10 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Linguagem e notação visual

Entender que estamos a todo momento passando uma informação para alguém é perceber que dizer algo vai além das palavras escritas ou faladas. Quando criança, se expressar estava intrinsecamente ligado a me fechar no meu mundo e desenhar. Até hoje vivo cercada pelos lápis, canetas, papeis e paredes. Meu refúgio para a dor sempre foi a linguagem não falada; minhas pinceladas também compõem os meus silêncios.

Assim, no processo da depressão, busco muitas vezes a linguagem não falada para dizer o que sinto naquele momento e, ao longo da minha vida, é assim, um alívio, eu diria, saber que nem sempre a gente precisa falar, falar e falar quando achamos que não temos mais voz e força para isso.

No mundo onde a linguagem não necessariamente precisa ser dita, somos bombardeados por informações que vão construindo o nosso ser social sem ao menos percebermos.  Seria lindo se vivêssemos em um contexto não machista, misógino, gordofóbico, racista, capacitista, transfóbico, etc. A nossa vida é marcada pela chuva de opressões ao sair de casa; olho para o lado e vejo um cartaz que diz “seja magra, loira e tenha cabelo liso”; olho para o outro e encontro o padrão da família “perfeita”, no qual não me encaixo; ando mais dois passos e tem alguém me dizendo o que fazer, o que comprar, o que ser, e talvez esse seja um ciclo deprimente que me faz querer voltar a ficar fechada em casa com meus lápis e papeis redesenhando o que acho justo e o que me faz feliz.

A imagem é uma mensagem visual, sempre um discurso político. A questão é quem ela representa e quem não, e também como essa ferramenta, sendo expressão e comunicação, pode ser usada por nós como forma de resistência.  Nesse processo de desmistificar a linguagem não falada, estamos usando a dupla interpretação de algo que remete tanto a um sentido conotativo, ou seja, usando nosso emocional, quanto um sentido literal, denotativo.

Nessa miscelânea, o valor do simbólico e ilustrativo é inegável. Este texto talvez não teria tanto sentido senão fosse a ilustração, já que ela estabelece uma semântica com o que está escrito; neste caso, uma relação de coerência, articulando dois sistemas de linguagem: o falado e o escrito. Mas não necessariamente a ilustração está representando tudo o que está sendo dito aqui. No fim, a linguagem não falada, a forma como os símbolos são compostos, o nosso dia a dia sendo construído por eles, desde as placas de trânsito até a publicidade em outdoors, criam um segundo universo de imagens e interpretações. Uma linguagem que não depende de nós, mas nos atinge.

Por isso, acho que é inerente pensar também na questão de inverter a lógica opressora em algo questionador. Quem tem espaço para falar? Poucos. Mas como podemos falar algo? De muitas formas. Talvez a necessidade de entender a linguagem seja essa, quando conseguirmos perceber a forma que isso tem, será possível ver o quão grande alguns atos tornam-se e, principalmente, que grandes discursos não precisam ser escritos com palavras.

Sendo assim, eu podia ter escrito esse texto com uma ilustração… Ou talvez não.

Stephanie Ribeiro
  • Colaboradora de Artes

Arquiteta e Urbanista, ativista feminista e escritora. Contribui com textos e artigos para diversos meios, além de participar de palestras e eventos. Trabalha em seu livro a ser lançado pela Cia das Letras em breve.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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