24 de maio de 2014 | Artes, Edição #2, Literatura | Texto: | Ilustração:
Sobre realidades possíveis
Ilustração: Isadora Carangi.
Ilustração: Isadora Carangi.

Ilustração: Isadora Carangi.

Você com certeza conhece uma história fantástica. A fantasia existe desde que se contam  histórias. É tão antigaque já nos habituamos com os absurdos e não duvidamos por nem um  segundo que sereias, fantasmas, animais que falam, vampiros e bruxas são só personagens de mentirinha. Mas e se a realidade for mais fantástica do que imaginamos?

Eu me lembro quando ensinaram na escola que casa é concreto, mas fada é abstrato. Não entendi muito bem o que decidia essas definições. Talvez eu não pudesse tocar em uma fada (será? E quando alguém se fantasia de fada?), mas elas existiam nos livros e na imaginação. E será que a  imaginação não constrói a realidade concreta? Mesmo em dúvida, decorei o que a professora ensinava e me acostumei a dizer que casa é concreto, mas fada é abstrato. Já tinha até me esquecido dessa inquietação, quando conheci um livro que derreteu minhas certezas decoradas. Aos 17 anos eu li Cem anos de solidão, do Gabriel García Marquez (a Clara Browne escreveu sobre esse aqui) e então percebi que, sim, o que nossa imaginação constrói é tão palpável quanto os paralelepípedos que formam as ruas. Este livro escrito por Gabriel García Márquez me apresentou ao Realismo Mágico, um tipo de literatura que não se dedica apenas a descrever a realidade, mas entende a literatura como um modo de transformar o real, criar outros mundos e abalar a fronteira entre sonho e vigília.

Muita gente acredita que este tipo de literatura é exclusivo a autores da América Latina, mas isso não é verdade, este gênero independe dos limites geográficos. Para apresentar melhor o realismo mágico escolhemos falar sobre autores de realidades muito distintas. Eu, Taís, vou falar sobre o Júlio Cortázar, um escritor argentino (que nasceu na Bélgica e morou grande parte da sua vida em Paris) e a Luiza vai escrever sobre Haruki Murakami, um escritor japonês. Além disso, preparamos uma listinha com outros autores da literatura fantástica pra quem ficou com vontade de conhecer mais.

Júlio Cortázar

Quando eu tinha vinte anos passei por um período muito difícil. Me sentia deprimida e nada me comovia, a vida parecia um tédio. Então, eu comecei a ler os livros de Júlio Cortázar e de repente o mundo foi amolecendo. Lendo seus livros sentia como se a vida saltasse diante de mim, tudo era espanto e possibilidade. Naquela época eu me sentia sem controle sobre minha vida e isso me paralisava; então, Cortázar veio e me apontou que qualquer dia é feito em descontrole – sair à rua é perigoso, por isso, atenção tudo é divino maravilhoso. Na verdade, o que me faltava era saber conduzir os dias: Reparar nos incontáveis mistérios que rodeiam os pequenos gestos para transformar cada esbarrão em um encontro e o erro, em descoberta.

Histórias de cronópios e de famas é um livro que começa assim: “A tarefa de amolecer diariamente o tijolo, a tarefa de abrir caminho na massa pegajosa que se proclama mundo”. Este é um livro que nos faz abrir o fantástico adormecido em nossos hábitos – girar a maçaneta não pode ser um gesto automático, comum, é um ato sempre novo que guarda um infinito de possibilidades. Sair à rua é se deparar com todo tipo de riscos e absurdos. Só porque damos um nome às coisas e dizemos: ônibus, dinheiro, banco; não quer dizer que elas estejam acabadas de mistério. A realidade todos os dias nos acorda para um mundo incompreensível, recheado de coisas que nos assustam e instigam. Criamos nomes, ciências, profissões, todo um guia para entender e ser nesta vida e achamos que é assim: este mundo é assim desde sempre e nos esquecemos do primeiro verbo, criar. A tarefa de amolecer o tijolo é esta, a de criar outro mundo, outro dia completamente distinto do outro, outra vida em que existir não é apostar no mesmo, mas revelar escolhas e surpresas a cada passo. Para Cortázar, o fantástico não é o sobrenatural, o fantástico é o fato de existirmos, em carne, osso, necessidades e invenção. Por isso é preciso ir às ruas com atenção e desenfreio, ver cada pessoa, se possível ser muitas, amar como quem descobre uma nova América em cada corpo, comer no delírio de que existe comida, de que existem dentes, intestino –  de que as coisas existem e ponto. Cortázar cola esse lembrete em nossos olhos, nos re-acorda e nos faz ver que só há vigília (porque só há sonho).

Outros livros de Júlio Cortázar: O Jogo da Amarelinha, O Perseguidor, A volta ao dia em 80 mundos

 

Haruki Murakami (por Luiza Vilela)

Quando fiquei sabendo que para esta edição sobre sonhos a Capitolina escreveríamos sobre Realismo Mágico, quis imediatamente contribuir com algumas considerações sobre o movimento McOndo e sobre a obra do escritor japonês Haruki Murakami. Sei que a princípio os dois objetos não têm absolutamente nada a ver um com o outro: o primeiro é um manifesto anti Realismo Mágico, lançado na década de 1990 por jovens escritores latino-americanos (Sendo o chileno Alberto Fuguet o mais notável) cansados de ter suas obras eternamente julgadas através do filtro da escola popularizada por García Márquez, Borges e cia; enquanto o segundo é um autor japonês mais comumente ligado ao pós-modernismo. Mas eu chego lá. Acontece que, assim como Fuguet e seus contemporâneos foram criticados (e inicialmente bastante rejeitados no mercado internacional) por sua escrita não ser suficientemente latino-americana, assim também aconteceu – e, apesar do sucesso estrondoso, ainda acontece – com Murakami. Em ambos o casos, criticava-se o excesso de cosmopolitismo e globalização na escrita de autores vindos de regiões periféricas, e que por tradição deveriam passar um “sabor local” em sua obra.

Então a ideia aqui é apenas sinalizar rapidamente a existência do McOndismo – e sugerir que vocês procurem o belíssimo Os filmes da minha vida, do Fuguet, nas livrarias – e depois falar um pouco do Realismo Mágico que  enxergo nos livros do Murakami, e de como ele é diferente do latino americano.

O termo McOndo surgiu de um trocadilho com Macondo, a cidade fictícia que serve de pano de fundo para alguns dos livros de Gabriel García Marquez. Acontece que o Chile (e a América Latina como um todo), onde residia o jovem Alberto Fuguet em meados da década de 1990, tinha muito pouco ou quase nada a ver com a excêntrica e folclórica Macondo. Da necessidade de sair da sombra do Realismo Mágico e devolver ao mundo uma literatura ao mesmo tempo local e global, que lidasse com as transformações pelas quais a região estava passando, surgiu o Manifesto McOndo, que foi publicado como prefácio de uma coletânea de contos organizada por Fuguet e Sergio Gomez, que falam da ascensão de uma nova América Latina, que “é um mundo cheio de McDonald’s, Macintosh e condomínios.” Essa nova sensibilidade, mais preocupada com afinidades do que com territorialidades, expandiu-se também pelas outras artes, e acho que fica até mais fácil de ser percebida no cinema, quando falamos de diretos já mais conhecidos, como o Alfonso Cuarón, o Julian Schnabel e o Alejandro González Iñárritu.

Pra encerrar este pequeno desvio de assunto, segue o manifesto no original em espanhol, e alguns outros links pra quem quiser ler mais sobre o assunto. E uma súplica de uma pesquisadora obcecada com o tema: jamais deixem de ler os clássicos, mas abram espaço nas listas de vocês pra literatura contemporânea. Se precisarem de dicas estou sempre por aqui.

E agora o Murakami, outro criticado por não falar o suficiente de sua terra em seus livros. Descobri o escritor quando estava morando na Inglaterra e li num artigo do Guardian que a Sofia Coppola creditava a ele a ideia de Japão que ela executa tão lindamente em “Encontros e desencontros”. Como sou uma eterna deslumbrada com esse filme e com o trabalho da Sofia, corri pra livraria e comprei o Norwegian Wood, curiosamente o único livro do Murakami que é 100% linear e não tem nenhum elemento fantástico ou surreal. Numa dessas coincidências bizarras, liguei pra minha mãe pra dizer que tinha descoberto um novo autor maravilhoso, e eis que ela havia acabado de começar a ler o Kafka à beira mar. Não entendi nada quando ela soltou a exclamação “muito doido esse cara, heim Luiza!”, e aí fui ler mais sobre ele. Uma coisa levou à outra e fui devorando os livros um atrás do outro. Até hoje acho muito simbólico que eu tenha lido o primeiro por conta dessa ligação com a Sofia, porque todos os filmes dela, têm essa áurea meia onírica, etérea, embaçada – e assim são os cenários do Murakami. Há sempre uma neblina pairando sobre as personagens, apesar da escrita totalmente cristalina e fluente. Aliás, esta é pra mim a combinação que faz dele tão especial – a clareza do estilo aliada ao surrealismo dos temas. E é surreal com força: só em Kafka à beira mar temos gatos falantes, chuva de peixes, personagens batizados com nomes de marca de Whisky americano e um menino chamado corvo. Todos estes elementos vão aparecendo, com uma sutileza incrível, num cenário que é ao mesmo tempo tradicionalmente japonês e absolutamente ocidentalizado. Ou seja, um retrato do Japão contemporâneo. Por isso digo que é um tipo de Realismo Mágico muito diferente do latino americano – o primeiro é totalmente regionalista, enquanto o segundo altamente cosmopolita.

Além de criaturas bizarras, satélites extras e personagens com nomes estranhos, outra coisa que está bastante presente na obra do Murakami é a questão do sonho, e de como suas personagens lidam com os seus. Jay Rubin, tradutor americano do Murakami (e seu fã declarado), escreveu um livro belíssimo sobre a sua obra (Haruki Murakami and the Music of Words, infelizmente ainda sem tradução no Brasil), de onde cito:

“Ali, no núcleo duro do nosso “eu”, reside a história de quem cada um de nós é: uma narrativa fragmentada que nós acessamos apenas através de imagens. Os sonhos são uma maneira importante de entrar em contato com essas imagens, mas muitas vezes eles vêm à tona inesperadamente enquanto estamos acordados, são compreendidos apressadamente pela nossa consciência alerta, e depois retornam de maneira tão inesperada quanto para o lugar de onde vieram. O romancista conta histórias numa tentativa de revelar essa narrativa interna, e através de uma espécie de processo irracional essas histórias reverberam com as histórias internas de cada leitor. É um processo maravilhoso, sutil como uma deja vu, e tão difícil de definir quanto. Vemos isso acontecer de maneira mais completa no Hard-Boiled Wonderland and the End of the World, quando pequenos ecos da história interior do protagonista (The End of the World) conseguem chegar até o mundo exterior de sua consciência (Hard-Boiled Wonderland).”

Esse livro citado pelo Rubin ainda não foi traduzido para o português, mas não deve demorar pra sair, já que a Alfaguara está devagarinho lançando um por um. O livro é dividido em duas narrativas paralelas que se alternam: o Fim do Mundo, que é uma cidade surreal habitada por unicórnios, bestas e cercada por uma floresta cheia de mistérios, e uma espécie de super-realidade pós apocalíptica disputada por duas facções rivais (Hard-Boiled é um sub-gênero literário, primo irmão do romance policial). O personagem principal é um humanoide criado para encriptar dados com o seu subconsciente.

Acho que já deu pra ter uma ideia do quanto a obra do Murakami é incrível e surreal, né? Ler Murakami é estar numa interseção perpétua entre sonho, memória e realidade – para quem curte, é um deleite. Sugiro ler algumas coisas dele antes de se jogar no 1Q84, para sentir o estilo mesmo e porque há muitos temas que se repetem de outros romances (ele é um tanto auto-referente.) Aqui na interweb, tem um documentário da BBC muito bom sobre o Murakami, e acho que vocês também devem conseguir baixar o filme baseado em Norwegian Wood, que foi todo produzido no Japão e é simplesmente maravilhoso.

Lista de outros autores de literatura fantástica:

Laura Esquivel

Silvina Ocampo

Isabel Allende

Jean Cocteau

Macedonio Fernández

Jorge Luis Borges

Adolfo Bioy Caseres

Toni Moriso

Pilar de Cancela

Angela Carter

Alice Hoffman

Elena Garro

Alexandra David-Nell

Diana Wynne Jones

Cressida Crowel

Karen Blixen

Kelley Armstrong.

 

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.