26 de julho de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração:
As marcas do estupro
Iustração de  Isadora Carangi

Iustração de Isadora Carangi

“Não” é mais do que uma palavra, pode ser uma frase completa. Dispensa argumentos, explicações. “Não” é “não”. A boca diz não, os olhos também vão dizer. Nem charminho, nem dúvida, nem joguinho de conquista, é só um não. Toquemos no ponto principal da maior consequência de ignorar um não: o estupro.

Segundo a CEDIM (Conselho Estadual de Direitos da Mulher), a cada 12 segundos uma mulher no Brasil é estuprada. O número alarmante ultrapassa os de vítimas de homicídio doloso (aqueles com intenção de matar). E sabe o que é pior? É que as mulheres vítimas de estupro são culpadas pela sociedade. Tudo pode “justificar” o ato abominável do estupro: ela estava andando sozinha, ela estava de saia curta, ela bebeu, ela entrou no carro, ela deixou ele entrar no apartamento. Enfim, estava pedindo. Quem consegue formar essa frase ‘estava pedindo’ e falar em voz alta, certamente não tem noção da dimensão do crime praticado. Que tipo de mulher pediria para ser violentada, humilhada, agredida, vítima de talvez um trauma que a desestabilizará para o resto da vida? Que tipo de ser humano acha de bom senso dizer que a mulher pede para ser estuprada?

O que a mulher pede é o direito de fazer o que quiser sem ter que viver nas sombras do medo de um ataque. Não somos presas, homens não são predadores. Eles devem fazer jus à humanidade que carregam em seus genes e não atacar com o argumento de que o instinto é maior. Homens não são bichos, são dotados de uma inteligência impressionante no mundo animal. Os instintos não são mais fortes que o bom senso. Ao dizer que é instinto atacar uma moça bêbada, apenas afirma-se que os homens são bichos incontroláveis e que, na verdade, possuem uma natureza de estuprador. Pesado, né?

Segue o trecho de uma matéria do mês de Março de 2014, retirada do site R7:

Dados do estudo Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde divulgados pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) nesta quinta-feira (27) demonstram que 50,7% das vítimas de estupro no Brasil têm até 13 anos de idade. Os adolescentes (entre 14 e 17 anos) são vítimas em 19,4% dos casos.

As estatísticas revelam o perfil das vítimas baseadas nas notificações feitas ao Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) em 2011 e demonstram que mais de 70% dos estupros vitimizaram crianças e adolescentes. O estudo conclui que o “dado é absolutamente alarmante, uma vez que as consequências, em termos psicológicos, para esses garotos e garotas são devastadoras”. Ainda de acordo com a pesquisa, 88,5% das vítimas eram do sexo feminino, 51% de cor preta ou parda e apenas 12% eram ou haviam sido casadas anteriormente.”

Muitas vezes o estupro passa escondido. Por ser tratar de meninas jovens, a consciência do estupro talvez não seja tão clara. O medo de denunciar também é um fator decisivo, pois se trata de, além de tudo, se expor. E quando o agressor não é um cara qualquer que surge nas ruas escuras? E se ele for um parente, próximo ou distante, um amigo, um namorado, um professor, um chefe? Quanto mais próximo, maior o medo de expor, pois envolve não somente a vítima. Às vezes o que impede a denúncia é a culpa que a vítima sente – que não deveria sentir, claro. É um momento de enorme fragilidade e é muito complexo lidar com os sentimentos em torno disso. Ouvimos tanto sobre a parcela de culpa da mulher em caso de estupro que, por vezes, algumas assumem como verdade.
Não é.

Esperamos que você jamais passe por essa situação, nem conheça alguém que um dia passará, mas mesmo assim vamos recomendar algumas dicas gerais sobre o procedimento a ser seguido quando você for vítima de estupro ou alguém que foi vítima chegar até você.

 O que fazer se fui vítima de estupro?
 Primeiro de tudo: Saiba que não foi sua culpa.
Segundo: faça o verdadeiro culpado arcar com as consequências.

O primeiro pensamento de quem é vítima de estupro dificilmente será ir imediatamente à delegacia. Você mal acredita que aconteceu, a realidade volta ao seu redor lentamente e você mal consegue coordenar os pensamentos. Tudo o que quer é ir para um lugar seguro e lavar aquela sujeira do seu corpo, eliminar os vestígios desse evento horrível. O corpo está limpo, mas a sua mente não. Eu sei que é praticamente impossível raciocinar numa hora dessas, mas é importante que você tome a justiça nas suas mãos e não se cale. Não se cale por você e pelas outras tantas irmãs, não permita que outras sejam vítimas.

Segundo o artigo 213 do Código Penal Brasileiro, estupro é constranger a mulher à conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça. A pena para o estuprador varia de 6 a 10 anos de reclusão. O crime de estupro foi incluso na Lei dos Crimes Hediondos. Ainda salienta-se que relações sexuais com menores de 14 anos é estupro, não importando se a criança consentiu. O mesmo serve para pessoas com qualquer tipo de doença que dificulte sua resistência, seja física ou mental.

 Como proceder
Em primeiro lugar, a vítima deve se encaminhar à delegacia mais próxima, de preferência a Delegacia de Defesa da Mulher, e fazer a queixa. No período máximo de 72h após o crime seria o ideal, por conta dos exames e do uso da pílula do dia seguinte, que pode evitar uma possível concepção. Mas é importante frisar que é de extrema importância denunciar, independendo de quanto tempo tenha passado desde o crime: DENUNCIE.

Recomenda-se não lavar dentro da vagina e levar as roupas que tenha usado, pois pode haver evidências de secreção. Depois de realizada a queixa, a vítima será encaminhada para exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal mais próximo.

Após o exame, a vítima é encaminhada para um hospital onde possam ser oferecidos medicamentos profiláticos, totalmente gratuitos. A vítima terá todo o acompanhamento necessário de exames específicos de identificação de HIV, Hepatite B, Hepatite C e Sifílis. Além disso, a vítima receberá acompanhamento psicológico e jurídico.

Priscylla Piucco
  • Membro do Conselho Editorial
  • Coordenadora de Relacionamentos & Sexo

Priscylla. Apaixonada por seriados, kpop, reality show ruim, Warsan Shire e as Kardashians. Odeio o Grêmio e cebola. Prazer, pode chamar de Prih agora.

  • Lívia Kostiuk

    Parabéns à revista Capitolina. Essa é a primeira vez que entro no site e, ao me deparar com os posts, sinto que finalmente alguém fez uma revista falando de assuntos importantes às pré-adolescentes e mulheres no geral, muitas vezes ignorado e até mal-incentivado pelas revistas “teen” e pelas outras mídias como televisões, filmes, etc. Parabéns mais uma vez e continuem com o bom trabalho!

  • laura moreira

    Não conhecia essa revista e fiquei muito feliz por existir uma comunicação com meninas mais jovens e que trata de assuntos super relevantes! Parabéns

  • Isabel

    não sei se tem na capitolina alguma outra matéria sobre estupro, mas achei muito incompleta. Acho que falta falar que o estupro pode acontecer em qualquer lugar e até por pessoas que você confia. Sempre me fizeram duvidar se fui realmente estuprada por um cara que eu mantinha relações. Tiveram vezes que eu disse não, mas ele forçou mesmo assim, achando que eu estava me fazendo de difícil, e mesmo chorando e ficando muito machucada, ele não entendia. Mas era um relacionamento tão abusivo, e ele exercia um poder, que eu me calava e não falava com ninguém. Só muito tempo depois, que eu já não estava com ele, eu fui entender o que se passava. Acho que tem muitas outras pessoas que sofrem isso e eu queria poder saber mais sobre essas histórias. Achei que quando fosse ler essa reportagem, eu iria me sentir mais confortável. Mas ela abarcou apenas um lado, aquele que é noticiado, aquele que entra nas estatísticas. Cadê o resto?

    • Priscylla Piucco

      Oi, Isabel. O ‘resto’ que você se refere pode ser tratado em outras matérias, mas não foi o viés escolhido para essa. Optei por tratar mais do lado jurídico do estupro e da conscientização sobre certos pontos. Infelizmente, não posso tratar de todos os pontos de um tema tão abrangente como o estupro. Há muito o que se falar ainda, inclusive da cultura do estupro. Mas obrigado por ter lido e comentado. Anotaremos a sugestão para futuras pautas. Beijos.

  • Laís

    Gostei muito do texto, parabéns à Priscylla! acho q poderíamos discutir mais também sobre a imensidade do número de mulheres que são violentadas e abusadas sexualmente por seus próprios companheiros. Sim, isso também é estupro e infelizmente grande parte das vezes não entra nas estatísticas. Sim você é casada e pode ter sido e ser violentada cotidianamente e não denunciar, achar que é seu ‘dever’ de mulher. Se proteja, se empodere, DENUNCIE!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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