14 de outubro de 2014 | Ano 1, Edição #7 | Texto: | Ilustração:
A magia da transformação
Ilustração: Isadora M.

Ilustração: Isadora M.

É um pouco engraçado começar um texto de título aparentemente tão contraditório: para mim as transformações parecem coisas das mais naturais do universo. Nas séries Cosmos, por exemplo, tanto a original quanto a segunda versão, feita esse ano, Sagan e DeGrasse-Tyson não cansam de dizer que somos todos feitos de coisas de estrelas. Esses “berçários-incendiários” do universo vão criando todas as combinações de átomos mais complexas dos quais são feitos, e assim acontece com tudo que existe no universo! E depois disso, de criar todas essa complexidade de elementos que conseguiu se juntar das mais diversas formas e formar todos os planetas de todas as galáxias, a nossa estrela mãe, o sol, ainda fornece toda a energia de que os habitantes do nosso planeta precisam. As plantas transformam essa energia solar em glicose e são a base da cadeia alimentar de todo o planeta que vai transformando essa energia na energia que cada ser necessita pra viver.

Também a teoria genética neodarwinista, ao explicar as mutações genéticas, a seleção natural e fazer a árvore evolutiva, diz ela que tudo que qualquer ser vivo virou desde o surgimento da primeira bactéria foi consequência de uma série de transformações de código genético e de clima, as quais geraram e destruíram diversos tipos de seres, selecionando os mais bem adaptados.

E não é só isso. Nós não só nós transformamos de átomos de hélio e hidrogênio em átomos mais complexos, ou de átomos em proteínas, e proteínas em células, e de bactérias em seres humanos. Também cada ser humano – ou até não humano (mas isso fica pra outro texto) – está sempre em constante transformação. De bebê a criança, de criança a adolescente, de adolescente a adulto, de adulto a mais adulto ou a adulto madura  e depois a idoso. Também de filha única a irmã mais velha, às vezes de melhor amiga de Maria, ou Carolina, a menina sozinha e sem amigos na escola nova. De adolescente a mãe-adolescente. De namorada a solteira, ou de solteira a namorada. De “peitos? ãhn?” a “PEITOS!! já tenho 14 anos e por que vocês não crescem!?!?” Vixi, de tanta coisa…

De fato, as transformações nada têm de mágico, elas simplesmente acontecem por que isso faz parte da vida, da natureza, do cosmos. Mas há uma coisa que as transformações naturais precisam – e BASTANTE – de tempo. Das primeiras estrelas até às segundas estrelas, até o planeta até nós, o número de anos, ou ainda milénios necessários, tem tantos zeros que eu nem sei escrever, é algo estimado entre 15 e 20 bilhões de anos. Já da primeira bactéria até nós, é um tempinho a menos, algo em torno de 4 mil milhões. Ainda bastante tempo em comparação a uma vida humana. Já com magia, as fadas, bruxas e magas conseguem transformar uma abóbora em carruagem no tempo de um “Bibidi-Bobidi-Bu”!

O grande barato da mágica é que ela transforma em pouco tempo, quase instantaneamente. E é isso o que a gente acha fascinante.

Eu lembro de durante a minha infância assistir ao desenho Os padrinhos mágicos e morrer de vontade de ter uma fada madrinha também. Eu tinha várias coisas na vida que eu queria que fossem transformadas. Aos sete, quando estava entrando na escola nova e tive problemas de adaptação eu desejava intensamente que, num passe de mágica, todo mundo virasse meu amigo, como era na escola anterior. Aos 12, quando durante a puberdade meus cachos ficaram descontrolados, ai, como eu queria que eles magicamente virassem cabelos lisos. Aos 15, como eu não queria que meus peitos magicamente crescessem. Dos 12 aos 18, quando eu entrei em várias paranoias com peso e tive um começo de transtorno alimentar, como eu não queria magicamente pesar 20 ou 30 kilos a menos do que eu peso hoje em dia. E como eu não me frustrei por que todas essas transformações ou não ocorreram ou levaram muito mais tempo para acontecer do que eu o tempo que eu desejava para sua realização.
Hoje avalio os peitos, os cachos e o peso. Bom o peito de verdade não mudou nada. Os cachos mudaram com progressiva e o peso mudou bastante, mas – ainda bem – não tão drasticamente como eu ansiava no passado. Mas com o tempo outras coisas mudaram, eu aprendi que tudo bem ter o peito pequeno como eu tenho. Eu passei a entender que meu peso é super razoável e que não valia a pena arriscar minha vida pra ser mais magra. E eu passei a gostar dos meus cachos e tirei toda a progressiva.

Já na escola, levaram quatro anos pra eu finalmente ser aceita por todo mundo, e quando essa época chegou eu percebi que eu não tinha mesmo muito a ver com aquelas pessoas, eram outros valores, outros interesses, e daí eu decidi mudar de escola. E na nova escola encontrei pessoas que se importavam menos com o tipo de celular e mochila que cada um tinha e mais com como cada um era num nível mais pessoal. E deu tudo certo.

Hoje em dia ainda continua tendo muita coisa que eu acredito que eu preciso mudar em mim: preciso de mais coragem pra virar pra pessoa que eu gosto e dizer “ei, eu gosto de você <3"!, de mais disposição pra passear com meus cachorros todo dia, de mais velocidade, ou tempo, pra conseguir dar conta de ver todos os meus amigos antigos, estreitar as relações com meus amigos novos, fazer minha faculdade, escrever pra Capitolina, arranjar mais trampo com cenografia, fazer cursos, viajar pra paia de vez em quando e ainda tem família e amor e cachorros e ai, ai... Mas eu sei que essas transformações vão ocorrer, aos poucos, levando tempo, mas vão e eu vou continuar crescendo e melhorando. Acho que transformação mágica e importante acontece em nossa vida quando a gente entende que todas essas coisas que nós queremos muito, mas muito mesmo, que se transformem e que desesperam a gente por não se transformarem, ou o contrário, quando por exemplo virar mãe, ou irmã mais velha, ou ter os pais se divorciando, e na verdade as transformações ocorrem e nós desejamos muito que assim como a princesa pode reverter o feitiço do príncipe e desmetamorfoseá-lo em sapo, que fosse simples assim desfazer as mudanças que invadem nossa vida. Mas o que realmente precisamos é transformar a nossa visão e ver que de cada incômodo que surge na nossa vida vem junto algo a se aprender. Aprender a se aceitar, aprender a aceitar os outros, a ser menos egocêntrico e egoísta. Aprender a ver que o que a gente precisa mudar não é uma coisa objetiva em si e sim a nossa subjetividade, afinal, talvez a Cinderela fosse muito mais feliz se, em vez de a madrinha dela ter transformado todas as suas vestes e utensílios pra que ela conseguisse ir naquele baile, apenas tivesse feito ela entender que se ela cozinhava, arrumava e passava, ela podia muito bem pegar um emprego básico em algum outro lugar, largar aquela família malvada dela e depois de juntar algum dinheiro abrir um próprio negócio como estilista, talvez, ora, ela tinha até a ajuda dos pássaros e ratinhos!

Maísa Amarelo
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Ilustradora

21 anos, cursando o primeiro de design. Pras coisas que não gosta de fazer, inventa um monte de regras. Já as que gosta - como cozinhar - faz sem regra nenhuma. É muito ruim com palavras, ainda assim resolveu escrever sobre suas receitas que, em geral, não tem medida alguma.

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