28 de julho de 2017 | Se Liga | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Lorde e ‘Melodrama’: o que vem depois da adolescência
Lorde-IsadoraM

Lorde já deixou claro que amava sua adolescência e que “Pure heroine” (2013) foi uma maneira de eternizar aqueles anos. Já “Melodrama” (2017), o segundo disco da neozelandesa Ella Marija Lani Yelich-O’Connor, é um registro fonográfico de seu crescimento. Se nos idos de 2013 Lorde cantou sobre a vida de uma adolescente com seus amigos, como a fama poderia mudar sua vida e ainda fez uma reflexão sobre a indústria (e como alguns de nossos desejos são fabricados por ela), para o trabalho lançado quatro anos depois a cantora mergulhou no seu rito de passagem para a vida adulta. Nas palavras dela, da mensagem que publicou em seu Facebook justamente no dia de seu aniversário de 20 anos: “Escrever ‘Pure heroine’ foi o jeito que encontrei de conservar a glória da nossa adolescência, deixar esse registro eterno para que essa parte de mim nunca morra, e esse disco [‘Melodrama’] – bem, esse aqui é sobre o que vem em seguida”.

E muita coisa aconteceu. Um coração partido, morar sozinha, fazer novos amigos, mudar de casa, de cidade, entender quem é, permitir-se sentir tudo e falar sobre essa imensidão, sobre esse caos. Quem não passou por pelo menos uma dessas transformações, ou todas juntas, que atire a primeira pedra. Por isso, as histórias que ouvimos em “Melodrama” conversam conosco. Podemos não ter a vida de Lorde, mas ela não é a única a experimentar transformações. Estamos nesse barco juntas.

Depois de escutar pela primeira vez, dá para dizer que a experiência do coração partido de Lorde (ela e o fotógrafo James Lowe terminaram o relacionamento no começo de 2016) perpassa muitas das canções. “Green light”, faixa que abre o CD e o primeiro single a ser divulgado, bebe muito nessa fonte.

Mas, amigas, é mais que isso. É falar sobre o que foi e é o amor para ela. É abordar como, quando a relação não dá certo, a culpa pode recair em cima da mulher, aquela que é difícil demais de amar.

They say, “You’re a little much for me
Eles dizem, “Você é um pouco demais para mim
You’re a liability
Você é um peso
You’re a little much for me”

Você é um pouco demais para mim”
So they pull back, make other plans
Então, eles vão embora, fazem outros planos
I understand, I’m a liability
Eu entendo, sou um peso
Get you wild, make you leave
Deixo você maluco, faço com que vá embora
I’m a little much for
Sou um pouco demais para
E-a-na-na-na, everyone
Todo mundo
“Liability”

Eu chorei ouvindo “Liability” porque quantas vezes nós não ouvimos (por aí ou direcionado a nós mesmas) que “não devemos nos importar”, “devemos ser casuais”, “não devemos criar expectativas”, “não temos que mostrar que estamos interessadas para não assustar o cara” (que não quer nada sério), “temos que tentar não complicar as coisas”… Como se, quando as coisas não saem como planejado, é só para nós que geral deve apontar o dedo. Destemperadas, histéricas, paranóicas. Aquelas que sentem demais. Como se sentir fosse algo apenas relacionado à mulher (nada de novo no reino de qualquer lugar).

Toda essa deturpação do sentir nos leva à geração sem amor, sobre a qual Lorde também canta. Pessoas que querem brincar com os sentimentos uns dos outros.

Bet you wanna rip my heart out
Aposto que você quer arrancar meu coração
Bet you wanna skip my calls now
Aposto que você quer ignorar minhas chamadas agora
Well guess what? I like that
Bem, quer saber? Eu gosto disso
‘Cause I kinda mess your life up
Porque eu vou bagunçar sua vida
Kinda wanna take my mouth shut
Você vai querer calar minha boca
Look out, lovers
Cuidado, amantes
“Hard feelings/Loveless”

Tudo é um jogo e nós não temos qualquer chance de sair ganhando. Não importa o que façamos, estaremos em desvantagem. Somos difíceis de amar e, portanto, temos sempre que nos adequar às regras do jogo que está rolando agora. Só podemos ser levadas a sério se formos a cool girl, a moça legal, que age quase como um dos caras. Lorde completa muito bem, lá em “Liability”:

The truth is I am a toy that people enjoy
A verdade é que sou um brinquedo que as pessoas usam
‘Til all of the tricks don’t work anymore
Até que todos os truques não funcionem mais
And then they are bored of me
E, então, eles ficam de saco cheio de mim

Com esse mosaico de sentimentos, “Melodrama” é considerado pela crítica, até aqui, o melhor disco pop do ano. Com o trabalho, a neozelandesa prova que “Pure heroine” não foi sorte de principiante: foi, sim, só o primeiro trabalho de quem sabe bem o que está fazendo e como quer fazer isso. É um álbum sobre dor, sofrimento, rompimento (não só amoroso, já que a cantora também se despede da adolescência para entrar na vida adulta) e como tudo está à flor da pele. Afinal, ela tem 19 anos e quer mais é viver tudo que essa nova fase trouxer.

Aline Bonatto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Oie! Eu nasci há alguns anos atrás (num dia de abril, em 1988), morei até os 19 anos em Colatina, um lugar quente no Norte do Espírito Santo, e vim para Niterói estudar Jornalismo. Saí da faculdade, mas não de Niterói e trabalho no Rio como repórter de TV. Gosto de escrever, ler, cozinhar, especialmente se eu não for comer sozinha, adoro ficar largada no sofá assistindo a séries/filmes/novelas acompanhada do namorado ou de amigos ou com todo mundo junto. Ah, e com um brigadeiro na colher!

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