27 de junho de 2014 | Ano 1, Edição #3, Ensaio fotográfico | Texto: | Ilustração:
Ensaio: Marcas no corpo
Laura Miranda

[Texto: Isadora Maldonado e Natasha Ferla; Fotografia: Alile Dara; Modelos: Renata Pegorer e Laura Miranda]

Como falar sobre lidar com os seus “defeitos” e marcas sem cair em clichês que lemos muito, mas que ajudam pouco? Acho que entender tudo isso como um processo já ajuda bastante.

Não me entenda mal, decidir de vez amar o seu corpo é uma decisão maravilhosa e radical (sim, radical!). Radical porque vivemos numa sociedade de imagens. Onde quer que olhemos, somos bombardeadas com ideais e padrões que devemos seguir. Poder parar e dizer “não! Eu vou ser como acho que devo ser” vai contra uma mídia e indústria que querem te ver consumir X produtos em ordem de chegar mais perto daqueles ideais que estão por toda a parte. Por isso que amar-se – ou pelo menos se aceitar –, é sim um ato radical ao caminho do amor próprio. Mas, às vezes, esse discurso pode ser difícil de assimilar e de se identificar.

Nosso corpo é onde a gente vive. Todos os dias, os ruins, os bons, os mais ou menos. Lidar com ele, seja como for, é uma decisão diária. O corpo em si também se transforma com o tempo, algumas vezes a gente controla isso, outras vezes não. Por que reduzir toda essa complexidade a uma ou duas frases de efeito?

Seria ótimo se algum dia todas as pessoas do mundo acordassem e decidissem aceitar seus corpos exatamente do jeito que são porque devia ser simples assim. Devia ser, mas não é, talvez por isso as frases “aceite seu corpo” sozinha pareça insuficiente e até meio publicitária. Ao mesmo tempo em que eu quero muito que esse cenário imaginário aconteça, ao mesmo tempo em que eu quero gritar às minhas amigas o quão perfeitas elas são e perguntar o PORQUÊ de elas não verem isso (e às vezes eu grito mesmo), talvez isso fosse só hipócrita, no fim das contas.

A relação que cada uma de nós tem com seu próprio corpo é única. Mas pode apostar que todo mundo passa por uns dias em que é complicado se amar e se achar bonita. Ninguém disse que o caminho da aceitação seria rápido e fácil, mas garanto que os resultados, ainda que venham aos poucos, são gratificantes. Não sinta vergonha de ter vergonha, mas tente entender de onde vem esses sentimentos. Entender o que causaram essas cicatrizes, essas manchas, todas essas imperfeições que te fazem ser quem tu é.

Alile Dara
  • Fotógrafa

Alile Dara Onawale, mulher baiana-negra-lésbica que carrega no nome e nos olhos a sensibilidade e pureza do universo feminino. Conectada com sua ancestralidade, teve seu primeiro contato com a fotografia antes dos 15 anos, quando ganhou de sua avó sua primeira câmera fotográfica. Fruto de uma geração que resgata e transcende, celebra diariamente através da sua lente o retrato da expressão de tantas outras mulheres negras que sentem e vivem.

  • Luciana

    Adorei o texto, as fotos e a idéia! Também adoro a capitolina e recomendo a leitura dos textos para todxs meus amigxs!
    E assim como a Alile, também adoro melancia!!!!

    • http://cargocollective.com/aliledara alile dara

      que querido, ler isso! muito obrigada pelos elogios, luciana! acho que a revista merece mesmo ser recomendada pra todo o mundo. e, nossa, melancia é ou não é demais??? me deu até ~~vontade. um beijo!

  • WILD CHILD

    Adorei o ensaio! Vocês poderiam fazer um também que abordassem imagens com meninas que tenham estrias/celulites, o que ainda é um grande tabu na nossa sociedade porque a maioria das PESSOAS tem, veja bem que nem afirmei mulheres porque conheço muitos homens que têm só que ao contrário de nós, divas, não são rechaçados pela sociedade por isso e se sentem seguros em relação aos mesmos, e que aflige muita gente. x

    • http://cargocollective.com/aliledara alile dara

      ei! <3 ahhh, que bom que adorou o ensaio. vou te confessar uma coisa, desde o princípio minha ideia central era fotografar estrias e celulites (também)! só que nem tudo saiu como o esperado. mas senti falta de ter registrado essas marcas tão presentes nas pessoas. :) abraços.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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