19 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: | Ilustração: Kiki
A linguagem do fandom
Ilustração: Izabela Zakimi Innocentini (Kiki).

falei aqui sobre a importância do fandom (comunidade de fãs) na minha vida. Sempre me envolvi muito com mídias que me interessam, e sempre gostei de ler e escrever e ouvir e falar sobre esses assuntos com outras pessoas também interessadas – aos onze anos, participava de fóruns de RPG de Harry Potter; hoje, ouço e leio recaps de Pretty Little Liars como quem consome literatura das melhores. Tudo isso para dizer que a experiência de fandom é sempre muito ligada à linguagem: falada, escrita, visual. Fandom foi o que me ensinou a escrever narrativas, o que me fez voltar a criar depois de anos de bloqueio, o que me deu as ferramentas para analisar padrões em histórias. Não acredita? Vou explicar melhor.

O trabalho dos fãs é interpretar texto

As atividades de fandom que mais me interessam – analisar e retrabalhar as narrativas que eu gosto – dependem inteiramente de interpretação de texto, em suas mais diversas formas. Afinal, não dá pra comentar por duas horas uma cena de quinze minutos de um episódio de Orange is the New Black se você não tiver identificado muito além do óbvio ali: não só os diálogos, mas o que a imagem quer te dizer, as referências ao contexto, o que está implícito, o que a atuação das atrizes da cena indica sobre o personagem, o que deixa de ser dito e portanto é significativo, a escolha de cada palavra. Todos esses elementos te trazem mensagens, interpretações possíveis, e esse trabalho de interpretação é parte crucial de poder dissecar aqueles segundos do show em que seu cantor favorito mudou um pedaço da letra da música, ou aquela frase icônica da sua série de livros favorita.

Além disso, se você se envolve em fanworks (ou seja, fanfics, fanmixes, fanart e variantes – obras de arte inspiradas por/baseadas em certas narrativas/personagens), a interpretação profunda do texto original (e uso “texto” para me referir também a filmes, séries, ou mesmo à apresentação pública de um artista) é inteiramente necessária. Você não seria capaz de escrever uma história do ponto de vista da Hermione se não entendesse muito bem a personagem, além do que é dado como óbvio em Harry Potter. Isso me leva ao próximo ponto:

Produzir conteúdo no fandom é um super exercício textual

O fandom online se manifesta de muitas formas. Tem gente que escreve fanfic (histórias que usam personagens/contextos dos quais a pessoa é fã), tem gente que faz fanmixes (playlists inspiradas nos personagens/histórias), gente que faz fanart (ilustrações na mesma linha), gente que faz fanvids (vídeos na mesma vibe), gente que faz gifs e espalha pelo tumblr, gente que faz montagens engraçadas, gente que faz memes, gente que mantém sites e páginas super atualizados com todas as informações possíveis sobre aquele objeto de admiração, gente que escreve análises detalhadas e aprofundadas de tudo que acontece (no fandom, essas análises costumam se chamar “meta”, e podem ser sobre qualquer coisa, de um diálogo a um corte de cabelo de um personagem). Todas essas produções usam linguagens diferentes para transmitir o sentimento de fã, e todas elas exigem esforço e talento.

Fandom tem sua própria linguagem

Como já deu pra reparar, o mundo dos fandoms tem uma linguagem própria: fanfics, fanart, meta, shipping (torcer para um casal ficar junto), otp (one true pairing, “um par verdadeiro”, aquele ship que você quer que fique junto para sempre), as variantes brotp (como otp, mas para amigos), ot3 (como otp, mas para tríades amorosas)… enfim, todo um glossário de palavras e expressões que quem participa de fandom joga a torto e a direito mas quem não participa demora pra entender.

Além disso, cada fandom acaba desenvolvendo suas próprias particularidades linguísticas: dos nomes dados para os ships (ando revendo Veronica Mars e Logan/Veronica é LoVe, por exemplo; em Gossip Girl, meu nome de ship favorito – mas não meu ship favorito de fato – é Serenate, de Serena/Nate) às piadas internas (o fandom de Hannibal adora fazer montagens com coroas de flores na cabeça de um dos protagonistas, Will Graham), como em qualquer grupo de amigos, as formas de expressão vão se tornando mais particulares àquele espaço, sendo facilmente compreendidas por quem já entende do assunto mas gerando certa confusão entre quem nunca ouviu falar daquilo antes.

Como tudo na linguagem, o mundo do fandom é fluido, flexível e pode ter problemas

Apesar dessa coisa de linguagem própria parecer meio intimidadora, na verdade o mundo do fandom pode ser bem tranquilo (ou bem complicado, porque todo grupo tem umas pessoas complicadas, né?). Os grupos se transformam naturalmente, têm sempre espaço para mais um (ou muitos!) fã(s), e gente com tudo quanto é opinião – dos que amam o que amam sem desculpas, aos que são extremamente críticos de tudo que consomem.

Como tudo que envolve linguagem, fandom também traz à tona vários problemas: a perpetuação (e glorificação ou romantização) de preconceitos presentes nas obras originais, por exemplo, ou o uso de gírias e piadas internas que reforçam linguagem preconceituosa. Entretanto, uma das graças de produzir seu próprio conteúdo no fandom é exatamente que você pode criticar o que acha uma tremenda pisada de bola naquele filme que você, de resto, adora, e construir sua própria versão em que ele é muito melhor.

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

  • http://revistapolen.com Revista Pólen

    acho que um dos moimentos mais memoráveis e aleatórios que já tive foi quando estava conversando com a coworker sobre ships (claro, por que do que mais a gente fala no trabalho?) e tivemos que explicar pra chefe o que era shippar.

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