5 de março de 2015 | Edição #12 | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Manual da piração criativa

“Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução.” (Walter Benjamin)

A epígrafe deste texto é uma das citações mais famosas do filósofo alemão Walter Benjamin, e não é um conceito muito difícil de sacar: o que Benjamin quer dizer é que é preciso um método pra tudo, inclusive para coisas aparentemente caóticas, como se perder. Ao chamar atenção para o fato de que saber navegar é mais fácil do que se perder (normalmente a gente pensaria o contrário), Benjamin coloca um sinal de positivo na segunda empreitada, dando a entender que este é um comportamento desejável de todos os que pensam criticamente. Encontrar-se é fácil – somos programados pra isso. Andamos por aí memorizando caminhos e otimizando o nosso tempo. Só que esse tempo e esses caminhos do cotidiano são mecânicos e, apesar de muita arte bacana ser produzida sobre o que há de singelo e bonito no cotidiano, é preciso pelo menos mudar o ponto de observação para que se entenda o que vale ou não à pena transformar em arte.

Relendo essa citação pra escrever este texto eu pensei muito no filme Caminhos da floresta (Into the Woods) – todos os personagens são atraídos para a floresta por um desejo, e todos passam por situações complicadas e definidoras ali, para só então resolverem seus conflitos. Esse flerte entre arte, desejo e loucura sempre existiu, tanto que daí surgiram vários estereótipos, como o “gênio incompreendido” e o “artista excêntrico”. Mas é claro que não é preciso enlouquecer de verdade para produzir, assim como também deve estar claro que a arte derivada da loucura real é tão legítima quanto aquela produzida por pessoas ditas sãs.

O que eu queria que ficasse claro desde já é que eu não estou sugerindo que você se coloque em situações emocionalmente arriscadas ou difíceis em prol da criatividade, apenas que produzir arte é um processo intenso de autoconhecimento, e que entrar em contato com alguns aspectos menos superficiais da sua personalidade é um caminho (!) para liberar os processos criativos.

Posto isso, se é método que Benjamin quer, é método o que darei a vocês. O título provisório desta pauta era “Seguindo o coelho branco”, uma alusão à cena de Alice no país das maravilhas em que a nossa heroína é atraída para um buraco no meio da floresta (olha a floresta aí de novo) por um coelho branco atrasado e falante. É deste momento em diante que Alice sai do terreno seguro de seu jardim e vai parar no mundo caduco e maravilhoso dos sonhos, então comecemos por aí:

Sonhe mais e melhor. Eu mesma já dei alguns conselhos sobre sonhos lúcidos na coluna de FVM e Culinária, e há mil dicas espalhadas pela internet sobre como controlar mais os seus sonhos. Leia sobre assuntos interessantes antes de dormir, tenha sempre um caderninho na mesinha de cabeceira e experimente dormir à tarde no sofá quando puder – pra mim essas sonecas sempre trazem à tona os sonhos mais interessantes. Quanto mais você se esforçar pra lembrar dos sonhos, mais vai lembrar. É um exercício tanto quanto o alongamento.

Entre em contato com a natureza. A floresta não é uma metáfora para os desejos escondidos à toa. A natureza tudo sabe e tudo vê. Não precisa colocar o seu pescocinho em risco, mas se você tiver acesso a uma fazenda, a parques ou até mesmo a grandes jardins, organize (com segurança, avisando seus pais ou amigos o que você está fazendo) imersões solitárias a esses lugares, passe longos períodos de tempo ali e enfrente os medos que porventura venham a aparecer.

Altere seus estado de consciência com coisas saudáveis. Esforços físicos de alta intensidade, como a corrida, produzem descargas de endorfina e outros hormônios que podem mexer com a sua percepção das coisas, assim como a meditação, quando realizada com disposição e afinco.

Coloque-se em situações adversas. E por adversas eu não quero dizer perigosas, mas incômodas pra você, diferentes do habitual. É um clichê, mas sair da zona de conforto realmente é importante às vezes, mesmo que você volte correndo pra ela depois. Nós reagimos mais espontaneamente quando estamos deslocados, e são essas reações em momentos esquisitos que deixam aflorar nossos verdadeiros impulsos. Além disso, é possível que você acabe fazendo algumas amizades no processo.

Frequente um psicólogo/analista e/ou converse abertamente sobre a sua vida com alguém. Muitas das coisas que temos vergonha até de imaginar povoam também as cabeças de nossos amigos sem que nunca nem saibamos, simplesmente porque estamos acostumados a esconder tudo que julgamos ser social e moralmente inaceitável. Vide o sucesso de Cinquenta tons de cinza, por exemplo. Só que se você não fala sobre essas perversões, não entende de onde elas vêm, então não vai nunca descobrir como desdobrá-las e superá-las.

Perca a vergonha. Nem que seja só um pouquinho. Perder a vergonha tem a ver com autoconfiança e com perder o medo do que os outros podem e vão pensar de você. Ser taxada de “diferente” ou “meio maluca” não deve nunca ser motivo de vergonha. A Taylor Swift recebe esses adjetivos todos os dias, vindos dos mais diferentes lugares, e ela é o que? Aham, extremamente criativa. A vergonha e a insegurança são as duas grandes travas da criatividade, e perdê-las requer insistência, paciência e método. Comece pequeno, falando mais na sala de aula, pensando alto. Não espere que a resposta pra uma pergunta esteja 100% formulada na sua cabeça pra levantar a mão e pedir pra responder. Comece a falar, a raciocinar, e vá entendendo o que acha no processo. Você é um ser pensante, e realmente não existe resposta certa. E dance, dance muito – dançar ajuda sempre.

Acho que é isso. Deixo vocês com essa versão de “Crazy”, do Seal, interpretada pela maravilhosa Alanis Morissette, outra moça que nunca teve medo de criar em cima de suas loucuras e angústias.

Luiza S. Vilela
  • Coordenadora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Esportes
  • Revisora

Luiza S. Vilela tem 28 anos e mora no Rio, mas antes disso nasceu em São Paulo, foi criada em Vitória e viveu uma história de amor com Leeds, na Inglaterra, e outra com Providence, no Estados Unidos. Fez graduação em Letras na PUC-Rio e mestrado em Literatura e Contemporaneidade na mesma instituição. É escritora, tradutora, produtora editorial e acredita no poder da literatura acima de todas as coisas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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