7 de março de 2017 | Ano 3, Edição #31 | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Lutar por opção

Lutar por opção, emocionar plateias e dedicar toda sua vida a um esporte é um ato de coragem. Entrevistamos para essa edição especial, as atletas Giu Rocha, de 16 anos, e Andreza Breezy, de 22 anos, que contaram um pouco de suas trajetórias no mundo das artes marciais e como as modalidades  que praticam fortaleceram suas vidas e trouxeram muito aprendizado.
Vem com a gente descobrir um pouco mais sobre essas maravilhosas histórias inspiradoras!

Pode falar um pouco mais sobre você?
– Giu:
Meu nome é Giulya Nascimento da Rocha, tenho 16 anos, nasci no Rio de Janeiro, Cidade de Deus, Jacarepaguá. Comecei a fazer jiu-jitsu aos 11 anos. Sou faixa azul 3 graus, no projeto social Lutadores de Cristo. E foi lá que eu me formei.
Andreza: Eu sou Andreza, tenho 22 anos, pratico o boxe (há pouco tempo) e também o kick boxing há uns 5 ou 7 anos, talvez até mais. Uma coisa liga a outra. Eu comecei no kick boxing, mas nas lutas senti que meu boxe não estava muito bom. Por isso, eu decidi começar a praticar boxe esse ano para melhorar e por ser uma modalidade olímpica. A chance de crescer no mundo da luta é um pouco mais rápida.

Quando você decidiu que praticaria essa arte marcial? Como você chegou até as aulas?
– Giu:
Na verdade, foi uma decisão aleatória. Eu disse pro meu pai que queria fazer, ele me inscreveu e não é que deu tudo certo?
Eu moro bem em frente ao projeto. Bem em frente mesmo! Eu passava por ali todos os dias… Decidi ir e me dei super bem!
Andreza: Na verdade, comecei no jiu-jitsu, em um projeto social perto de onde eu moro, na Vizinha Faladeira. Eu apanhava muito na escola então a minha mãe me inscreveu pra eu ter um pouco mais de coragem para enfrentar meus medos. Eu tinha muito medo de encarar as pessoas.
O pessoal batia o pé eu já corria para dentro de casa (risos). Depois que entrei no projeto desenvolvi mais coragem, mas também aprendi que eu não poderia usar os golpes na rua. Aquilo serviu mais pra me encorajar.
Quando o projeto acabou, comecei a praticar muay thai e lá conheci o professor de kick boxing, o Luciano. Infelizmente, projeto também acabou e a gente teve que ficar treinando na quadra da Vila, descalços e sem nenhum equipamento.

Você pode falar um pouco da sua relação com a modalidade que você escolheu?
– Giu:
Ih! Minha história de amor com o jiu-jitsu é uma coisa complicada! Como se fosse realmente um relacionamento amoroso. Tem altos e baixos… É engraçado, divertido, sabe? Eu gosto muito de lutar Jiu-jitsu! A minha relação com o jiu-jitsu sempre foi assim… No começo era apenas um esporte. Que eu amava fazer, né? E ainda amo demais! Mas depois ficou maior: o jiu-jitsu abriu meus horizontes, me fez conhecer lugares novos. Como eu disse é uma história de amor.

Andreza

Andreza

Você tem uma rotina muito atarefada? Como você encaixa essa modalidade na sua rotina? Dá tempo de assistir uma série de TV?
– Giu:
A minha rotina até que é boa. Bem calma.  Eu treino duas vezes por dia, estudo de manhã, então está tudo numa boa. E sim: eu vejo uma série! Aliás eu vejo duas: “Grey’s Anatomy” e “Orange Is the New Black”. São muito boas e eu recomendo demais!
Andreza: Eu tenho uma rotina muitíssimo atarefada. Eu não terminei meus estudos. Parei no segundo ano do Ensino Médio. Tenho 22 anos e tive que parar para ajudar a minha mãe. Ela ficou desempregada e com a crise as coisas aqui em casa ficaram bem difíceis, então eu e meu irmão decidimos parar de estudar para ajudar minha mãe em casa.
Eu gosto muito da luta, ela é minha razão de viver, então eu não quis parar de praticar. Estou tentando encontrar uma escola para fazer supletivo porque quero terminar meus estudos e cursar Educação Física.
Mesmo com tanta coisa, de vez em quando, dá tempo de assistir série, sim! Eu chego umas 21:00, 22:00 horas em casa e consigo assistir alguma coisa. Gosto de assistir desenhos, séries, filmes, documentários… Só não me interesso muito por televisão porque acho que a mídia manipula  demais as pessoas. Principalmente usando as novelas…

Giulia

Giu

Você tem amigas que praticam o esporte com você? Se sim, ajuda ter o apoio delas?
– Giu:
Sim, eu tenho amigas que praticam esporte comigo e ajuda muito ter o apoio delas. Muito! Porque vê-las indo aos treinos, se esforçando, motiva bastante, entendeu? É bom!
Andreza: Eu tenho muitos amigos que fiz justamente no tatame. O apoio deles é fundamental porque ajudamos uns aos outros. Como meu professor diz: Somos ferramentas humanas; a gente usa ferramentas humanas. Um segura o material para o outro. Então essa cumplicidade é fundamental. Quando o outro está lutando apoiamos, gritamos. É uma grande motivação pra mim! Eles me ajudam muito e eu também ajudo muito a todos eles.

Você passou por alguma dificuldade para continuar se dedicando ao esporte?
– Giu:
Não, não passei dificuldade. Não, por enquanto… Eu acredito que eu vá passar dificuldades quando eu começar a faculdade.
Andreza: Aah, eu já passei por várias dificuldades para continuar. Eu moro na Vila Portuária. Teve uma época em que minha mãe ia perder o apartamento e eu estava me dedicando pra ir pra um campeonato. Quando minha mãe me contou, isso acabou com meu psicológico e eu nem lutei. Eu só queria correr atrás de dinheiro pra ajudar ela. Já pensei várias vezes em desistir porque o atleta brasileiro não é valorizado aqui. É muito difícil conseguir um patrocinador, entende? Eu já corri atrás de vários.

Quais são suas principais referências femininas na modalidade?
– Giu:
A minha referência no esporte é a Gabi Garcia. Essa mulher é muito top! Deixa eu pensar em quem mais… Gaby Pessanha! Gaby Pessanha é a melhor! Ela me inspira muito!
Andreza: Minhas referências são mais do MMA, do UFC: por exemplo, a Cris Cyborg e a Ronda Rousey, mas eu sou mais fã da Ronda Rousey pela história dela de vida. Da Cris Cyborg não sou tão fã porque nunca parei pra pesquisar, mas da Ronda Rousey eu sou muito fã e eu fico vendo os vídeos dela de motivação, as coisas que ela fala… Ajuda muito e, às vezes, quando eu estou quase pensando em desistir eu assisto um vídeo de motivação com a história de vida dela e me ajuda muito.

Qual o seu maior sonho no esporte? E na vida?
– Giu:
Meu sonho no esporte é ser campeã mundial, campeã no Europeu e campeã do Grand Slam. Grand Slam Abu Dhabi. E na minha vida pessoal meu sonho é estudar muito! Fazer faculdade de direito e concurso para delegada da Federal.
Andreza: Ah, meu maior sonho é virar atleta profissional do WGP que é um evento profissional do kick boxing. Também quero defender um título nas Olimpíadas para o Brasil. Apesar de o nosso país ser muito complicado, não ajudar os atletas, eu quero muito defender um título. Se eu tiver uma oportunidade, já que eu vou aparecer na televisão, vou falar umas coisas para abrir a mente desses políticos. Quando eles tiram do esporte, eles tão tirando um sonho de uma criança, de um adolescente, de uma menina, de um menino que moram em comunidade.
Meu outro sonho é me formar professora de Educação Física.

Qual o recado você daria para as meninas que estão começando agora? Quais dicas você daria a você mesma no início da sua carreira?
– Giu:
O recado que eu daria pras meninas que estão começando agora é: “Pode parecer difícil, mas não desiste. Não desiste! Você vai achar seu grande amor!” Bom e uma dica que eu daria a mim no começo é: “Deixa de ser boba e vai treinar. Esquece isso tudo e vai treinar. Você sabe que você é boa! Você sabe que você pode! Você sabe que você consegue. Vai treinar!”
Foi muito bom participar dessa entrevista porque pra mim é uma oportunidade e poder ajudar as outras meninas é bom demais! Eu sempre quis ajudar e sempre que eu posso eu faço isso. Estando lá, entendeu? Lado a lado ajudando, motivando… Pra mim é muito bom! Aí falar publicamente assim pra mim é uma boa. Muito obrigado pela oportunidade! Agradeço muito muito muito muito muito mesmo!
Andreza: O recado que eu tenho pra elas é para não seguirem o meu caminho, né ? Parar de estudar, por exemplo… Isso foi uma consequência da vida, né? Infelizmente, aconteceu. Minha mãe perdeu o trabalho e eu tive que parar de estudar para ajudar a sustentar a casa. Como eu gostava muito do esporte eu preferi o esporte a estudar. Desejo que o esporte as ajude. Que pratiquem pensando na saúde delas, no bem estar. E também se qualquer marmanjo assim quiser também tentar agredi-las que elas possam usar das artes marciais pra se defender.

Daiane Cardoso
  • Colaboradora de Artes

Nasceu em São José do Rio Preto e escolheu estudar Museologia no Rio de Janeiro. (Quase) formada em Comunicação Social pela UFRJ gosta de dança, pintura, poesia e seres fofinhos. Sonha em ser pesquisadora, mas não consegue parar quieta em um tema; para saber o dessa semana só perguntando mesmo.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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