13 de agosto de 2016 | Artes, Colunas, Literatura | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Livros, falta de inspiração e estratégias de escrita
GlamourPassado-IsadoraM

 

Fui incentivada pelas mulheres da minha família a ler. Delas, mamãe e vovó, adquiri o hábito de sempre carregar um livro na bolsa para preencher as horas gastas no trânsito. Faço isso até hoje, mas nunca antes na história da minha vida eu li tão poucos livros.

Vista cansada? Sem dúvidas, trabalho lendo o dia inteiro e, ao final do expediente, prefiro fazer outra coisa. Mesmo ciente disso, acredito que a raiz dessa questão está no excesso de leituras intermitentes que fazemos ao longo de um dia enquanto navegamos pelas redes sociais. Sejam os textões no Facebook, sejam os 140 caracteres no feed do Twitter, nossos olhos nunca malharam tanto, segurando a barra que é acompanhar a rolagem de notícias que pipocam nas telas de celulares, tablets e computadores.

O estado de hiper conexão proporciona o consumo da enxurrada de conteúdo, mas a nossa capacidade de assimilação não acompanha o ritmo acelerado da vida que levamos hoje. Você já se pegou tentando lembrar de uma informação que acabou de ler no celular? Algum conhecido já reclamou de cansaço mental? E aquele incômodo de ter estudado e não ter absorvido nada? Experiências como essas se tornaram mais frequentes na era da comunicação, o que chega a ser irônico, pois, quanto mais comunicação, menos entendimento, já que é humanamente impossível reter e processar tanta coisa por dia. E esse esgotamento mental afeta a nossa criatividade. E, para quem vive de escrever, ter a criatividade abalada é um problema. Falo por mim mesma: aqui na Capitolina, tá sofrido pensar em pautas inéditas, e quando esbarro em alguma, o texto demora a pegar no tranco.

Os livros sempre foram meus antídotos para essa falta de inspiração, mas nem eles têm dado conta desse recado: começo a ler um romance, mas não continuo porque estou cansada e a narrativa não prende a minha atenção, e isso nem sempre diz respeito à qualidade da história: cada vez mais acostumados a consumir conteúdo em um punhado limitado de caracteres, nosso foco de atenção está, de fato, reduzido.

Dito isso tudo, preciso confessar: minha relação com os livros está abalada, a gente já foi mais chegado. Lamentável, eu sei. E eu também sei que não estou sozinha nesse vale desolado dos amantes de livros que não leem mais livros como antigamente. Mas sigamos persistentes, principalmente vocês que também são escritoras! Minhas dicas são:

1) Mantenham seus hábitos. Eu insisto em carregar um livro na bolsa sempre que saio de casa. Pesa? Pesa, mas serve de lembrete sobre quem eu sempre fui e ainda sou, mesmo em meio ao turbilhão comunicativo desses dias: aquela devoradora de livros que aprendeu a ler precocemente com os gibis da Turma da Mônica;

2) Inventem novas estratégias de criação textual. Não vamos condenar a tecnologia como algoz dos nossos hábitos de leitura e escrita! A parada não é essa: a gente reconhece que as relações livro-leitor-escrita estão se transformando, a gente chora umas pitangas por isso, mas sacudimos a poeira para seguir em frente, até porque ganhamos vários recursos bacanas para não apenas ler, como também escrever! Afinal, há males que vêm para o bem: com essa vida hiperconectada, eu escrevi esse texto todo no meu celular, nas idas e vindas no metrô, auxiliada por links lidos, prints e imagens que fui compilando no Evernote para alinhavar meu raciocínio. E, claro, isso tudo sempre amparada por um livro dentro da bolsa.

Carolina Walliter
  • Revisora
  • Colaboradora de Esportes
  • Colaboradora de Literatura

Beatlemaníaca que gosta de sambar diferente com o Molejão, gosta de carnaval e de futebol mais que o recomendado pela OMS. Carioca da gema e cidadã do mundo, tradutora, intérprete, historiadora, mochileira, nômade digital, rabiscadora compulsiva em moleskines (não necessariamente nessa ordem) mas, antes de tudo, uma contadora de histórias, sobre si e sobre os outros. Escreve sobre o cotidiano da tradução em: http://pronoiatradutoria.com/

  • http://cafenefelibata.blogspot.com Mariane Lobo

    Estou passando pela mesmíssima situação, recentemente consegui terminar de ler um romance, depois de muitas leituras interrompidas e, nossa, foi uma vitória. Além da lista inifinita (e que só aumenta) de blogs no Feedly, os textos da faculdade também comem uma fatia considerável do meu tempo. Para manter saudável minha paixão por livros tenho recorrido a narrativas mais curtas como livros de contos e histórias em quadrinhos (que dá pra ler bem rapidinho), recomendo.

  • Davi Morais

    que texto maravilhoso <3

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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