6 de outubro de 2014 | Edição #7 | Texto: | Ilustração:
A magia da nostalgia
Ilustração: Dora Leroy.

Ilustração: Dora Leroy.

Abro o armário e vejo aquela casinha de bonecas; o cheiro da madeira me invade em um instante. Sento-me na frente dela, sentindo o cheiro – fecho os olhos. Sinto uma franja crescendo sobre a minha testa, minha calça jeans se transformar num vestido rodado e a camiseta se estampa com um ursinho azul. Passo alguns segundos com os olhos fechados e não tenho memórias tão concretas, apenas alguns flashes e sensações. Aquele sentimento de nostalgia começa a brotar: sinto um nó na garganta e as lágrimas pressionando meus olhos, mas eu não vou chorar. Nostalgia não me faz chorar. Faz meu coração bater em um ritmo diferente, não sei se mais rápido ou mais devagar do que o normal, e o tempo fica turvo, assim como a minha visão. É como se, durante um tempo, eu vivesse em dois universos simultaneamente. Meu quarto, logo, se transforma no quintal da casa da minha avó, o cheiro de madeira se mistura ao cheiro de limpeza e talco, com um toque de cigarro lá no fundo. Ouço a voz de algum primo e a risada da minha irmã, enquanto ela abre A Casinha.

No quintal, meu tio chuta a bola na minha direção. Eu, ainda sentada na casa em que moro hoje, me movimento rapidamente para a esquerda para defender a bolinha de tênis que usamos como bola de futebol. No instante em que ela toca minha mão – defendi! – sinto no meu nariz a dor daquela bolada que eu levei enquanto estava no gol da quadra do prédio em que eu morava; ecoa em minha mente as palavras que eu falei naquela noite, a voz ligeiramente alterada pelo choro: “não quero mais jogar, vamos ouvir música”. E alguma música do Green Day, que eu não consigo identificar – eram tantas as que a gente ouvia! – ressoa na minha cabeça. A voz que eu ouço não é a do vocalista, mas as dos meus amigos, todas juntas. E, de repente, ouço uma mistura de todas as músicas que ouvíamos naquela época. Se misturam Avril Lavigne e Aerosmith, Pitty e Silverchair. Cada uma das músicas é trilha sonora para cada momento, que, ao mesmo tempo, são tão claros e tão confusos em minha mente. Mas a música que ouço é bruscamente interrompida porque uma das vozes para de cantar e diz que todos nós deveríamos voltar para a quadra, porque ia começar uma rodada de taco. Logo, estou com um taco na mão e, em vez de acertar a bolinha, acabo acertando o chão, o que faz com que venha até mim o cheiro da madeira de que ele é feito. Neste momento, acordo do meu segundo ou dois de rememoração.

Abro os olhos e vejo A Casinha de Bonecas; o cheiro de madeira vem dela. Estou na minha casa, calça jeans e blusa branca, cabelo preso, longe do rosto – fecho o armário. Sinto fechar também o coração, bem fechado, para as lembranças não me escaparem, bem quente também. Passo alguns segundos olhando para o horizonte, memórias concretas, flashes e sensações. Tudo isso, só por olhar para A Casinha. Mais do que alguns bonecos de pano e móveis de plástico em miniatura, quem diria que ela guardava tantos momentos.

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Já reparou que às vezes as coisas mais inesperadas nos passam essa sensação de nostalgia?
Aqui vai uma listinha de coisas que me fazem sentir nostálgica além da nossa já conhecida Casinha.

  • O CD Let Go da Avril Lavigne (foi o primeiro que eu comprei! e dancei ao som dele na cama dos meus pais como se não houvesse amanhã), principalmente a música “Losing Grip”, não me pergunte o porquê.
  • O site Dolls.com.br
  • A série O mundo é dos jovens (recomendo fortemente)
  • A música “I Feel So” do Box Car Racer (esse é um exemplo de coisa inesperada que me passa essa sensação)
  • A casa dos meus avós no Guarujá
  • Qualquer jogo de Mega Drive (para as mais novinhas, é uma plataforma de videogame bem velha)
  • As músicas “Homecoming” e “Letterbomb” do Green Day
  • O toque de mensagens de um celular antigo meu
  • Crianças chorando

E você, o que te faz sentir nostálgica? Como é essa sensação para você? Conta pra gente nos comentários! 🙂

Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia, 23 anos (mas todo mundo acha que ela tem 13), feminista interseccional e estudante do último ano de direito. Talvez queira seguir na área, mas seu sonho de verdade é ser cantora e escritora. Se bem que, se fosse possível, largava tudo isso e se tornava Mestre Pokémon pra ontem.

  • Fernanda Rebello

    nossa… dolls.com.br! Só não supera neopets e o site do cartoon network

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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