18 de outubro de 2014 | Ano 1, Edição #7 | Texto: | Ilustração:
A magia da infância
Ilustração: Clara Browne.

Ilustração: Clara Browne.

Tem um modo de fazer massinha com elementos orgânicos. Faço muito nas festas que trabalho. A massinha caseira é fácil, leva farinha, sal, gelatina e água. Mas qual é a graça de mostrar para todas as crianças que na festa há estes elementos, que para elas servem para alimentação? Eu floreio, digo que a farinha na verdade é areia da praia da Pequena Sereia, que o sal na verdade é pó de estrela — e que, se o salão estiver todo desligado, aquele pote de plástico brilharia bastante —, que o pó de gelatina é pó de fada e que a água eu busquei no fundo do mar onde o Nemo mora. Não é incomum uma criança de mais ou menos 4 anos vir contente até a sua mãe dizendo que aquela massinha é mágica e é feita com elementos mágicos. Mas não posso fazer isso com criança de qualquer idade. Se têm 6 anos ou mais, já me interrompem indignadas me contando que na verdade aquilo ali é farinha e a Pequena Sereia não existe.

Quando tínhamos menos de 6 anos, não sei se vocês se lembram (para algumas faz muito tempo, para outras menos), tudo parecia mágico. Se um adulto pegasse um cone de plástico, enfiasse na mão e fizesse barulho de pato, com certeza criaríamos nas nossas mentes — livres das verdades do mundo —, uma imagem de um pato. Por que não seria? O bico é igual, o barulho também… Quando alguém pega um boneco, coloca a mão dentro e começa a mexer a boca, por que aquilo ali não poderia ser uma pessoa de verdade, ainda que meio estranha? Para o psicanalista Winnicott, as crianças brincam e usam o lúdico para entender melhor a realidade (por isso existem os contos de fadas), e é por isso que é tão importante que as crianças brinquem bastante. Mas e quando paramos de ver magia em tudo e começamos a não concordar quando alguém diz que tal coisa é daquele jeito, se tal coisa falada não é a vista?

Não é que quando a gente tinha 6 anos não brincávamos como quando a gente tinha 4. Mas o Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa já não são mais reais. São criações de nossos pais e a gente sabe disso. Ou se não sabe, alguém vai nos contar. E toda aquela construção lúdica que tínhamos sobre tal coisa é desconstruída. E, a partir daí, tudo começa a ser real.

E se o fantoche era algo tão real, passa a ser chato. E se quando com 3 anos, ao pegar um pincel e colocar no papel, um monte de rabisco e mistura de cores na verdade são histórias supercomplexas — faça o teste: pergunte a uma criança de 2 a 3 anos o que ela está desenhando. Vocês vão ouvir as melhores histórias, em cima de um monte de rabisco colorido sem nexo nem forma —, aos 6 já são pintados elementos figurativos — casa, árvore, sol, flor, você, mamãe, papai, irmão, frutas na árvore. E se você perguntar o que é, a criança vai te responder que é a família dela. Assim, ao passar dos anos, o real toma conta do lúdico e, de alguma maneira, tudo parece bobo.

Mas nós não perdemos por completo toda a magia que tínhamos na infância. Muitas pessoas ainda mantêm o lúdico em suas cabeças, porém com um toque de realidade. Por que não agora, que sei como desenhar uma pessoa, desconstruir esta pessoa e colocar o nariz, que normalmente no meio dos olhos, no meio da testa? Isso é criatividade, isso é não respeitar a realidade, isso é mostrar ao mundo como enxergamos.

Mas nem toda pessoa que é criativa é artista plástica. Muitos são engenheiros, médicos, contadores de história, matemáticos, advogados. A criatividade não é restrita a uma classe profissional. Quando você está na aula de português e desenha no caderno, você está saindo da realidade (que é a aula) e praticando a magia de pegar uma caneta de tinta azul e desenhar coisas sem lógica. Ou quando conhece uma pessoa e começa a imaginar circunstâncias aleatórias com ela, isso é você praticando o lúdico e a magia (as situações) de algo que é real (a pessoa, o lugar, as roupas da sua imaginação).

Perdemos aquela magia inicial, onde um objeto inanimado na verdade tem sons, história e lógica para termos outra magia, aquela da nossa imaginação, de conseguir ver cor onde ela fica escondida, de aproveitar um dia ensolarado só porque tem um sol. Somos todos criativos. E a nossa magia é renovada a partir do momento em que ela é somada com a realidade. Mas, para finalizar, um conselho: não deixem que a realidade tome conta totalmente das suas mentes. Isso é algo comum na nossa fase adulta. São as obrigações, que vocês não têm agora, mas terão quando forem adultas. Contas, filhos, casamento, trabalho, etc. etc. etc. Não deixem que isso tire de vocês, ainda jovens, toda a magia que tem a vida!

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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