer que a gente acredite que o nosso lugar é em casa e não na rua, na balada, na casa dos outros etc. Por outro lado… se somos o que é considerado “certinhas demais”, estamos desperdiçando essa fase da vida, somos muito quadradas, blábláblá.

Bom, para começar: quem é que diz quais são esses limites? Tem um livro de regras da vida que diz “em uma noite só é ok beijar o máximo de 2,315 pessoas”? Acho que não, né? Até porque, em grande parte, aquilo que a sociedade considera como sair do adequado é algo que simplesmente não se encaixa no nosso estilo de vida. Por exemplo, a coisa mais comum de se ouvir é que uma menina não pode gostar de outras meninas. Então, em teoria (pelo amor, destaque e luzes fluorescentes piscantes nesse “em teoria”), segundo essa lógica, gostar de meninas seria “passar dos limites”. Mas e se isso (gostar de meninas) é justamente como você se sente? Será que é justo que uma outra pessoa, que não tem nada a ver com a sua vida, diga que gostar de meninas é sair dos seus limites, quando na verdade é exatamente o contrário? Então, pra começo de conversa, falar nesses limites é totalmente bizarro, porque sempre vai ter a ver com a ideia de outras pessoas sobre o que é e o que não é adequado e ninguém é obrigado a ficar se pautando na ideia de outras pessoas do que é certo e o que é errado.

Além disso, mesmo que nós pudéssemos entrar em um consenso sobre quais são esses limites, qual seria o problema de extrapolarmos de vez em quando? Principalmente se tratarmos de coisas mais simples do que o exemplo dado acima, sobre meninas gostarem de outras meninas (pois isso tem absolutamente tudo a ver com machismo e homofobia – não que o que eu vou falar agora esteja totalmente isento da visão social machista). Se formos falar de sair e ficar até tarde fora um dia, acabar comendo mais porcarias do que você se permite normalmente, dançar loucamente numa festa e depois ficar morrendo de vergonha de ir pra escola, tudo isso fica mais claro. Miga, não tem problema NENHUM em esquecer do que é convenção social e se permitir ir além do que você está acostumada normalmente ou do que é entendido como “o limite”. Claro que não quero dizer com isso que é daora você parar de dormir ou tomar dois litros de refrigerante por dia (quanto à dança, isso sim é daora você fazer todos os dias se quiser!). Só quero dizer que você não precisa ficar se culpando se fizer isso. Se acabar fazendo coisas que você não está acostumada numa festa (ou que está acostumada, tanto faz); se acabar comendo porcarias demais; se acabar passando cinco fins de semana seguidos fora de casa. Faz parte e é totalmente normal! Mesmo porque, como eu já perpassei nesse texto, os limites para os homens são diferentes dos limites para as mulheres, né: é comum mulheres serem julgadas quando se soltam e/ou extravasam, mas isso é porque nossa sociedade é extremamente machista e, de novo, quer que os limites de uns sejam padrão para todas as pessoas, o que é injusto e em geral ferra com quem não é homem. Só é legal lembrar de cuidar da sua segurança e da saúde, viu?

De outro lado, fique 100% tranquila se você não tem vontade de extravasar no rolê, se prefere reunir os amigos pra ver um filme e comer pipoca, se curte um estilo de vida mais sossegado e sem grandes picos de adrenalina. Não, você não está desperdiçando sua juventude (ou sua vida, se você já não for mais o que é considerado ~jovem~). Você estará desperdiçando se fizer coisas que não está a fim de fazer (será? acho que nenhum tempo é desperdiçado nunca porque tudo é experiência. Mas enfim, isso já é outra discussão). Você tem todo o direito de não querer sair pra caramba, de não querer sair dos seus limites e de preferir ficar tranquila. Claro que sempre é legal pensar em sair da zona de conforto e ter experiências, porque é só assim que aprendemos e amadurecemos. Mas sair da zona de conforto, assim como sair dos limites, tem significados diferentes para pessoas diferentes e não cabe a mim dizer como você tem que fazer isso. Só quero dizer que se você não curte muito ir a baladas e festas, ficar até tarde na noitchi, etc. e tal, por mais que digam que essa seja a fase de fazer essas coisas, você não precisa se forçar. Você não precisa se obrigar a fazer e gostar de coisas de que não gosta. Não tem nada de errado em não curtir esse tipo de coisa. Acho que quanto mais experiências a gente tiver nessa vida melhor, mas se você não quiser experimentar e estiver bem, ué, ninguém mais tem nada a ver com isso.

Deu pra perceber onde quero chegar, né? Quer extravasar em uns momentos da vida? Vai fundo. Quer ficar de boas sem sair dos seus limites? Tranquilo. Só porque alguém em algum lugar definiu o que eram limites ou o que era aproveitar a adolescência não significa que isso deva se aplicar a você. Uma vez li no Tumblr uma frase (gente, eu sou super filósofa de Tumblr, perdões) muito real: a vida fica bem mais fácil quando a gente não se preocupa com o que todo o resto do mundo está fazendo. Se você não está machucando a si mesma ou a outra pessoa, vai fundo, miga.

Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia, 23 anos (mas todo mundo acha que ela tem 13), feminista interseccional e estudante do último ano de direito. Talvez queira seguir na área, mas seu sonho de verdade é ser cantora e escritora. Se bem que, se fosse possível, largava tudo isso e se tornava Mestre Pokémon pra ontem.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos