16 de janeiro de 2015 | Ano 1, Edição #10 | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Lutar! Criar! Poder popular!

Chile, 1973. O governo de Salvador Allende, socialista, propunha e construía grandes mudanças, que cada vez mais melhoravam a vida de seu povo, bem como, também, cada vez mais servia de exemplo às vozes socialistas dos países vizinhos. Salvador Allende havia sido eleito democraticamente.

Mas a força bruta e o conservadorismo, sob grande influência e apoio dos Estados Unidos da América, depuseram o então presidente através de um golpe militar. No mesmo dia, Allende morreu, e ninguém até hoje sabe ao certo o que houve – se ele se suicidou ou se foi assassinado nas mãos das tropas militares. Apesar disso, uma coisa é certa: a história do Chile e mesmo da América Latina seria outra, bem mais bonita, não fosse esse e mais tantos golpes militares, promovidos pelo imperialismo do hemisfério norte.

E por que falar tudo isso? Em primeiro lugar, porque acho que saber mais a respeito da história de nossos povos vizinhos (nossos hermanos!) é sempre importante, ainda mais quando os currículos escolares se preocupam muito mais com a história da Europa e tornam invisíveis os momentos históricos ocorridos nessas nossas “terras subdesenvolvidas”. Em segundo lugar (e agora indo direto ao ponto), porque as lutas de resistência à ditadura no Chile são um exemplo de quando o povo gritou, em alto e bom som, a palavra de ordem que dá nome a este texto. As ruas diziam: “Luchar! Crear! Poder popular!”

Esse grito apareceu em diversos outros momentos de resistência, de rebeldia, de movimentação revolucionária. E o que esta ideia de poder popular significa? Justamente que o povo não aguenta mais estar nas mãos dos poderosos, ricos, patrões e latifundiários – que, diga-se de passagem, são em sua maioria brancos, homens, heterossexuais, e isso não é apenas mera coincidência.

Clamar e lutar por poder popular significa querer que a população seja, ela própria sujeito ativo da sociedade que compõe. Significa propor um outro modelo de sociedade onde a política pertença às e aos trabalhadores, rurais e urbanos, pois só desta maneira as reivindicações e demandas do povo serão discutidas com seriedade, a partir de uma lógica que os priorize, em contrapartida a esse mundo cujo falido sistema político e econômico só serve para dar rasteiras, fazer a população esfolar a cara no chão.

No Brasil, o MTST, Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, defende a construção do poder popular em sua cartilha de princípios, e explica este conceito da seguinte maneira: “a realização efetiva do princípio de que só os trabalhadores podem resolver os problemas dos trabalhadores. Na prática, isso significa estimular e valorizar as iniciativas autônomas, construir formas de organização e de decisão coletivas, lutar por nossas reivindicações e direitos; enfim, não esperar nada de ninguém a não ser de nós mesmos. Assim, podemos dizer que nosso objetivo maior é a construção do poder popular, contra o capital e seu Estado.”

Mas como se constrói o poder popular? Fácil não é, assim como tudo nessa vida. Batalhar pelo poder popular significa, acima de tudo, construir a coletividade com organização. Nas mais diversas instâncias: bairros, vilas, cidades, ocupações, trabalho, escolas… É preciso estar em muitas e muitos para que se tenha força suficiente para mudar o mundo. É preciso se organizar, trocar experiências, lutar junto, para que o movimento não se descole da realidade. Porque o movimento é a gritante realidade.

Volto para o Chile na década de 70, porque é importante aprendermos com o que já aconteceu. Termino este texto, então, com a música “Canción del poder popular”, do grupo chileno IntiIllimani, muito importante para os movimentos de resistência e liberdade na América Latina como um todo. Eles dizem:

“Todos vénganse a juntar
Tenemos la puerta abierta
Y la Unidad Popular
es para todo el que quiera.

Echaremos fuera al yanqui
y su lenguaje siniestro.
Con la Unidad Popular
ahora somos gobierno!”

[“Todos venham juntar-se/ temos a porta aberta / e a Unidade Popular / é para todos que queiram. // Mandaremos para fora os ianques / e sua linguagem mal intencionada. / Com a Unidade Popular / agora somos governo!”]

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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