1 de junho de 2015 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Izadora Luz
Mad Max: estrada da fúria feminista

Quando resolvi ver Mad Max: estrada da fúria (Mad Max: Fury Road, 2015) nos cinemas, no dia 15 de maio, eu estava querendo apenas um pouco de diversão, no pós-trabalho, de uma sexta-feira super cansativa. Surpreendente e felizmente, não foi somente isso que aconteceu. Esse filme é a coisa mais maravilhosa que o mundo de filmes de ação poderia ter feito nesse ano de 2015.

Vi partes dos outros Mad Max quando criança, mas achava tudo muito louco e, infelizmente, ainda não consegui revê-los para comparar com a quarta parte lançada dessa franquia, então tudo o que você vai ler aqui é referente ao último filme lançado.

 

[ATENÇÃO, ESSE TEXTO CONTÉM SPOILERS E MUITA EMPOLGAÇÃO FEMINISTA, NÃO CONTINUEM SE NÃO ESTIVEREM PREPARADOS] [EU AVISEI]

 

Tudo começa com uma cidade extremamente caótica, onde poucos detêm o poder enquanto muitos sofrem com a falta de itens de necessidade básica (não muito diferente do que já vemos hoje em dia em muitos lugares, certo?). Aqueles que são donos da água, Immortan Joe e seus inconsequentes e leais War Boys (Garotos de Guerra, em tradução livre), trazem o pão e circo para a Citadela, se mostrando maravilhosos por dar água aqueles que precisam. Além disso, a Imperadora Furiosa – ou a melhor coisa já inventada por essa franquia -, retratada pela maravilhosa Charlize Theron, trabalha para Immortan Joe, como uma de suas ‘capangas’. Ela sai em busca de gasolina, em uma cidade próxima, com sua própria equipe de guerreiros, numa das Máquinas de Guerra desse império pós-apocalíptico.

Enquanto isso, somos reapresentados a Max. O personagem que outrora era trazido à vida por Mel Gibson, desta vez foi animado por Tom Hardy. Max, fora da lei que vive em ritmo de fuga, troca meia dúzia de palavras durante o longa (o que não é de todo ruim, visto que as ações falam mais por ele do que palavras falariam). Por ter sangue doador universal, ele vira uma “bolsa de sangue” para os guerreiros de Immortan logo após ser capturado.

O que não sabemos até então é que Furiosa Maravilhosa está, na verdade, em uma missão própria. Dentro de sua Máquina de Guerra, ela leva secretamente todas as cinco esposas de Immortan. Mulheres que tiveram sua liberdade extirpada e servem somente como esposas-troféu e parideiras do agressivo governante da cidade (como elas são importantes, são um pouco bem mais cuidadas que as outras pessoas). A ideia é chegar até o Vale Verde, um lugar onde supostamente todas as mães e mulheres têm uma vida boa sem serem incomodadas por homens. Ou seja, o paraíso feminista.

Cortando o papo de contar a história tintim por tintim, vou passar pelos maiores detalhes que fazem desse filme um amor completo. Em determinado momento do filme, as histórias de Max e Furiosa se cruzam e eles decidem que o melhor a fazer é ficarem juntos. Max ao encontrar as mulheres, ao passar um tempo com elas, finalmente entende o problema que as fazem fugir. Vê que as mulheres vivem como escravas sexuais e que ele, por viver foragido, também entende a necessidade de fugir de tudo. Antes disso, ele só compactua com a fuga por ser a melhor opção para ele.

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Mesmo levando o nome do filme, Max acaba se tornando um personagem de certa forma secundário no passar do filme. O roteiro que mostra um Max foragido, que não pode ser pego, não funciona mais ali. Entende-se que a maior questão do filme, é levar as mulheres a um lugar onde elas se sintam bem, se sintam seguras, que estejam longe daqueles homens que a tratam como nada mais que máquinas de fazer herdeiros, ficar o mais distante possível daqueles que as objetificam.

 

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A missão principal do filme é fazer com que as mulheres cheguem até o local onde não correrão mais riscos de vida. Max se torna um aliado importante, mesmo que Furiosa, obviamente, não confie muito nele a priori. Max e Furiosa são retratados no filme como igualmente capazes de tocarem o terror e defenderem as esposas de tudo. São poucos os filmes que eu posso dizer que me mostraram exatamente isso até agora. Mas ter um filme de teor tão “masculino”, por assim dizer, mostrando isso é um passo muito grande dentro da indústria cinematográfica.

Max também vê Furiosa como sua igual. Ele percebe que não existe nada que faça aquela mulher ser ou parecer mais fraca que ele. Isso é muito importante de ser visto num filme de ação. Numa indústria onde geralmente as mulheres só aparecem para serem salvas ou para mostrarem seu corpo de biquini ou seminu e serem consideradas troféus, é realmente um passo grande estarem sujas de graxa, carecas e lutando (e diga-se de passagem que Charlize está mais que demais de linda careca e toda suja de graxa).

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Um dos pontos altos do filme para mim em matéria de reconstrução de parâmetros é uma cena na qual as esposas estão finalmente fora do caminhão que Furiosa dirige, antes mesmo de Max aparecer na vida delas. Elas estão seminuas, com pedaços fluidos e curtos de roupa, tomando um banho e tirando cintos de castidade, colocados lá, provavelmente por Joe, para que ninguém pudesse penetrá-las a não ser ele.

Vi diversos homens no cinema, respirarem e fazerem comentários que diziam “agora sim”, já que as mulheres estavam seminuas e molhadas. O que a maioria das pessoas, principalmente ozomi, não atingiram é que, pra mim, isso foi uma chacota do próprio diretor às cenas similares em diversos outros filmes. Aquela cena não parecia ser para “seduzir”, parecia apenas zombar toda uma concepção cinematográfica já entranhada na nossa sociedade.

 

foto 5

 

Eu poderia ficar falando por horas sobre como eu amei a construção desse filme. O roteiro, o feminismo, a fotografia, a trilha sonora, os efeitos visuais… Mas o importante mesmo é saber o quanto esse filme pode estar sendo um divisor de águas entre o entendimento de que filmes de ação são para homens e que filmes de ação são para todos.

 

Obs: Os memes foram um oferecimento do tumblr Feminist Mad Max.

Nathalia Valladares
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora

Sol em gêmeos, ascendente em leão, marte em áries e a cabeça nas estrelas, Nathalia, 24, é uma estudante de Design que ainda nem sabe se tá no rumo certo da vida (afinal, quem sabe?). É um grande paradoxo entre o cult e o blockbuster. Devoradora de livros, apreciadora de arte, amante da moda, adepta do ecletismo, rainha da indecisão, escritora de inúmeros romances inacabados, odiadora da ponte Rio-Niterói, seu trânsito e do fato de ser um acidente geográfico que nasceu do outro lado da poça. Para iniciar uma boa relação, comece falando de Londres, super-heróis, séries, Disney ou chocolate. É 70% Lufa-Lufa, 20% Corvinal e 10% Grifinória.

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