10 de fevereiro de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: and | Ilustração: Clara Browne
Ô abre alas para as marchinhas de carnaval!

Texto de Clara Browne e Débora Albu

É a primeira semana do ano e, no Rio de Janeiro, a abertura informal do Carnaval já acontece — mesmo que a festa seja só em fevereiro, dois meses antes da descoberta do Brasil. Isso porque o Carnaval há muito deixou de ser uma festa religiosa para quaresma até a Páscoa e, de tempos para cá, se tornou uma grande celebração da alegria com máscaras, fantasias, confete, serpentina e muito álcool.

Já na Antiguidade, o Carnaval consistia em festas cheias de comida e bebida, como busca dos prazeres da vida. Na época do Renascimento, as máscaras foram incorporadas às festanças e, daí para as fantasias atuais, foi um pulo. Na verdade, o modelo carnavalesco atual — com blocos de rua, desfiles e fantasias — foi exportado pelos franceses, que deram início ao Carnaval moderno durante a época vitoriana.

Agora, além das fantasias, uma das coisas mais marcantes do Carnaval é o som! Os sambas-enredo e as marchinhas são os tipos musicais específicos dessa época do ano que define o calendário brasileiro. As marchinhas, inclusive, não surgiram no Brasil, sabia? Elas são adaptações de uma herança colonial brasileira: as marchas populares portuguesas. Essa manifestação data de muitos séculos atrás e sofreu diversas alterações tanto no ritmo quanto como comemoração. É dito que as marchas eram uma forma de celebração pagã e foram adaptadas a celebrações em dias de santos, como Santo Antônio, São João e São Pedro.

No Brasil, as marchinhas começaram a ser incorporadas à música popular ao fim do século XIX. A primeira marchinha de Carnaval reconhecida foi “Ó Abre-Alas”, composta por Chiquinha Gonzaga, em 1889, para o cordão de Carnaval Rosa de Ouro. Chiquinha Gonzaga foi uma figura muito importante para a história da música popular brasileira: foi uma das primeiras mulheres a compor e ser pianista profissional, tocando em salões antes restritos somente aos homens. Além de ter desafiado a ordem machista da época, a pianista fazia parte do movimento abolicionista e contribuiu significativamente para a concretização política da abolição. Ela compôs diversas obras, dentre elas muitas para o teatro musicado, bastante popular no início do século XX.

A partir das primeiras décadas do século XX, as marchinhas se popularizaram e foi criado um concurso de marchinhas nos anos 30, que tornou famosos diversos compositores como Lamartine Babo, Nássara, Braguinha, Haroldo Lobo, e muitos outros. A cantora Carmen Miranda era uma das mais famosas intérpretes do ritmo, além de Emilinha Borba, Linda Batista, Orlando Silva e Silvio Caldas. As marchinhas continuaram populares até a década de 70 e, somente a partir de 2000, foram trazidas novamente ao cenário musical, com iniciativas como o novo concurso de marchinhas promovido pela Fundição Progresso, no Rio de Janeiro.

Por terem marchinhas de tantas épocas diferentes, podemos perceber o reflexo de todos esses tempos passados nas letras de nosso Carnaval. Desde aquelas músicas que nos transportam para o passado, em que os bailes tinham aquela ponta de tristeza do amor que se foi entre a colombina e o pierrô, ou o amor que nutria o arlequim e não foi correspondido, até músicas que voltam para uma estranha época nacionalista do nosso país. Podemos ver preconceitos e também críticas, o grito pela mudança e o empoderamento de diferentes tipos de pessoas.

É importante se atentar para os preconceitos inseridos nas marchinhas carnavalescas. Isso não significa que não devemos cair no hali gali e aproveitar os blocos. Mas é importante perceber o machismo de muitas marchinhas, que sexualiza a mulher (especialmente as mulheres negras, em um combo machista e racista), como o caso de “Maria Escandalosa“, que tira sarro tanto da mulher que sai com vários caras quanto daquela que não se sexualiza, como se pode ver.

Ao mesmo tempo em que temos marchinhas como “Cabeleira do Zezé“— em que a homofobia e a transfobia são extremamente presentes ao se perguntar se é “transviado” e mandando cortar seus cabelos — ou “Maria Sapatão” — em que se confunde identidade de gênero com sexualidade chamando a moça de sapatão, mas afirmando que “de dia é Maria, de noite é João” —, também encontramos marchinhas como “Salve a mulher brasileira”. Em época de guerra na Europa e o constante medo do Brasil entrar no meio da briga, surgiu no Carnaval essa marchinha de empoderamento da mulher brasileira. Apesar do nacionalismo forte da época e a ideia machista de que as mulheres, se forem para guerra, devem ser enfermeiras, a marchinha representa a mulher como uma pessoa forte, com opinião e que pode lutar em uma guerra:

 Ofenderam a nossa bandeira,

A mulher brasileira também tem opinião:

Nós seremos enfermeiras

E se for preciso manejamos o canhão

 

Não temos medo da afronta de ninguém

Nós, as mulheres, iremos lutar também

Cada brasileiro representa um fuzil

Pra defender a pátria amada Brasil

Outra música que aponta o machismo da sociedade é “Eva“, onde o eu lírico pede a Eva que a leve ao Paraíso, e explica: “Queria também / Usar pouca roupa / Mas é que a polícia daqui / Não é sopa”, o que indica a falta de tolerância com o corpo da mulher, o qual, por ter sido sexualizado pela sociedade, se tornou proibido de mostrar — e até hoje sabemos que ainda não podemos exibir nossos corpos sem sermos sexualizadas.

Na onda de críticas à sociedade, as marchinhas de Carnaval fazem um excelente trabalho de juntar a dor e o humor. Na época da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, surgiu a marchinha “Quem é o tal?”, que tira sarro de ninguém mais ninguém menos que Adolf Hitler:

Quem é que usa cabelinho na testa?

E um bigodinho que parece mosca?

Só cumprimenta levantando o braço

Ê, ê, ê, ê! Palhaço!

Especialmente nos anos 1950, enquanto havia o viés das marchinhas de Carnaval clássicas que falavam de bebida, amor e brincadeira, a marchinha política ganhou muita força e surgiram várias falando sobre a situação dos pobres, dos negros, das mulheres etc. Na época do grande apagão nacional, que deixou mais de 70 milhões de pessoas sem luz, criaram várias músicas tirando sarro da Light, empresa responsável pela energia elétrica na época — dentre elas, esta é a minha preferida.

E, claro, além de aproveitar para criticar sem medo, em qualquer que seja a época, o Carnaval é especialmente um momento de diversão, de brincadeira, de folia. Assim, para vocês aproveitarem esta festa que se aproxima ao melhor estilo, criamos uma playlist só de marchinhas carnavalescas para inspirar e despertar o confete e a serpentina que estão dentro de cada uma de nós.

Vem botar seu bloco na rua com a gente!

Debora Albu
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Debora é mestra em Estudos de Gênero e é formada em Relações Internacionais. É carioca, apesar de ter passado uma temporada da vida em Paris e todo mundo a chamar de "francesinha" - por vezes acredita ser verdade. Faz parte da gestão da Agora Juntas, um rede de coletivos feministas no Rio de Janeiro. É ciberativista e feminista antes mesmo de entender o que essas palavras significam.

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

  • Yoman Bittencourt

    ..as mulheres brasileiras são legais,estão em todas,na cozinha,no trabalho,no hospital,no trânsito,nas escolas e também no CARNAVAL.Salve a Mulher Brasileira que se for preciso maneja o canhão!!

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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