19 de maio de 2014 | Ano 1, Edição #2 | Texto: | Ilustração:
Primavera fora de época
Ilustração: Verônica Vilela.
Ilustração: Verônica Vilela.

Ilustração: Verônica Vilela.

 

Sabemos por princípio que a vida nunca é fácil e os tempos são sempre difíceis. Ouvimos isso de nossos pais, professores, amigos, colegas e sem perceber nós mesmas já estamos propagando frases como “não tá fácil pra ninguém”. E é exatamente por saber disso que somos utópicos.  Precisamos ser, porque não há outro jeito. Nessa vida, a utopia é uma necessidade.

Essa palavra, na verdade, vem do grego: u: “não” e topos: “lugar”. Assim, “utopia” pode ser considerado exatamente aquilo que nunca alcançaremos, pois, em seu sentido literal, é a negação do espaço. Apesar disto, durante gerações e mais gerações, os jovens saem às ruas em busca da utopia. Mas para que procurar a utopia se a própria palavra nos leva a um não-lugar?

Em uma entrevista, o pensador Eduardo Galeano conta a resposta que escutou do cineasta Fernando Birri quando lhe perguntaram para que serve a utopia. Sua resposta foi que a utopia serve para caminhar. Se nossos antepassados não tivessem saído às ruas em busca de seus sonhos de mundo ideal, as mulheres provavelmente até hoje vestiriam espartilhos, saias longas e seriam proibidas de usar calças, ainda haveria regras que declarassem (e legalizassem) evidentemente o racismo contra os negros e negras, o autoritarismo continuaria talvez em formas de ditaduras e repressões de pensamentos e atos. Assim, mesmo que concordemos que o mundo em que vivemos não seja o mundo ideal, não há como discutir que muitas coisas melhoraram muito de antigamente para cá.

E foi com este pensamento de buscar alcançar a utopia que, nos anos 60, jovens de todo o mundo se rebelaram e foram às ruas de maneira que não houvesse outra solução: seria imperativo que os escutassem.

Para entender estes jovens, porém, é importante saber do que se passava na época. O mundo vivia a Guerra Fria, com tensão e medo de que o capitalismo ou o socialismo se expandissem (dependia de que “lado do mundo” cada país estivesse). O receio de uma guerra nuclear entre Estados Unidos (capitalista) e União Soviética (socialista) era constante. Nos Estados Unidos, o governo mantinha uma guerra impossível contra o Vietnã, a segregação dos negros se tornava cada dia mais insustentável. Na América Latina, inúmeras ditaduras eram implantadas (muitas com ajuda de grandes potências, como os Estados Unidos), se fortificavam e aumentavam cada dia mais sua repressão. Lutas por independência das colônias africanas (como Angola, Unganda, Argélia, Botswana etc) começaram a surgir. Constrói-se o muro de Berlim. As evidências do autoritarismo, o qual era cada dia mais abusivo, se mostrava em todos os cantos do mundo: da França à Indonésia, da Tchecoslováquia ao Brasil.

Cansados deste abuso, sentindo-se excluídos, injustiçados e reprimidos, os jovens decidem, então, ir às ruas em protesto. Em maio de 1968, em Paris, os estudantes da principal universidade francesa entram em confronto pela primeira vez com a polícia, começando o movimento que mais tarde veio a se tornar – tão conhecido e inspirador – o Maio de 68. A repressão que sofreram foi forte, mas isto apenas fez com que mais pessoas insatisfeitas se juntassem à luta por liberdade. Frases de protesto tomavam todos os muros da cidade, as ruas haviam sido tomadas por barricadas, Paris especialmente era um campo de guerra entre estudantes e policiais – e lemas como “sejamos realistas, exijamos o impossível” se perpetuaram nesta época. Uma greve geral foi instaurada em diferentes setores da população, por todo o país, e calcula-se que quase dois terços dos trabalhadores franceses aderiram a esta greve.

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“Sejam realistas, exijam o impossível” – muro pichado em Paris durante as manifestações de Maio de 1968.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, as manifestações contra a Guerra do Vietnã tinham cada vez mais adesão. Os jovens tinham um discurso pacifista e, com o lema de paz e amor, tomaram a decisão de excluírem-se daquela sociedade que achavam hostil e sem sentido, e criaram comunidades alternativas, onde a paz, o amor livre e as drogas reinavam. Para eles, a sociedade de consumo não fazia sentido. Estavam à margem da sociedade – e assim decidiram assumir e se unir. O movimento hippie tomou forma e se espalhou pelo país, mas eles não eram os únicos a protestar contra o governo estadunidense.

O racismo institucionalizado e legalizado também já estava com seus dias contados. Na verdade, desde 1955, quando a negra Rosa Parks foi presa por se negar a ceder seu lugar no ônibus a uma branca, o movimento de direitos civis dos negros explodiu com força. Nomes como Martin Luther King, Malcom X e Os Panteras Negras se tornaram essenciais para esta luta. Este foi, sem dúvidas, um dos movimentos mais importantes da época (e por causa disso, a Capitolina lançará uma matéria somente sobre ele ainda nesta edição).

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Protestos contra a Guerra do Vietnã, nos Estados Unidos

No Brasil, o movimento da Tropicália era lançado. Se a repressão da ditadura assustava marchar na rua, nossos rebeldes decidiram ocupar as rádios e vitrolas. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Os Mutantes, Tom Zé… Todos prontos para Com misturas de ritmos, instrumentos e principalmente de o que era sério e o que era ironia, os tropicalistas revolucionaram nossa cultura com suas críticas e louvações ácidas o suficiente para nos deixarem em dúvida de qual parte era o quê.

Mas não pensem que a repressão vinha apenas do lado capitalista. Na Tchecoslováquia, os jovens se rebelaram contra a opressão do governo, que, da mesma forma como nos outros países, proibia o livre pensar. A luta estourou de tal forma que este período ficou conhecido como a Primavera de Praga, quando os jovens conseguiram que o partido comunista cedesse à construção de uma Assembleia Nacional democrática que reuniria todos os segmentos da sociedade. Além disso, haveria uma revisão da Constituição para que as liberdades dos cidadãos fossem ampliadas.

Era essa a palavra! A palavra de desordem: Liberdade. De norte a sul, leste a oeste, era para isso que o mundo lutava. As mulheres pediam liberdade – para usarem as roupas que quisessem, para poderem trabalhar e serem mães se quisessem, para não sofrerem os abusos machistas fossem nas ruas fossem nas revistas ou nas propagandas. Os negros pediam liberdade – para andarem na rua sem sofrerem preconceito, para poderem partilhar do mesmo espaço que os brancos, para terem empregos dignos e salários bons, para não serem julgados pela cor de suas peles. Os homossexuais pediam liberdade – para não serem violentados, para poderem viver com seus parceiros e serem reconhecidos pelo Estado. Os colonizados pediam liberdade – para terem um país independente, um país para chamarem de seu, para governarem. Os estudantes pediam liberdade – de pensamento, de escolhas de vida.

Muitas destas demandas não foram completamente resolvidas – o machismo, o racismo, a homofobia permanecem – mas não há como negar que caminhamos. Pois a utopia serve para isso: para caminhar.

Sabemos que ainda há muito a fazer, que há muito o que sonhar. Não é à toa que em 2011 surgiu o movimento Occupy Wall Street, que começou com a crise imobiliária nos Estados Unidos. O movimento de ocupações se espalhou por diversos países, como Inglaterra, Espanha e até mesmo Brasil. No Chile, os protestos a favor de um Ensino Superior público gratuito de qualidade ganharam forças. Tivemos a Primavera Árabe – que começou com um homem pondo fogo em si mesmo na Tunísia e se expandiu por diversos países. A juventude grega também pegou fogo, por causa da crise econômica que afetou seriamente o país, deixando os jovens sem perspectivas de emprego. No Brasil, as manifestações dos povos Guarani-Kaiowá também foram fortes, assim como os protestos de junho de 2013, quando a população de diversos estados foram para a rua em protesto e foi repreendida violentamente pela polícia.

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Jovens tomam o Planalto Central, em junho de 2013, no Brasil

Assim seguimos em busca de nossa utopia. Saindo na rua quando não é carnaval, vestindo fantasias durante gerações, fazendo de nossos sonhos um pouquinho da realidade. Aos poucos, vamos perpetuando algumas ideias: faça amor, não faça guerra; é proibido proibir. Pois nós temos sonhos. Pois somos todos realistas, exigimos o impossível. Exigimos e exigiremos sempre mais primaveras foras de época.

Algumas dicas para saber um pouco mais sobre os anos 60:

Filmes:

– Os Sonhadores

– Hair

– Histórias Cruzadas

– Hairspray

– Uma noite em 67

– Across the Universe

– Loucuras de uma Primavera

– Zabriskie Point

– Terra em transe

Álbuns:

– Tropicália; Caetano Veloso

– Panis et Circencis; Os Mutantes, Tom Zé, Gal Costa, Caetano Veloso, Torquato Neto e Gilberto Gil

– White Album; The Beatles

– The Freewheeling’ Bob Dylan; Bob Dylan

– Clube da Esquina; Milton Nascimento e Lô Borges

– Nefertiti; Miles Davis

 

 

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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