6 de agosto de 2015 | Edição #17 | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Lugar de mulher é na cozinha?

Dizem que as mulheres não têm mais do que reclamar. Que hoje podemos trabalhar, então pronto, nossos problemas se acabaram. Mal sabem.

As mulheres sempre trabalharam – mulheres pobres, majoritariamente negras –, mas é verdade que hoje há mais abertura para as mulheres, num geral, trabalharem de forma menos precária, com mais possibilidades. Mesmo assim, o trabalho ainda não é igual, fora que a nossa noção do que é trabalho também é um pouco torta. Para todo mundo, a regra geral é a de que trabalhar é fazer uma atividade que dê dinheiro. Ué, mas não é isso? Não isso.

 

Então o que mais é trabalho?

A partir do momento em que entendemos que trabalhos não remunerados são também trabalho e também devem ser considerados, temos uma visão completamente diferente sobre a suposta igualdade. O trabalho doméstico e de cuidados, ou seja, aquele pelo qual principalmente nossas mães são responsáveis dentro de casa, também deve ser levado em conta. São trabalhos essenciais porque garantem o bem-estar das pessoas, mas não costumam ser considerados trabalho por não darem lucro – e, assim, seguem invisibilizados pela sociedade.

Vamos fazer um exercício bem fácil:

Quem mora na sua casa? Dentre os seus responsáveis na casa (pais, avós, tios, etc.) há um homem e uma mulher? Entre o homem e a mulher da sua casa, quem faz a comida? Quem lava a louça? Quem limpa a casa? Quem cuida de você quando bate aquela gripe?

Essas perguntas também revelam muita coisa quando as aplicamos na nossa relação em casa com nossos irmãos. Se você tiver um irmão menino, para quem sobra limpar ou cozinhar quando seus pais pedem uma ajuda?

As respostas costumam ser muito parecidas entre as famílias brasileiras: a maioria dos casais heterossexuais não faz uma boa divisão desses trabalhos, assim como também dividem desigualmente o trabalho entre filhos meninos e filhas meninas. E para quem sobra mais? Sim, as mulheres, sempre as mulheres. Parece que é pouco trabalho a mais, mas se fizermos o exercício de anotar a quantidade de horas por semana… dá até uma dor no coração. Dor no coração e vontade de igualar todas essas relações, para que não fiquem sob as costas das mulheres todo o peso das chamadas duplas e triplas jornadas.

 

Quem fez a comida não lava a louça!

A conclusão geral é basicamente essa: as pessoas precisam dividir as tarefas da casa de um jeito equilibrado.  Não precisa todo mundo fazer tudo, se uma pessoa se responsabilizar por determinadas tarefas e a outra pessoa por outras tarefas, as coisas já ficam bem mais fáceis. Ainda assim, é preciso prestar atenção para dividir direito. Não vale o homem só tirar o prato da mesa e já achar que está fazendo um enorme favor para a humanidade. Na verdade, não vale em hipótese alguma que o homem pense estar fazendo um favor. Trabalho doméstico não é favor nenhum, é algo essencial que faremos durante toda a vida e que precisa ser visto, cada vez mais, como uma tarefa de todos. É básico, vai.

Quem sabe não seja esse o melhor jeito para acabarmos com aquele argumentozinho mequetrefe de que “lugar de mulher é na cozinha”?

 

 

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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